No contexto da discussão sobre a verdade, é preciso estabelecer um marco, um ponto de partida para todo o sistema, que evite o regresso ao infinito e torne possível explicar a permanência da verdade através do tempo e do espaço. Não se trata de desprezar a história, já que, para São Tomás, é exatamente no intelecto sujeito à história que se manifesta a verdade no seu sentido próprio. Trata-se de garantir que toda comunicação é possível, porque toda objetividade tem uma garantia última – Deus. Uma vez estabelecido que mencionar causas, movimentos, permanência, perfeição e fim deve nos levar forçosamente a Deus, conforme as chamadas “cinco vias” – e não é por outra razão que alguns ramos contemporâneos da filosofia esforçam-se sempre mais para negar estas realidades, a fim de possibilitar negar Deus – também a questão da verdade adquire sua densidade quando se admite que Deus é o fundamento e a causa de toda e qualquer verdade, o que torna a objetividade e a comunicação possível para além de tempo e lugar. Sem negar a influência dos condicionamentos na formação da verdade no intelecto humano, o lastro da verdade colocado em Deus torna simples explicar a própria razão, o próprio conhecimento e a própria comunicação. Enquanto o caminho da negação das realidades que constituem as cinco vias só nos leva ao voluntarismo, ao niilismo e ao irracionalismo.
Mas estamos nos adiantando. A hipótese adotada por São Tomás, aqui, diz respeito ao debate da posição de Deus dentro de toda a dinâmica que constitui a verdade em seu sistema. Sim, porque na visão tomista a verdade é uma realidade dinâmica, relacional, processual, e nunca estática. Mas a sua dinâmica tem uma relação com a permanência e a imutabilidade de Deus. Como já vimos nos debates de outros artigos, a imutabilidade de Deus, no sistema tomista não é a imutabilidade do que é fixo, parado, estático, imóvel; trata-se da imutabilidade da dinâmica, da perfeição plena daquilo que em si mesmo é relação, amor, doação recíproca e superabundante. Deus é imutável em sua atividade, não em sua estagnação – não há estagnação em Deus.
Mas a hipótese controvertida aqui é exatamente a contrária – é aquela de que Deus não faz parte desta dinâmica que, para São Tomás, constitui a verdade. Ou, colocado com simplicidade, a hipótese controvertida é a de que “Deus não é a verdade”. São três os argumentos objetores, em apoio a esta hipótese inicial.
O primeiro argumento lembra que, em artigos anteriores, ficou estabelecido que a verdade existe propriamente nos juízos elaborados pela inteligência que raciocina, e depara as apreensões que realizou com a concretude das existências com as quais se depara. Ou, mais precisamente em linguagem tomista, na “composição e divisão do intelecto”. Mas este movimento de raciocínio, de formulação de juízos lógicos sobre o existencial apreendido é próprio da inteligência raciocinante humana, nunca da inteligência plena divina. Deus não elabora raciocínios de julgamento, ou, falando mais concretamente, não aprende a realidade por meio da lógica. Assim, o argumento conclui que não se pode falar propriamente de verdade em Deus.
O segundo argumento cita Santo Agostinho, que na obra “De Vera Religione” define a verdade como “similitude de princípio”. O que significa isto? Significa que a própria noção de verdade, para Santo Agostinho, fundamenta-se na similitude entre um intelecto e aquilo que gera nele o conhecimento; ora, o argumento prossegue para dizer que não se pode falar que em Deus haja nenhum tipo de conhecimento gerado por similitude a um princípio gerador. Logo, diz o argumento, Deus não é verdade.
O terceiro argumento parte da visão de que Deus é causa primeira universal daquilo que é atribuído a ele como fundamento. Por exemplo, ele é o fundamento do ser, porque é causa de todo ser. E é o fundamento do bem, porque é causa de todo bem. E o argumento prossegue: quando pecamos, e depois, refletindo, constatamos que pecamos, então é verdade que pecamos. Mas se toda verdade provém de Deus como causa primeira universal, teríamos, segundo o argumento, que atribuir a Deus a verdade do nosso pecado, o que não se pode fazer. Assim, Deus não é, para este argumento, a própria verdade.
O argumento sed contra, aqui, é bíblico; e de fato não se pode negar que a grande interpelação para colocar em Deus o fundamento da verdade é a interpelação bíblica, e mais especificamente a fala de Jesus registrada em João 14, 6 – “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Eis aqui como uma interpelação revelada pode fornecer uma pista para uma reflexão filosófica profunda, que nos proporciona matizes sobre a lógica e a teoria do conhecimento que poderiam jamais ter sido suscitadas. Mas o argumento sed contra resgata esta interpelação, sem que isto responsa o nosso problema. O fato é que esta citação bíblica demonstra que os argumentos objetores anteriores n]ão são capazes de conter a última palavra sobre o assunto debatido.
