Ao longo deste processo de estudo sobre a verdade, seguindo os passos de São Tomás, já pudemos perceber que o assunto não é simples. Sem um conhecimento razoável e prévio da forma analógica de raciocinar, tão típica de São Tomás, não é possível penetrar neste emaranhado. Nos artigos anteriores, de fato, nós estudamos que a verdade, em sentido próprio, está no intelecto que julga (art. 2); depois, nós verificamos que, propriamente falando, Deus é a verdade. Como pode ser, portanto, que o intelecto esteja propriamente na nossa mente, quando conhece e julga a realidade, e ela, ao mesmo tempo, possa ser descrita propriamente como sendo o próprio Deus? Como compatibilizar estas duas afirmações?

Este é o objetivo deste artigo. De fato, se a verdade está propriamente no intelecto que julga (divide e compõe, na linguagem tomista), então a rigor há tantas verdades quantos forem os intelectos que são capazes de conhecer e refletir sobre o conhecimento. Por outro lado, se a verdade é Deus, há apenas uma verdade, e não se pode falar que a verdade está propriamente no intelecto que conhece e raciocina. Esta é a conclusão inevitável se o raciocínio for desenvolvido a partir de uma lógica de univocidade; mas não é esta, repito, a lógica de São Tomás. A chave para a solução do problema está, como veremos, em raciocinar analogicamente.

O debate proposto por São Tomás aqui começa pela seguinte hipótese controvertida: parece que há uma única verdade pela qual todas as coisas são verdadeiras. São dois os argumentos que se apresentam como suporte a esta hipótese, ambos claramente adeptos da linha unívoca de raciocinar, que desconsidera a necessidade de pensar analogicamente, quando se debate este tema. Portanto, como veremos no final, os argumentos não são falsos; são simplesmente inadequados, porque tiram conclusões exageradas a partir de interpretações unívocas dos termos do problema, sem perceber que a verdade é uma noção análoga, não unívoca.

O primeiro argumento cita Santo Agostinho, que afirmou que “nada é maior que a mente humana, exceto Deus”. O argumento então prossegue afirmando uma visão não antropocentrista da verdade: ele lembra que a mente humana não pode ser maior do que a verdade, porque senão os seres humanos seriam os autores da verdade, seriam os juízes e a medida da própria verdade. O argumento, no entanto, considera que é a verdade quem mede a mente humana, e não o contrário. E, se a verdade mede a mente humana, logo a verdade tem que ser maior que a mente humana. Usando como pressuposto a citação agostiniana, se somente Deus é maior que a mente humana, o argumento conclui que há apenas uma verdade: Deus; e além dele não haveria nenhuma verdade. O argumento, pois, para fugir do antropocentrismo desequilibrado que levaria ao total relativismo, acaba estabelecendo uma noção de verdade exclusivamente teocêntrica. São Tomás, em sua resposta, podará as arestas deste raciocínio, como veremos em seguida.

O segundo argumento cita Santo Anselmo, em sua obra “Sobre a Verdade”. Ali, este santo estabelece uma proporção entre a verdade e o tempo, dizendo que assim como o tempo está para as coisas temporais, assim a verdade está para as coisas verdadeiras. E o argumento prossegue, lembrando a discussão que São Tomás fez sobre o tempo na questão 10 – quando estudamos a eternidade em Deus. Ali, ficou bem estabelecido que o tempo não é uma mera qualidade subjetiva, uma categoria da inteligência, mas a própria sucessão no movimento. Assim, prossegue o argumento, do mesmo modo que o tempo é um só e sempre unívoco, dever-se-ia concluir que também a verdade é uma só e sempre unívoca, e conclui que há uma só verdade, pela qual todas as coisas são verdadeiras. São estes os argumentos objetores, no sentido da hipótese controvertida inicial.

Como argumento sed contra, São Tomás trará uma citação bíblica, do texto da tradução “Vulgata”, retirada do salmo 11, 2: “foram suprimidas (diminutae) as verdades dos filhos dos homens”. Devemos sempre nos lembrar de que o argumento sed contra é um argumento de autoridade, e São tomás, sendo um teólogo, pressupõe, na Suma Teológica, a autoridade da Bíblia como inconteste – embora nem sempre aceite a interpretação corrente do seu tempo. Isto não ocorrerá em obras de debate inter-religioso, como a Suma Contra os Gentios, em que a palavra bíblica não é mais pressuposta como aceite pelo debatedor adversário.

