Estudamos, ao longo destes textos, a noção de verdade no pensamento de Tomás de Aquino, assim como exposto na Suma Teológica. Foi mais uma estadia num dos vãos desta Catedral maravilhosa, que é como uma agência bancária ao contrário – aqui, somos nós que saímos mais ricos cada vez que a visitamos.
Nós percebemos toda a riqueza da noção de verdade em São Tomás. Não é uma noção estática, longe disso. A verdade é uma dimensão do ser, mas é uma dimensão dinâmica, porque se configura pela relação entre o ser e a inteligência. Diversamente da nossa visão contemporânea da verdade como construção de certeza e, de certa forma, como criação do mundo pelo nosso espírito, São Tomás tem uma noção muito mais sólida de verdade como compartilhamento do ser, que não exclui a colaboração das inteligências criadas num mundo aberto, mas sólido, criado pelo Deus de amor. A verdade, assim, é um enriquecimento, porque é a posse espiritual de todas as coisas no espírito de quem conhece. Não existe, para São Tomás, outra forma mais real de ser rico do que conhecer; conhecer é assimilar verdadeiramente aquilo que se conhece. Seguindo Aristóteles, São Tomás também defende que a alma é, de certo modo, todas as coisas. Seguindo Platão, ele também defende que todas as coisas preexistem como ideias em Deus, de forma muito mais real e perfeita do que existem no mundo factual. E, de modo estritamente cristão, põe a relação entre Deus, as coisas e a nossa inteligência como uma relação de doação e de complementariedade. Mas não esquece de nos advertir que, na sua visão, o ser sempre precede o pensamento, do ponto de vista lógico, pelo menos para nós; apenas quando somos interpelados pelas coisas que existem, e as conhecemos, é que refletimos sobre quem somos e como conhecemos. Não há uma goseologia prévia ao próprio ato de existir; e aqui São Tomás se afasta de filósofos como descartes e Kant, para quem a pergunta pelo espírito que conhece vem antes da pergunta pelo ser das coisas.
Esta noção de verdade, portanto, é muito rica, e pode nos ajudar a sair das aporias em que a contemporaneidade nos colocou. Ela nos fornece o lastro necessário para a objetividade, por um lado, ao colocá-lo em Deus. Mas nos permite a liberdade de interagir e criar, porque não somos meros servos obedientes de uma realidade estática que deglutimos passivamente, mas filhos inteligentes convidados a levar a própria criação à perfeição pelo ato de conhecer e de criar, e inclusive de ser critério de verdade para nossos próprios artefatos, respeitada, por sua vez, a verdade daquilo que se dá como elemento para as nossas próprias criações. É, portanto, uma noção de verdade libertadora e relacional.
Neste artigo, São Tomás discutirá a objetividade da verdade. Como conciliar a objetividade da verdade com a contingência do mundo? Como objetificar a verdade sem ontologizá-la, sem criar um reino platônico de essências imutáveis e independentes do próprio ser de Deus? E como conceber a verdade daquilo que é em si mesmo contingente, como a criação em seu fluxo histórico? Como conceber o universo, a um só tempo, como um reino de liberdade, desprovido de determinismos, e ao mesmo tempo aceitar que Deus pode ser o garante último do nosso conhecimento? Como garantir a objetividade do conhecimento sem cair nem no determinismo, por um lado, nem no relativismo, por outro? Como conciliar a onisciência divina com a contingência e autonomia ontológica do mundo? É uma tarefa grande demais. É por isto que São Tomás a prepara sempre pacientemente, sempre artigo a artigo, num ritmo completamente diverso daquele a que estamos acostumados em tempos de informática e comunicações instantâneas, mas de profundidade epidérmica. São Tomás é como um grande rio amazônico: flui lentamente, porque é antigo e profundo.
São Tomás nos proporá, agora, exatamente este debate: será que a verdade é mesmo imutável? A hipótese inicial é, portanto, a de que a verdade é, em si mesma, imutável. Mais uma vez, trata-se de propor que conceber a verdade como uma noção unívoca leva a aporias inaceitáveis, e propor a solução analógica para a questão.