Neste ponto, São Tomás fará sua resposta sintetizadora; ele começa logo lembrando que a verdade existe sempre no intelecto, e consiste na apreensão da realidade assim como ela é. Trata-se de uma perfeita adequação entre o ser conhecido e o conhecer, no qual de certa forma o ser conhecido existe no conhecedor, assim como existe em si mesmo. Esta é a perfeita descrição de Deus, diz São Tomás. Deus conhece a si mesmo perfeitamente assim como é, e ele é em si mesmo exatamente como se conhece. Em Deus o ser e o ser conhecido, a sua concretude existencial e a sua inteligibilidade são uma só e a mesma coisa. Deus não tem sombras para si mesmo, não há alguma espécie de subconsciente freudiano em Deus, algo de si mesmo que seja obscuro para o próprio conhecimento divino. Em Deus não há aprendizagem nem descoberta de si mesmo. Ele é absolutamente, é plenamente inteligível e o que ele é corresponde plenamente ao que conhece de si mesmo. Ou seja, Deus não somente é plenamente verdadeiro, realiza plenamente em si a noção de verdade, como, uma vez que ele concebe em si mesmo todas as coisas que cria, e uma vez que, em sua onipotência, cria tudo assim mesmo como concebeu, inclusive os seres inteligentes que virão depois a conhecer todas as coisas criadas e, eventualmente, conhecer o próprio Deus, ele é também a medida primeira e fundamental de toda a verdade que se dá nos intelectos criados.
É neste universo pleno de existência e de inteligibilidade, cheio dessa verdade dinâmica que se manifesta como proporção relacional entre Deus, suas criaturas e as inteligências criadas, que São Tomás contempla e descreve. Tão diferente do nosso universo mecânico, depressivo e vazio da contemporaneidade. Não se trata, porém, de contemplar duas visões, mas de buscar ardentemente qual das duas descreve o que há de fato. Fico com a de Tomás; tem maior poder explicativo.
Ele passará a responder aos argumentos objetores iniciais, e estas respostas são, como sempre, essenciais para que compreendamos toda a profundidade da questão.
A primeira objeção é a de que a definição de verdade apresentada anteriormente diz que ela se encontra mais propriamente no “intelecto que compõe e divide”, vale dizer, no julgamento do intelecto que raciocina. São Tomás responderá simplesmente que Deus não raciocina, mas julga tudo, tanto as coisas simples quanto as complexas, sopesando-as com seu próprio ser e com a sua própria inteligência, que é a causa primeira de tudo. Assim, é no intelecto divino que a verdade tem sua raiz mais própria.
O segundo argumento é aquele que, citando Santo Agostinho, define a verdade como “similitude com o princípio”, e diz que, como não se pode dizer que alguma coisa sirva de princípio para alguma similitude entre deus e o que ele conhece, então não se pode falar propriamente de verdade com referência a Deus. São Tomás responderá que, de fato, a verdade, no nosso intelecto, consiste em adequar-se ao princípio que gera conhecimento, ou seja, com as coisas. E a verdade das coisas consiste em adequar-se ao seu princípio, que é o intelecto divino. Mas o intelecto divino não tem um princípio mais remoto com que se adequar: ele próprio é o princípio, ao qual tudo o mais deve se adequar para ser verdadeiro. Assim, em última instância, Deus é o fechamento da relação que é a verdade, fundamento de tudo o que se segue nesta relação.
Mas São Tomás avança um pouco, nesta resposta, na questão trinitária: de fato, em si mesmo, Deus pai gera o filho, e nesta relação entre o gerador e o gerado a plena conformidade é a plena verdade. Assim, sendo o Verbo gerado, ele é plena inteligibilidade e plena conformidade com o Pai, e neste sentido Jesus pode dizer de si mesmo que é a Verdade. Mas quanto ao Pai, que gera sem ser principiado, não se pode falar de verdade nele senão de modo negativo, no sentido de que, em Deus, a sua inteligibilidade não é jamais e em nenhuma medida dessemelhante do seu próprio ser.
A terceira objeção é aquela que diz que, uma vez que, se alguém peca, é verdade dizer que ele pecou, Deus não pode ser o fundamento último da verdade, porque senão ter-se-ia que admitir que ele é também fundamento último da mentira, do mal e do pecado. São Tomás lembra, então, que a mentira, o mal e o pecado não são realidades no sentido próprio, existencial, da palavra; não são entes. São privações. E a afirmação sobre a privação é verdadeira no sentido de que a privação se manifesta pela distância que mantém relativamente à perfeição, que está em Deus. Vale dizer, quando eu faço uma afirmação verdadeira sobre o pecado, a verdade desta afirmação se manifesta na comparação entre aquele ato destituído, privado de perfeição que é o pecado, por um lado, e aquela perfeição plena que é Deus, por outro. Assim, a verdade sobre o pecado é que ele se revela como privação, como distância da perfeição esperada, que está, em última instância, em Deus. Não haveria nenhuma verdade em afirmar a privação, o mal ou o pecado senão em relação com o bem, a plenitude e a perfeição que estão em Deus. Neste sentido, a relação de Deus com a verdade sobre o pecado é acidental, e se apresenta apenas como medida. É por isto que São Tomás conclui dizendo que negar que Deus seja verdade porque há, no mundo, verdadeiramente o mal e o pecado é cometer um sofisma, o de tomar o acidente por substância. Afirmação que deve nos levar a refletir muito.
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