Tendo estabelecido, pois, os termos do debate, São Tomás nos presenteará com sua resposta sintetizadora. Que começa logo com uma proposição de harmonização: há um sentido em que se deve afirmar que uma é a verdade pela qual todas as coisas são verdadeiras; mas há, também, um sentido em que se deve afirmar que não. E esta conciliação só é possível, como veremos a seguir, se conhecermos a forma analógica de raciocinar. E São Tomás nos dará uma breve lição a respeito.

Ele começa ensinando sobre o uso unívoco da linguagem. Note-se que São tomás não é um nominalista, muito ao contrário; assim, ele não faz uma separação entre o uso da linguagem e a natureza do próprio conceito utilizado, ou entre o conceito e a realidade que ele designa. Assim, uma noção de espécie ou de gênero guarda sempre em si um grau de univocidade; quando uma coisa é predicada de outra como espécie ou como gênero, esta predicação se dá sempre univocamente. Se eu digo: este ser é um animal, e aquele ser é um animal, estou dizendo que a noção de animal se encontra neste ser de modo próprio, unívoco, e também naquele ser ela se encontra de modo próprio e unívoco. Quando eu digo que meu cão é um animal, e que eu sou um animal, estou usando o gênero “animal” de modo unívoco para designar a mim próprio e a meu cão. (estou excluindo aí o uso metafórico da palavra “animal” para se referir a alguém muito rude, em razão de sua rudeza; estamos tratando apenas da noção de “animal” como a de ser vivo capaz de ser causa do próprio movimento).

Agora, São Tomás vai falar da predicação analógica. Existem conceitos que estão além das noções lógicas de gênero e espécie, porque podem ser predicados de coisas que pertencem a diversos gêneros e espécies. São Tomás vai dar o exemplo da noção de “saúde”. Pode-se dizer que a saúde é um atributo próprio dos seres vivos; mas também podemos falar em sinais de saúde, referindo-nos, por exemplo, a exames laboratoriais de urina ou de sangue, ou mesmo de serviços de saúde, ou de profissionais da saúde, ou mesmo em substâncias saudáveis, referindo-nos a remédios capazes de restabelecer a saúde de determinados seres vivos que padecem desta ou daquela moléstia. Neste caso, com São Tomás nos explica, existe a chamada “analogia de atribuição”: a noção de saúde se aplica de modo próprio, por primeiro, ao ser vivo que exibe boa constituição orgânica. E de modo derivado ou atributivo ao exame de urina, porque é um sinal da saúde do ser vivo, ou ao remédio, como produtor da saúde de um ser vivo. Nestes casos, a noção de saúde se atribui a estas realidades apenas de modo analógico, impróprio, mas verdadeiro, adequado, e não metafórico.

Este é exatamente o caso da noção de verdade: ela existe de modo primário num intelecto, e de modo derivado nas coisas, conforme estas se ordenam ao intelecto que as criou. Assim, pode-se perfeitamente sustentar, sem correr o risco de cair no relativismo, que há de fato várias verdades; se considerarmos que há várias criaturas intelectuais, há tantas verdades, em sentido próprio, quantos intelectos existirem, e tantas verdades em cada intelecto quantas coisas este intelecto conhece e julga. É neste sentido, diz São Tomás, que o salmo 11, citado no argumento sed contra, pode falar no plural, com total propriedade, referindo-se às verdades dos filhos dos homens.

E, portanto, a verdade existe de modo absolutamente primeiro no intelecto que criou todas as coisas originariamente, e a que todas as coisas devem conformar-se para serem verdadeiras, em última instância. Sabemos que, num mundo criatural, a primeira e total dependência das coisas é para com seu criador. É no intelecto divino, onde as coisas foram concebidas em primeiro lugar, que se encontra o referencial de verdade para todas as coisas. Ou seja, a verdade, que de modo próprio está sempre num intelecto, pode ser considerada como residente originariamente no intelecto divino. Neste sentido, São Tomás reconcilia o relato de criação bíblico com a herança grega, tanto com a herança aristotélica da verdade como correspondência entre um intelecto e a coisa que é conhecida, quanto com a herança platônica do mundo ideal referencial, que São Tomás localiza na mente amantíssima do Deus criador.

Mas num universo criado por um Deus amantíssimo, a criação é uma obra aberta, compartilhada efetivamente com as criaturas inteligentes que ele concebe e ama em primeiro lugar, e chama à existência para partilhar, ainda que em grau correspondente à sua condição criatural, com a tarefa criadora do universo. Neste sentido, a verdade que se estabelece no intelecto humano é verdade de fato, e não alguma espécie de reflexo automático do conhecimento estático de coisas rígidas. Mais uma vez, São Tomás preserva e integra a objetividade e a inteligibilidade da criação firmada no intelecto e no coração de Deus, por um lado, com a dinâmica do processo intelectual da criatura inteligente, do outro. Na concepção tomista, a objetividade e a subjetividade da verdade interpenetram-se maravilhosamente, completando-se no jogo analógico do ser.

