No texto passado, vimos a complexa incursão de São Tomás na relação entre o ser, o bem e a verdade, e a ordem que estes transcendentais têm em si mesmos e para nós. Foi exatamente a perda destas noções que tornou tão difícil filosofar na contemporaneidade: a verdade, despida da objetividade do ser, limitou-se à certeza do conhecimento claro e distinto, e o bem foi reduzido ao valor, ou seja, à mensuração econômica da vantagem que determinado aspecto da realidade apresenta para nós. Daí porque é tão importante revisitar o pensamento de São Tomás, não como quem vai a um museu, mas como quem conversa com um viajante de outras terras, capaz de noticiar outro modo de viver, e nos enriquece.

No texto anterior, vimos a hipótese inicial controvertida de que o bem, compreendido como a desejabilidade da coisa, seria anterior à verdade, compreendida como a sua inteligibilidade. Vimos os argumentos iniciais, que ressaltavam a prioridade da desejabilidade sobre o conhecimento, ou da vontade sobre a razão, e o argumento sed contra, que, citando a matemática, afirmava que, uma vez que a verdade se estende aos entes de razão, que, por não serem coisas, não podem ser descritas como “boas” no sentido transcendental do termo, então a verdade tem uma extensão maior do que o bem. Por fim, vimos a resposta sintetizadora de São Tomás, que faz coincidir o ser, a verdade e o bem no supósito (ou seja, na ordem objetiva), distinguindo-os na ordem espiritual de modo a estabelecer, no plano da razão, a prioridade da verdade sobre o bem, estabelecendo, em termos elegantes, aquilo que as nossas avós já nos ensinavam – conhecer é pressuposto de amar e querer.

Agora São Tomás passará a responder às objeções iniciais.

A primeira objeção é a que afirma, com base em Aristóteles, que, do ponto de vista da razão, aquilo que é mais universal (isto é, mais extenso, ou seja, que envolve um maior número de realidades) é anterior, ou seja, primordial, mais importante, do que aquilo que é menos extenso. O argumento aduz que, uma vez que a perfeição do intelecto é o conhecimento verdadeiro, então a verdade pode ser descrita como “o bem do intelecto”. Então, diz o argumento, uma vez que a noção de bem é usada para definir a própria verdade, então a noção de bem é anterior à de verdade, e portanto, o bem seria logicamente mais fundamental do que a verdade, segundo o argumento conclui.

São Tomás nos explicará que a relação entre a vontade e o intelecto não é de separação, mas de reciprocidade: o intelecto conhece a vontade, e a vontade quer que o intelecto conheça. Assim, a verdade é um certo bem, ou seja, é o bem do intelecto; como o bem é uma certa verdade, a verdade da vontade. Assim, na ordem do querer, tudo o que se quer é bom, sob certa razão. Mas nem tudo o que se apresenta como bom é bom de verdade. Existe aquilo que parece ser bom, mas não é bom realmente; por isto, São Tomás pode dizer que, no reino do querer, o bem é universal, mas a verdade é particular – tudo o que eu quero apresenta-se como bom, mas nem tudo que se apresenta como bom é bom de verdade.

Na ordem do conhecimento, ou seja, da inteligibilidade, dá-se o contrário: tudo se apresenta ao intelecto como verdadeiro, mas nem tudo é bom. Há coisas que, embora sejam conhecidas, não se apresentam como boas para mim, ou seja, apresentam a verdade como universal, mas o bem como particular.

Assim, São Tomás conclui: o argumento tem razão em dizer que, na ordem do querer, o bem é anterior. Mas não em dizer que o bem é absolutamente anterior.

A resposta de São Tomás a este primeiro argumento estabelece a inter-relação entre verdade e bem, mas ainda não é suficiente para quebrar o círculo vicioso. Algo tem que ser primeiro, na ordem do espírito, porque senão a relação entre o espírito e o ser seria impossível. Quer dizer, se nós parássemos aqui, estaríamos presos no dilema: eu conheço porque quero, ou eu quero porque conheço? Os voluntaristas tendem a responder que “querer conhecer” é o primeiro termo, porque ninguém conhece sem querer. Os intelectualistas defendem que conhecer o que se quer é mais essencial, porque ninguém quer o que não conhece. É claro que este dilema somente se resolve quando se concebe a relação entre querer e conhecer como lastreada em algo que está fora do espírito humano, que é a suprema unidade, em Deus, entre o ser, o bem e a verdade. Se somente o ser humano é considerado nesta equação, o círculo vicioso é insolúvel, e a tendência será sempre ou 1. Negar que o querer seja de fato dirigido pela razão, caindo no voluntarismo absoluto, ou 2. estabelecer que a razão não tem como fim o amor, o querer, mas se resolve na pura contemplação quietista, o que seria estabelecer uma gnose, ou seja, uma total supremacia do conhecer sobre o amar. São Tomás não cai em nenhum dos dois extremos, embora, como veremos, estabelecerá a primazia da verdade, ou seja, do conhecimento, como ponto de partida da relação entre o espírito humano e o mundo da existência. É o objeto da segunda resposta, abaixo.

