A discussão aqui estabelece-se sobre a categoria que melhor descreveria a relação entre o verdadeiro e o falso. Este artigo talvez seja um daqueles muito difíceis para um leigo, e talvez um dos mais distantes da forma contemporânea de pensar. Tendemos a pensar nas categorias do “verdadeiro” e do “falso” apenas como linguagem, como categorias linguísticas completamente apartadas da concretude das coisas. Para nós, com toda a nossa herança idealista, matematicista e nominalista, é difícil perceber a sutiliza das relações entre o espírito e o ser, em artigos como este, ou em como a relação entre os transcendentais do ser explica e define a relação entre o verdadeiro e o falso, aqui neste artigo.
De fato, a verdade, como devemos lembrar, é a relação entre o ser e uma inteligência eu aprende, e encontra-se, como tal, em primeiro lugar na própria inteligência. Não simplesmente como uma linguagem que a inteligência forma sobre um mundo em si mesmo incompreensível, ou intrinsecamente vazio de significado. A aprendizagem é a assimilação do ser pela inteligência; é, no caso da inteligência humana, uma construção, mas não uma construção de realidade. Conhecer não é criar uma linguagem que seja capaz de dar significado à realidade; é assimilar a realidade em si e ser capaz de refletir sobre ela, de tornar-se consciente da correspondência entre aquilo que é em si mesmo e aquilo que passa a ser em nós, intencionalmente. Conhecer, portanto, é cuidar de uma correspondência. E isto só tem sentido se a realidade, por seu turno, está prenhe de significado em si mesma, porque o seu ser é fruto de uma inteligência que a concebeu plena de sentido por amor, porque quer fazer-se relação com aquele que aprende. A realidade, portanto, é o véu diáfano que nos põe em contato com a própria realidade divina, sem violar nossa criaturalidade. E a inteligência prática, com sua capacidade de completar, de transformar aquilo que nos foi dado, nos assemelha a Deus, desde que não esqueçamos qual é a fonte última do ser, da verdade e do bem.
Tendo isto em mente, podemos agora penetrar neste artigo. A proposta aqui é descobrir qual é a natureza da relação entre o verdadeiro e o falso. Devemos nos lembrar sempre, ao longo do artigo, da natureza profundamente realista da filosofia aristotélico-tomista, e da relação entre o ser, a inteligência, a vontade e a sensibilidade que geram os chamados “transcendentais do ser”.
A proposta controvertida, para provocar o debate, é a de que a relação entre o verdadeiro e o falso não se explica pela categoria do “contrário”. Como veremos, há três categorias que serão trazidas á baila aqui, para tentar explicar esta relação. 1. A categoria dos “contrários”, como sabemos, é uma categoria lógica (na lógica realista) e que se explica como aquilo que se opõe dentro do mesmo gênero. 2. A categoria da negação, que implica em declarar o não-ser, e 3. a categoria da privação, que implica em atribuir o não-ser a uma realidade específica, com relação a uma característica devida.
O artigo nos trará três argumentos objetores, que tentarão comprovar a hipótese controvertida inicial. O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, para tentar reduzir a categoria do verdadeiro e do falso à categoria do ser e do não-ser. A citação transcreve a afirmação agostiniana de que “o verdadeiro é o que é”. E daí o argumento quer deduzir que o verdadeiro é simplesmente idêntico ao ser e o falso é simplesmente o não-ser. E uma vez que o ser e o não-ser não são contrários, mas o não-ser é uma negação do ser, o argumento conclui, portanto, que a categoria do verdadeiro e do falso enquadram-se na categoria da negação, não na categoria da contrariedade.
O segundo argumento diz que um contrário nunca está no outro; o branco não está no preto, o ato não está na potência, e assim por diante. Mas segundo o argumento, o falso está no verdadeiro, pois um falso personagem depende de um verdadeiro ator para existir (um verdadeiro ator é necessário, numa montagem da Ilíada, para representar no palco um falso “Heitor”). Assim, o argumento conclui que o verdadeiro e o falso não se relacionam pela categoria dos “contrários”.