Assim, ele conclui que, de modo originário, há apenas uma verdade, que dá garantia de objetividade a tudo o que existe – é a verdade de Deus. Deus é o único que pode dizer propriamente que pensa, logo tudo existe. Na visão tomista, somente Deus poderia pronunciar de modo próprio o “cogito” cartesiano. Nós podemos apenas participar dele, mesmo que de modo próprio, mas analógico. E todas as coisas participam dele de modo derivado, por atribuição. A verdade, em São Tomás, tem a mesma extensão do bem e do ser. E só coincide plenamente com a certeza na mente divina. Em nós, certeza e verdade não se identificam. Mas isto será objeto da questão 17.

São Tomás passa a responder às objeções iniciais. A primeira objeção, como lembramos, é aquela que diz que, uma vez que a verdade ultrapassa a individualidade das mentes humanas, ela deve estar somente em Deus. São Tomás responderá ainda com a visão analógica que tem: de fato, a criatura inteligente julga todas as coisas que conhece segundo a verdade primeira, que é o intelecto divino, origem de toda a inteligibilidade de todas as coisas. Assim, a verdade primeira das coisas consiste na sua conformidade com o intelecto divino que as concebeu em primeiro lugar e as retirou do nada para a existência – este ato de criação ex nihilo é a marca do Deus judaico-cristão. Mas a criação não é uma obra fechada, rígida, em que o ser humano fosse apenas um colecionador de informações e fatos; assim, o intelecto humano leva a si mesmo à perfeição quando aprende, quando julga o que aprendeu perante aquilo que existe de fato, e quando concebe e cria seus próprios artefatos. No processo de aperfeiçoar-se, portanto, o ser humano aperfeiçoa e completa a criação, e o faz construindo em si a verdade do que conhece e concebe. Neste sentido, há efetivamente uma verdade criada, que pertence à criatura inteligente de modo próprio, mas não independe da verdade divina; relaciona-se dinamicamente com ela, conhecendo o sentido da criação e mesmo completando-o, num processo em que o respeito e o amor recíproco entre o criador e a criatura são interpenetrados e completam-se. Neste sentido, pode-se dizer até mesmo que a própria verdade criada no intelecto humano, em seu processo de conhecer e transformar o mundo, em certa medida ultrapassa este intelecto, porque existe no processo de desenvolver suas potencialidades existentes até a perfeição que, não existindo de fato no tempo, corresponde ao destino que Deus deseja para a sua criatura, e ao qual ele a convida amorosamente. A verdade criada, como ciência, ultrapassa, portanto, o intelecto humano, no sentido de que representa seu ápice e sua meta. Mas nem por isso é divina em si mesma: ela é do ser humano e para o ser humano, um dom irrevogável de Deus. No entanto, ela é, no mundo das coisas, sempre e apenas um projeto; enquanto a verdade primeira, efetiva, que está em Deus, é em si mesma substancial.

Por fim, São Tomás responderá á segunda objeção, aquela que faz uma analogia de proporcionalidade entre a verdade e o tempo, para afirmar que, do mesmo modo que há apenas um tempo em toda a criação, haveria apenas uma verdade; esta afirmação, diz São Tomás, deve ser lida também sob a luz da concepção analógica da verdade. Ou seja, se estamos falando da verdade única, primordial, que se estabelece pela correspondência entre a criação e o intelecto divino, ela é válida, e estabelece um referencial inafastável para fugir de todo relativismo. Mas se ela nega a realidade da verdade criada, por desconhecer a analogia de atribuição que se encerra dentro do processo criatural da verdade que culmina no intelecto criado, então ela é insuficiente e reducionista.

É assim, preservando a subjetividade, por um lado, e garantindo a objetividade contra o subjetivismo, por outro, que São Tomás constrói um sólido lastro para a verdade, que deveríamos redescobrir hoje. E perder o pudor de reintroduzir Deus em nossas meditações. Ele não é um limite, ele não é um obstáculo, mas o único e necessário ponto de partida. Considerar Deus, sob o viés tomista, não é tornar-se dono da verdade, mas aceitar que nós é que pertencemos a ela. Esta humildade espiritual é parte irrenunciável da meditação tomista, e é exatamente a parte que foi tão duramente rejeitada por nós, hoje, e que deveríamos redescobrir. Um pouquinho de humildade não nos faria mal. Nos faria descobrir que esta catedral tomista, que estamos visitando, pode erguer-se tão alto apenas porque tem alicerces tão profundos.