São Tomás nos trará quatro argumentos objetores, em suporte à hipótese inicial controvertida. O primeiro argumento cita Santo Agostinho, para quem a verdade não é igual à mente, porque senão seria mutável como a mente. Assim, segundo este argumento, a verdade seria sempre rígida e imutável, e estranha, em si mesma, à inteligência humana (que teria, com ela, uma mera relação passiva de absorção). Para fugir de qualquer risco de relativismo, o argumento relê Santo Agostinho numa chave rigidamente platônica, e torna a verdade totalmente outra relativamente à inteligência humana.
O segundo argumento é mais aristotélico, e parte da noção aristotélica de que a matéria-prima é aquilo que permanece sobre todas as gerações e corrupções, porque seria ingênita (ou seja, não criada) e incorruptível (vale dizer, indestrutível). Assim, se a verdade permanece depois de toda mudança, porque, mesmo após toda mudança, ainda é verdade dizer que houve uma mudança, isto é, afirmar que aquilo que era já não é, e aquilo que não era agora é, então a verdade tem que ser como a matéria-prima: ingênita e indestrutível; e disto o argumento conclui que a verdade é imutável.
O terceiro argumento parte da relação entre a lógica e a ontologia, defendendo uma independência entre as duas coisas. A partir da noção de que a verdade é uma certa retidão, pela qual a coisa expressa concretamente, em sua existência, a verdade sobre ela que está na mente divina, o argumento afirma que um enunciado sobre uma realidade contingente não deixa de ser verdadeiro quando a realidade muda; assim, por exemplo, o enunciado “Sócrates está sentado” não mede a sua verdade pela contingência de que Sócrates está sentado ou em pé; mas sua verdade decorre de que o pensamento divino sobre Sócrates é eterno e atemporal, e portanto o enunciado permanece verdadeiro pelo simples fato de que Deus pensou em Sócrates sentado, e este pensamento está fora do tempo. Assim, mesmo que Sócrates venha a se levantar ou a deitar-se, continua sendo verdadeiro, porque correlato com a mente divina, que “Sócrates está sentado”. O argumento então conclui que a verdade é imutável em si mesma.
O quarto argumento também passa pela relação entre a verdade de um enunciado e o tempo. O argumento levanta a questão da causa e do efeito, para dizer que a realidade contingente é causa da verdade do enunciado. Mas a mesma realidade contingente – o fato de Sócrates estar sentado – é causa da verdade de três enunciados: “Sócrates está sentado”, de “Sócrates esteve sentado” e de “Sócrates estará sentado”. Perante o mesmo fato, um destes três enunciados será sempre verdadeiro. Ora, se a verdade dos três depende do mesmo fato, e tem, portanto, a mesma causa, significa que a verdade é a mesma para os três; portanto, a verdade deles não muda a partir da mudança de perspectiva temporal. E disto o argumento quer concluir que a verdade é imutável.
Como estamos vendo, os quatro argumentos tentam tornar a noção de verdade unívoca a partir da concepção de que a verdade se exprime perfeitamente na mente de Deus, que é não-temporal e não-espacial. E se não utilizarmos a forma analógica de pensar, que nos permite estabelecer que aquilo que é absolutamente próprio na mente de Deus pode ser dito de maneira participada, derivada, também da nossa mente, não parece haver maneira de responder a estes argumentos.
Mas São Tomás nos dirá: tem de haver uma maneira de responder a eles, já que é palavra revelada, nas Escrituras, que “as verdades desaparecem dos filhos dos homens” (salmo 12 (11), 2, Vulgata). Ora, se as escrituras nos atestam que a verdade pode variar na inteligência dos seres humanos, ela tem que ser mutável em alguma dimensão. Este é exatamente o argumento sed contra que São Tomás nos traz.
Examinaremos a resposta sintetizadora no próximo texto.
Deixe um comentário