O segundo argumento objetor lembra que a verdade está sempre num intelecto que julga (que compõe e divide, na expressão escolástica de São Tomás); mas o bem está nas próprias coisas. Mas as coisas necessariamente existem antes que sejam conhecidas e sobre elas a verdade se estabeleça. Logo, o bem, uma vez que existe nas próprias coisas, seria anterior à verdade, que somente se manifestaria quando as coisas fossem objeto de conhecimento.

São Tomás nos ensinará que não estamos tranando, aqui, da anterioridade nas próprias coisas. Na sua resposta sintetizadora, ele já explicou que, no supósito, o ser (ente), a verdade e o bem enconram-se em total harmonia, e são perfeitamente conversíveis uns nos outros. A discussão, aqui, diz respeito á prioridade na razão, ou seja, na inteligência. Para o ser espiritual, que se depara com o mundo, a primeira coisa que interpela são as próprias coisas, por serem entes. Interpelado, este ser espiritual se depara sobre as coisas e as assimila, conhecendo-as. Julga seu conhecimento frente ao concreto do ente e assim estabelece, no seu espírito, a verdade. Apresentando, então, a verdade do ente ao seu apetite, ele o quer. Um exemplo torna mais claro: alguém anda na rua e sente que pisou em alguma coisa: esta alguma coisa se apresenta como interpelação para ele, pelo simples fato de estar ali. Debruçando-se sobre aquilo, o sujeito vê que é uma moeda, e não, digamos, uma mera protuberância no piso. Compreendendo o valor da moeda, fica com vontade de pegá-la. Assim, segundo Tomás, podemos dizer que, para um espírito que se depara com a criação, em primeiro lugar está o ente, o ser que o interpela. Em segundo lugar, a inteligibilidade do ente, ou seja, sua verdade, que se dá ao intelecto, e, por fim, a desejabilidade do ente, ou seja, seu bem, que se dá à vontade. Assim, para a razão, a ordem dos transcendentais é: 1. o ente, 2. a verdade e 3. o bem. Está quebrado, portanto, qualquer círculo vicioso.

Uma pequena digressão: começando por Deus, como faz, São Tomás jamais poderá propor algo como o princípio cartesiano do “penso, logo existo”. Somente em Deus o pensamento é fundamento de existência da criatura.

O terceiro argumento objetor traz uma confusão entre a noção de verdade como transcendental e a noção de verdade como virtude humana. De fato, uma das coisas que a nossa contemporaneidade perdeu, com relação ao pensamento aristotélico e mesmo ao pensamento escolástico, é a noção de que há virtudes intelectuais, e não apenas virtudes morais. Para nós é difícil entender que a ciência e a sabedoria são virtudes, para São Tomás, como eram para Aristóteles. São virtudes porque representam perfeições humanas: aquilo que em nós é potência de conhecer, ou seja, o intelecto, se torna progressivamente perfeito quando conhece. Ora, o caminho da potência ao ato é um caminho que se define como bom. O conhecimento é a qualidade de uma mente boa, e mais uma vez, diz o argumento, a verdade é descrita como um bem. E o argumento conclui que não há como escapar de que o bem é anterior à verdade, já que adquirir a verdade é próprio da inteligência, e é o bem da inteligência, e portanto o próprio processo de formação da verdade é um bem. Então o argumento conclui que o bem é anterior à verdade.

São Tomás explica de uma maneira que nos leva a enxergar que isto seria assim se o ser humano fosse Deus, no qual ser, verdade e bem se equivalem. No ser humano, a verdade se apresenta como virtude no sentido de que o ser humano virtuoso é também verdadeiro, ou seja, na medida em que se torna cada vez mais virtuoso, intelectual e moralmente, o ser humano vai realizando em si o fim que Deus lhe designou quando o concebeu. Sendo mais perfeito por ser mais virtuoso, o ser humano torna-se paulatinamente mais repleto do bem. Neste sentido, o desenvolvimento das virtudes, intelectuais e morais, torna o ser humano mais verdadeiro, mais próximo da perfeição para a qual foi criado. Mas esta verdade humana, a correspondência entre o que somos e o que devemos ser, é apenas um aspecto da verdade, e não a verdade em si mesma. Bem compreendida, portanto, a objeção não é capaz de provar a hipótese objetora inicial.

O nosso estudo completou um ano. Iniciou-se em 06 de fevereiro de 2017. Neste período, foram 179 textos. E estamos apenas no artigo 4º da questão 16, menos de 5% da Suma toda. A catedral de São Tomás é complexa e bela. Não se entrega a visitas turísticas rápidas; demanda tempo e paciência…