O terceiro argumento também sobrepõe a categoria ontológica com a categoria lógica – que, como sabemos, são categorias distintas mas não separadas. Aqui, o terceiro argumento lembra que não existe contrário quanto a Deus, porque, sendo absoluto, nada é contrário à substância divina. E o argumento prossegue: a falsidade se opõe a Deus, porque as Escrituras chamam os ídolos de “mentira”. Mas se nada pode ser contrário a Deus, e os ídolos, que não são Deus, são chamados de “falsos deuses”, e são realmente falsos, não o podem ser, diz o argumento, por serem contrários a Deus, porque não há contrário com relação a Deus, mas por serem aquilo que não é Deus. Mas são, de fato, falsos deuses. Então, diz o argumento, não se pode explicar o verdadeiro e o falso pela categoria da “contrariedade”.
Como argumento sed contra, São Tomás citará “O” Filósofo (que já sabemos que é Aristóteles), que, no segundo livro da obra “Da Interpretação”, afirma expressamente que uma opinião falsa é contrária a uma verdadeira, mostrando que a relação entre o verdadeiro e o falso se explicam pela categoria da contrariedade, e não pelas categorias da negação ou da privação.
São Tomás passará a construir sua resposta sintética, que deve ser compreendida sempre a partir da sua própria visão realista do mundo inclusive como exposta na obra “Do Ente e da Essência”. E ele começa logo afirmando que o verdadeiro e o falso enquadram-se na categoria dos contrários, não das negações nem das privações. E ele vai explicar.
A categoria das negações, explica São Tomás, tem consistência apenas no plano espiritual, mas não no plano fático, das coisas. A negação, pura e simples, é apenas um ente de razão, e não se coloca na realidade ontológica, senão acidentalmente. Quando eu digo que a pedra não enxerga, estou relacionando a pedra com a categoria da visão apenas na minha mente, porque no plano ontológico não há relação possível entre nenhuma pedra e nenhuma capacidade de visão. Não se afirma, portanto, nada concretamente, existencialmente, de alguma pedra ao negar que pedras enxerguem; de certa forma, estabelece-se uma fronteira no reino da existência, ao dizer que entre o conjunto das pedras e o conjunto das coisas que enxergam não há elementos comuns. Não há, pois, sujeito determinado ou determinável para o enunciado “pedras não enxergam”. É uma construção de razão. Portanto, a simples negação não constitui o falso. Ao contrário, ao negar que pedras enxerguem, eu estou fazendo um enunciado verdadeiro. A negação e o falso não têm, pois, relação de identidade.
E quanto à privação? A privação é um tipo muito concreto de negação. Ela é uma negação específica, vale dizer, é a negação de um aspecto esperado em algum ser. Quando eu digo que a pedra não enxerga, isto é uma negação, mas a falta de visão não é uma privação, na pedra, porque ninguém espera que uma pedra enxergue. Mas se digo que o meu cão é cego, estou falando da privação de visão num ser que deveria enxergar, pela sua natureza. Nos dois casos, no entanto, estou ratando de um ente de razão: a falta de visão não é um ser, mas uma construção de razão para significar aquilo que não é. Neste sentido é que São Tomás diz que a negação não põe nada nem especifica sujeito, enquanto a privação, mesmo não pondo nada, especifica o sujeito. Assim, afirmar uma privação de um ser que de fato a possui é verdade; a verdade pode ou não consistir numa privação.
No caso do contrário, ela põe algo e especifica o sujeito. Quando eu digo que algo era preto e agora é branco, ponho o preto que era e o branco que agora é num sujeito específico. Os contrários, portanto, não são meros entes de razão, mas uma relação de exclusão recíproca com relação a um aspecto de um ser, que pode ser deste ou daquele modo, mas não dos dois modos ao mesmo tempo.
Neste sentido, o verdadeiro e o falso são contrários, porque dizem respeito à relação entre aquilo que a coisa é e aquilo que dela é apreendido por uma inteligência. Quando correspondem, há a verdade. Quando, ao contrário, não correspondem, há o falso. Vale dizer, o verdadeiro e o falso dizem algo de positivo – afirmam uma relação real entre o que é e uma apreensão intelectual. E especificam o seu sujeito. Há, portanto, adequação em dizer que o verdadeiro e o falso são da categoria dos contrários. Afirmar o verdadeiro ou o falso, portanto, é dizer algo sobre uma relação, vale dizer, qualificar sua conformidade.
