Talvez em nenhum outro artigo a diferença entre a lógica que conhecemos contemporaneamente, que se preocupa com a “quantificação dos enunciados”, e a lógica que São Tomás conheceu e ensinou fique mais patente do que aqui, em toda a Suma. De fato, a verdade é exatamente a relação entre o conhecimento e o ser, que toma a forma de um transcendental do ser, isto é, não é senão o próprio ser sob uma razão especial – a relação com a inteligência. A lógica, portanto, é a explicitação, a sistematização desta relação. É neste sentido que a verdade é uma qualidade lógica – não como uma quantificação de enunciados, mas como adequação de uma relação, a relação de conhecimento.
E é com isto em mente que São Tomás começa a construir sua resposta sintetizadora, neste artigo. Ele lembra que aquilo que chamamos de “verdade lógica”, a verdade dos enunciados que construímos, não é outra senão a verdade da inteligência que formula o enunciado. É, pois, em sentido derivado, analógico, participado, que se fala na “verdade dos enunciados”; ela existe apenas como participação na verdade que está no intelecto que formula o próprio enunciado. O enunciado lógico, portanto, não é o sujeito da qualidade “verdade”; pelo menos não em sentido próprio. Apenas analogicamente, portanto, podemos dizer que um enunciado, que é uma construção lógica de uma inteligência, é verdadeiro: apenas como sinal da verdade que existe propriamente no intelecto que o formulou.
E São Tomás exemplifica, para evidenciar a natureza analógica, participada, da verdade lógica dos enunciados: do mesmo modo que alguém chama um remédio de “saudável”, por ser causa de saúde de alguém, ou chama um exame de urina de “saudável” por ser sinal da saúde de alguém, do mesmo jeito os enunciados são chamados de “verdadeiros” por serem sinal da verdade de algum intelecto. Por isto, um enunciado formado por uma inteligência criada é sempre contingente, mesmo quando expressa uma verdade eterna; é que a verdade do intelecto contingente forma-se e destrói-se na medida da contingência deste intelecto. E como se pode falar, então, numa verdade eterna? Para que haja uma verdade eterna, é preciso, por necessidade, que haja um intelecto eterno para concebê-la, e ela é dita eterna apenas em relação com este intelecto. Mas São Tomás nos adverte: não devemos imaginar que a verdade eterna é algo separado do próprio ser de Deus, como se houvesse algo eterno que não fosse o próprio Deus; em Deus, o ser e seus transcendentais são uma e a mesma coisa.
Após condensar tanta sabedoria em um brevíssimo parágrafo, São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor afirmava que, como lembra Santo Agostinho, “nada pode ser mais eterno do que a definição do círculo e o fato de que dois mais três são cinco”; ora, diz o argumento, tanto a matemática como a geometria referem-se às coisas criadas. Mas tratam de verdades eternas. Logo, o argumento conclui que a verdade criada é eterna. São Tomás responderá que a matemática e a geometria tratam de coisas criadas, de fato. Mas, como vimos na resposta sintetizadora de Tomás, a verdade dos enunciados tem necessariamente que corresponder à verdade que está em alguma inteligência. Ora, a verdade dos enunciados destas ciências é uma verdade eterna porque referem-se a noções que são verdadeiras em primeiro lugar na mente divina.
A segunda objeção parte da noção aristotélico-tomista de “universais”. Os universais, diz o argumento, estão em toda parte e sempre, no sentido de que sua existência ultrapassa a dos indivíduos que participam deles. Logo, diz o argumento, os universais são eternos; uma vez que a verdade é um universal, já que todas as criaturas participam dela de algum modo, então o argumento conclui que a verdade criada existe de modo eterno. A chave, neste argumento, é a confusão entre “estar sempre e em toda parte”, por um lado, e “ser eterno”, por outro.
São Tomás responderá que há duas maneiras pelas quais se pode entender a característica de “estar sempre e em toda parte”: pode-se entender como onipresença factual, que se estende a todos os tempos e lugares em razão de sua própria natureza, como é o caso de Deus e somente dele. Mas também pode entender-se como característica daquilo que não está especificado para existir no mundo das coisas, no mundo histórico do aqui e agora. A matéria-prima, por exemplo, existe apenas como ente de razão, antes de ser especificada e ganhar existência por alguma forma. Os universais têm também esta característica: enquanto não são individualizados pela existência factual do aqui e agora, existem apenas num intelecto. No caso, se estamos falando dos universais em sentido próprio, eles existem na mente de Deus antes que em qualquer outra parte; e, como verdade na mente de Deus, existem de modo eterno, dado o princípio, estabelecido na resposta sintetizadora, de que a verdade existe de modo próprio sempre numa inteligência, e acompanha o modo de existir de tal inteligência.
