No artigo anterior, eu afirmei que somente Deus poderia legitimamente pronunciar o aforisma cartesiano “cogito, ergo sum”, quer dizer, penso, logo sou. Esta total convertibilidade entre o ser e o pensar existe somente em Deus; em nós, o ser precede o pensar, tanto cronologicamente, quanto logicamente. Sou, logo penso; é tudo que um ser humano pode dizer. Ou ainda: penso, logo não posso não ser. No ser humano, o pensar é um indicador de existência, mas não seu fundamento.
Mas, como vimos também no artigo anterior, as coisas são porque Deus pensou nelas em primeiro lugar. Assim, Deus poderia consistentemente dizer: cogito, ergo res sunt. Quanto a nós, é somente quando nosso intelecto potencial é levado ao ato, ou seja, à medida que conhecemos as coisas, é que podemos refletir sobre elas e, principalmente, sobre nós mesmos. Todo autoconhecimento, em nós, é sempre precedido pelo conhecimento de alguma coisa que não somos nós mesmos. Este tema será abordado mais profundamente por São Tomás quando ele estiver nos explicando um pouco da sua antropologia, ainda nesta primeira parte da Suma.
Ainda no artigo anterior, aprendemos ali que a verdade é uma realidade analógica assim como o ser. Ela existe propriamente em Deus, como verdade eterna e incriada, e nas coisas e em nós como verdade criada; nas coisas, a inteligibilidade intrínseca é sempre um reflexo da inteligência que a concebeu; as coisas naturais refletem a mente divina, e os artefatos, a mente do respectivo artesão. Num mundo assim, os seres humanos podem fazer ciência, confiantes de que o conhecimento humano não se limita apenas à técnica de conquista sobre uma realidade em si mesmo disforme, mas envolve, além do conhecimento prático, técnico, operativo, também um conhecimento contemplativo sobre a inteligibilidade natural das coisas criadas por Deus.
Não quero entrar aqui na discussão contemporânea a respeito da possibilidade de um saber contemplativo, porque boa parte dos nossos contemporâneos duvidam que ele seja possível, e equiparam saber com controlar. Isto quando não denunciam a simples proposta de defender a possibilidade de contemplação como conhecimento alienante, que retira do ser humano a qualidade de fonte única de toda inteligibilidade do universo. Somente o trabalho do ser humano introduziria sentido no mundo inerte e sem valor intrínseco; defender que “no princípio era o logos” (João 1,1) seria alienar o ser humano de uma qualidade que, para eles, seria só sua: o de dar sentido, por seu trabalho, ao mundo. Então a grande luta desta corrente expressiva da contemporaneidade ocorre no combate para enxugar do mundo todo logos que não seja fruto do esforço humano. Negar, portanto, a divindade de Jesus é inevitável, para eles. Sei que faço digressões; mas volto ao tema, em respeito aos poucos que lerão estas linhas.
Vimos que a verdade é sempre propriedade de uma inteligência. Vimos que há a verdade eterna e incriada, que é própria da mente divina. E a verdade criada, será eterna também? Se não, então a verdade muda? As implicações desta discussão para a questão do relativismo são enormes. Como fazer o balanço adequado entre a dimensão subjetiva, relativa, da verdade criada, a abertura da criação e o respeito de Deus por suas criaturas inteligentes, por um lado, e a estabilidade da inteligibilidade de todas as coisas, por outro? É este, parece, o tema deste e do próximo artigo.
Aqui, o debate é sobre a verdade criada, isto é, aquela verdade que encontra na inteligência criada o seu locus próprio. Passam as mentes humanas, mas as verdades permanecem, é este o debate proposto. Como explicar isto?
A hipótese controvertida propõe: “parece que a verdade criada é eterna”. E recolhe quatro argumentos em favor desta hipótese inicial.
O primeiro argumento lembra Santo Agostinho, que ensina que não pode haver nada mais eterno do que as noções geométricas e matemáticas, tais como a definição de círculo e o fato de que dois mais três são cinco. Estas verdades, no entanto, não dizem respeito à própria essência de Deus, mas à estrutura do universo criado. Logo, o argumento conclui que estas verdades, sendo criadas, são, no entanto, eternas; logo, conclui o argumento, a verdade criada é eterna.
O segundo argumento lida com dois conceitos interessantes: o conceito de “eterno”, definido ali como “tudo o que existe sempre”, e o conceito de universais, este grande debate da filosofia antiga e medieval. Como sabemos, os nominalistas defendiam que os universais são apenas nomes que colocamos arbitrariamente nas coisas, mas as próprias coisas são absolutamente individuais, e nada as relaciona entre si. A razão de cada coisa não guarda nenhuma relação com a razão da outra coisa; nós é que buscamos regularidade e construímos conceitos capazes de descrever o que em si mesmo não tem as características que nossos conceitos imputam a eles. Conceitos são apenas rótulos, sem conexão real com as próprias coisas. Há uma terceira posição, o conceitualismo, que admite que há relação entre os conceitos que formamos sobre as coisas, por um lado, e as próprias coisas, por outro, mas esta relação é acidental, de correspondência, não de identidade, como é o caso dos universais na concepção tomista.
O argumento aqui parte de uma posição aristotélica, e admite a existência dos universais como verdadeira causa formal das coisas. Ora, como os universais, como causa formal, devem existir sempre e em toda parte, e a verdade é um universal em sentido próprio, já que se relaciona exatamente com esta característica da correspondência entre a coisa e sua causa formal universal, isto significa, para o argumento, que a verdade das coisas criadas deve existir sempre e em toda parte. Logo, o argumento conclui que a verdade criada existe eternamente.
O terceiro argumento joga com a relação entre a verdade e o tempo. Se a verdade criada é temporal, diz o argumento, então ela só é verdade enquanto existir; digamos, então, que alguma coisa seja verdade hoje. Se ela existe como verdade apenas hoje, então ontem não era verdade que isto seria verdade hoje, já que a verdade de hoje não existia ontem. Mas se ontem era verdade que alguma coisa seria verdade hoje, então a verdade de hoje de alguma maneira existia ontem. Disso, o argumento conclui que, uma vez que sempre foi verdade que alguma coisa seria verdade hoje, e uma vez que esta verdade (de que alguma coisa seria verdade hoje) é uma verdade criada, então é preciso que não somente a verdade de que alguma coisa é verdade hoje seja eterna, como também aquilo que é verdade hoje é, de algum modo, uma verdade eterna; disso o argumento conclui que de alguma maneira a verdade criada é eterna.
É esta suposta dimensão intemporal, ou trans-temporal, da verdade criada que o quarto argumento vai explorar. O argumento diz que, se a verdade criada tem uma existência temporal, que começa e termina no fluxo do tempo, então é verdade dizer que esta verdade não existia antes; e portanto em alguma dimensão a própria verdade cuja existência se quer negar deve existir para causar a verdade do enunciado que diz que ela não existia antes de passar a existir, ou que ela não existe mais quando cessou de existir. Neste sentido, o argumento conclui que a verdade, mesmo a verdade criada, tem necessariamente que ser eterna.
O argumento sed contra é simples: não há a possibilidade de existir uma criatura eterna, nem mesmo uma verdade criada eterna. Somente o incriado, o próprio Deus, pode ser eterno, como foi estudado na questão 10, artigo 3. Logo, a verdade criada não pode ser eterna.
São Tomás vai nos oferecer, então, sua resposta sintetizadora. Que estudaremos no próximo texto.
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