Posto isto tudo, São Tomás passa a responder às objeções iniciais. A primeira objeção é a que cita Santo Agostinho para afirmar que a verdade é simplesmente aquilo que é, ou seja, que entre a verdade e o ser existe simples identidade; uma vez, diz a objeção, que o não ser, a rigor, não é o contrário do que é, mas é a simples negação do ser, então o falso é simplesmente a negação, e não o contrário, do verdadeiro. São Tomás responderá que o ser, em si, é a verdade da coisa. Ou seja, a coisa de fato tem de verdade o que tem de ser. Se a verdade das coisas fosse a verdade em sentido próprio, então o raciocínio estaria correto. Mas a verdade em sentido próprio está sempre num intelecto, e a verdade das coisas somente existe de maneira imprópria, derivada, analógica, como relação entre a coisa e a mente que a concebeu. Assim, a verdade consiste propriamente na apreensão daquilo que a coisa é, enquanto o falso é a apreensão daquilo que ela não é, vale dizer, o falso é aquilo que não existe como apreendido! O falso é a não apreensão que, refletida, se revela como tal, por revelar a desconformidade entre o intelecto e a coisa cuja apreensão, inadequada, revela-se como uma não apreensão. Ora, entre uma apreensão que se percebe como tal e uma apreensão que se revela como não apreensão a relação é de contrário, como entre as afirmações “o bem é bom” e “o bem não é bom”.
A segunda objeção dizia que a verdade e o falso não poderiam ser enquadrados na categoria dos “contrários”, porque um contrário nunca está no outro; o branco não está no preto, o ato não está na potência, e assim por diante. Mas, segundo o argumento, o falso está no verdadeiro, pois um falso personagem depende de um verdadeiro ator para existir (um verdadeiro ator é necessário, numa montagem da Ilíada, para representar no palco um falso “Heitor”). São Tomás fará uma daquelas distinções sutilíssimas: o falso não se funda no verdadeiro, que lhe é contrário; funda-se, porém, naquilo, naquele ente, que é sujeito da verdade. E assim se dá com todos os transcendentais: o mal não se funda no bem, que lhe é contrário, mas se funda naquilo que é sujeito do bem, como uma desordem ou privação. Do mesmo modo, toda privação é o contrário de ser, mas se funda no ente que não apresenta aquela perfeição esperada. Todos os transcendentais dependem do ser, e seus contrários fundam-se, portanto, no ente que funda o respectivo transcendental, visto sob uma perspectiva de falha, de logro, de frustração. Embora o falso, o mal e a privação sejam os contrários da verdade, do bem e do ser, eles não existem em si mesmos, como realidades ontológicas; fundam-se nos entes e suas relações com sua própria integridade, ou com o outro,, na sua inteligência, vontade ou sensibilidade, sob a perspectiva do logro, da frustração, estabelecendo o contrário daquilo que deveriam estabelecer. A verdade, o bem, a entidade, estas são perfeições, são vitórias, adequações relacionais do ser, e têm existência real, absoluta, incondicional. O mal, o falso, a privação, estes são sempre falhas, insucessos, frustrações, que não existem em si mesmos, mas têm consistência apenas no ente que, em sua relação, os apresenta. São, portanto, sempre relativos.
A terceira objeção é aquela que lembra que deus, sendo absoluto, não comporta contrários. Mas, citando a Bíblia, afirma que os ídolos são falsos deuses – e disto quer concluir que, se Deus não comporta contrários, mas a Revelação admite que se fale em falsos deuses, então o falso não pode ser definido pela categoria do contrário.
São Tomás vai fazer mais uma distinção: o verdadeiro e o falso, neste caso do deus verdadeiro e do ídolo, não estão em Deus mesmo, mas na nossa inteligência, que, apreendendo mal, toma o ídolo por Deus, concebendo uma falsa opinião – que é contrária à opinião de que Deus em si mesmo é a plena verdade. Assim, os ídolos não se chamam de “falsos” porque se opõem a Deus, em si mesmo considerado, mas porque provocam em nós uma opinião equivocada, quanto á unidade divina. Mais uma vez, há que se distinguir entre aquilo que em si mesmo é verdadeiro daquilo que, em relação com a nossa inteligência, torna-se sujeito de uma verdade ou de uma falsidade.
Terminamos o estudo da verdade e da falsidade, e de sua relação com Deus. Mas o tema é inesgotável, e nossa aproximação, pobre e superficial. A próxima questão trata de um tema interessantíssimo, a vida de Deus – na qual debateremos, é claro, a nossa própria vida em relação com ele.
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