O terceiro argumento objetor joga com a noção de tempo: se alguma coisa é verdadeira agora, então antes seria verdadeiro que esta coisa seria verdadeira agora. Logo, sempre foi verdade que, no futuro, alguma coisa seria verdade agora. Logo, conclui o argumento, a verdade criada, pelo menos de algum modo, é eterna.
São Tomás responderá ainda com base nos princípios estabelecidos de que a verdade sempre existe como tal, de modo próprio, numa inteligência, e de modo derivado, participado, nas coisas e nos enunciados. Assim, o futuro é verdadeiro à medida que está contido em sua causa. Se a causa é eliminada, o futuro não pode ocorrer. Ora, São Tomás nos lembra que a única causa que não pode ser eliminada é a causa primeira: quando Deus conhece o futuro (e ele conhece até mesmo o futuro contingente) a verdade do seu conhecimento torna verdadeira a verdade criada que existirá no intelecto criado, no futuro. Assim, não é a própria verdade criada, isto é, a verdade que existe no intelecto criado, que é verdadeira desde sempre; ela existe somente na medida da existência do próprio intelecto criado. Mas a inteligência divina, que tudo conhece e, em última instância, causa tudo, torna verdadeiro o fato de que a verdade criada existirá. Mais uma vez, a noção que nos foi entregue na resposta sintetizadora é capaz de elucidar a dúvida exposta.
Por fim, o quarto argumento objetor é aquele que torna absoluta a verdade dos próprios enunciados, independentemente da verdade criada existente no intelecto que os concebe – o que, como vimos na resposta sintetizadora, é uma forma equivocada de lidar com o conceito (que é analógico) de verdade. O argumento a verdade dos enunciados é eterna, porque não pode ter princípio nem fim; e prossegue: se a verdade do enunciado começou a existir, então antes desta verdade existir seria verdade afirmar que a verdade deste enunciado não existia. Mas para isto esta afirmação teria que ser verdadeira por alguma verdade, o que levaria a conclusão de que a verdade sobre o enunciado – ainda que seja a verdade de que a sua verdade não existia antes que ele começasse a existir – existia antes que o próprio enunciado existisse. E do mesmo modo, quando o enunciado já não existisse, seria verdade que a sua verdade não mais existiria, o que levaria a afirmar que a sua verdade de algum modo continuaria mesmo quando ele próprio já não existisse.
O impressionante é que São Tomás tenha recolhido um argumento como este, com todo sabor de sofisma, e tão complexo que até mesmo o ato de descrevê-lo é difícil, e se prontificasse a analisá-lo e respondê-lo com clareza, a parir dos pressupostos que ele próprio estabeleceu na sua resposta sintetizadora. E São Tomás o faz assim:
– A verdade é dita do enunciado apenas de forma participada, derivada, porque a verdade não está de modo próprio no enunciado, mas na inteligência que o formula.
– Ora, o nosso intelecto formula enunciados. Mas o nosso intelecto é criatural e contingente, porque começa a existir e um dia deixará de existir, pelo menos aqui no mundo natural. Assim, a verdade que ele concebe e formula não é eterna, mas começa a existir tão logo haja conhecimento e reflexão, com a formulação de juízos. Como o conhecimento que nosso intelecto alcança, e os juízos que formula, são limitados no tempo, assim também é a verdade, relativamente a eles.
– No entanto, antes que esta verdade se formasse, ela não era. E o não ser é apenas um ente de razão. Não tem existência real, e por isto não é uma coisa verdadeira em si mesma. Ela é verdadeira somente com relação ao intelecto que o apreende e concebe.
– Neste sentido, quando formulamos um juízo, podemos, verdadeiramente, afirmar que a verdade deste juízo não existia antes que nós o formulássemos. Isto é verdade, mas apenas a partir do momento em que a inteligência formula a verdade e apreende que ela não existia antes de ser formulada. Assim, o enunciado que afirma que a verdade não existia antes de ser formulada pelo nosso intelecto também é uma verdade criada, contingente, que passa a existir no nosso intelecto e deixa de existir quando nosso intelecto desaparece.
– Isto, claro, em se tratando do intelecto criado. No caso do intelecto divino, é sempre verdade que ele conheça o que é contingente, e que possa afirmar verdadeiramente e sempre, que uma verdade criada foi formulada ou deixou de existir.
Neste sentido, a formulação tomista sobre a contingência da verdade criada é capaz de respeitar a relatividade da verdade criada, sua substancialidade num intelecto, a relatividade da lógica ao conhecimento e, ao mesmo tempo, a relativa autonomia dos nossos intelectos frente ao intelecto divino, no processo de conhecer e julgar. Mas o intelecto divino, como veremos no próximo artigo, é o garante da objetividade e da estabilidade da verdade antes e para além dos intelectos criados.
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