Depois de ter discutido longamente a questão da verdade, e ter estabelecido que a verdade, como transcendental do ser, deve ser compreendida sempre como um conceito analógico, relacional, que tem seu lugar próprio na inteligência (de maneira absoluta, na inteligência divina, e de maneira própria, mas derivada, na inteligência criada), e ainda que as coisas podem dizer-se verdadeiras na medida que conformam-se com a inteligência que as criou, São Tomás passa a discutir agora a questão do falso. Como se dá o falso? Onde ele se encontra de modo próprio?

Note-se que a relação que origina a verdade na criação sempre diz respeito ao conhecimento. Deus conhece tudo de maneira absoluta, total, eterna e imediata. Assim, a inteligência divina é a primeira medida de toda verdade. As coisas naturais medem-se, portanto, por sua conformidade com a inteligência divina, ou seja, elas têm de verdade aquilo que tiverem de perfeição. A inteligência criada, pois, na sua ciência, contempla as coisas naturais e assimila suas formas; ao julgar estas formas intencionais em relação com as formas naturais ela faz nascer a verdade em si, conforme a relação de julgamento seja verdadeira. Assim, a inteligência criada é medida, quanto à verdade, pela ciência que adquire quanto às coisas naturais. Mas, uma vez que as criaturas inteligentes são também criativas, porque são capazes de produzir artefatos, elas medem a verdade dos artefatos que produzem com os projetos de sua própria inteligência, e os artefatos terão de verdade o que tiverem em si de perfeição, relativamente à concepção do artesão.

Assim, esta questão 17 vai pesquisar e debater sobre a natureza do falso. Em que momento deste processo surge a possibilidade do erro, e, com ele, a questão da falsidade se apresenta?

O primeiro artigo vai propor o debate sobre a questão da falsidade nas coisas. Em que medida a falsidade e apresenta, de modo próprio, nas coisas, e em que medida as coisas podem apresentar-se como falsas? Pode-se falar em coisas naturalmente falsas, ou esta categoria é própria apenas para os artefatos?

O segundo artigo tratará da falsidade nos sentidos. Em que medida os sentidos nos enganam? Há falsidade neles ou, de regra podemos confiar em suas percepções? Este debate, portanto, é necessário e importante, além de muito atual. Como podemos falar, aqui, de engano de percepção, e em que medida a filosofia tomista pode lidar, por exemplo, com uma ilusão de óptica?

Em seguida, o debate passa para a questão da falsidade no intelecto. É o terceiro artigo. Superada a questão da confiabilidade da percepção sensorial, precisamos estabelecer o grau de confiança que devemos ter em nossa razão. Como podemos nos enganar, no processo de aprendizagem? Em que sentido podemos dizer que a falsidade reside exatamente no intelecto, e mais precisamente no intelecto criado?

Por fim, é preciso clarear a própria noção de falsidade. Ele revela apenas um acidente da verdade, uma sua imperfeição? O falso tem a mesma extensão do verdadeiro, é uma dimensão deste, ou é de fato o seu contrário?

São debates interessantíssimos, que nos ajudarão a estabelecer melhor o firme realismo relacional da lógica de são Tomás. Vamos a eles.