Se o ser, a verdade e o bem são uma só coisa em Deus, para nós eles são diversos, não por diferença real, mas por distinção de razão. Têm, portanto, a mesma consistência e a mesma extensão, mas relacionam-se conosco de maneira diferente. De fato, a verdade é a inteligibilidade do ser que se relaciona com a inteligência, e o bem é a atratividade do ser que se relaciona com uma vontade. A questão agora é de saber qual a prioridade, ou seja, qual transcendental é mais fundamental na relação do ser conosco. Trata-se de testar se o velho aforisma que diz que “ninguém ama aquilo que não conhece” é mais adequado do que a ideia de que a vontade é que move o intelecto ao conhecimento, já que conhecer é o bem do intelecto. Neste último caso, teríamos que inverter o aforisma, para afirmar que ninguém conhece aquilo que não ama – o que não deixa de ter a sua consistência. Para não cair num paradoxo, do tipo do ovo e da galinha, é preciso saber onde está a prioridade: se a verdade da coisa precisa ser assimilada em algum grau para mover a vontade àquilo que se apresenta inteligivelmente como bem, ou se é a inteligência que deve ser impulsionada pela vontade, que vislumbra um bem na inteligibilidade das coisas, para conhecê-las. Este artigo, pois, tem muita importância metafísica, mas também tem muita importância psicológica: saber qual a prioridade entre a verdade e o bem pode nos ajudar a querer melhor, e portanto a agir melhor. Isto trará, portanto, inelutáveis consequências éticas: se o bem tem prioridade sobre a vontade, então só nos restam as normas, ou seja, a expressão da vontade normativa de uma autoridade (autoritas, non veritas, facit legem), como fundamento da ética. Se a verdade tem prioridade lógica sobre o bem, então o ser humano pode ser perfectível pela educação, e uma ética de virtudes é possível. Se o bem tem prioridade sobre a verdade, então o agir precede o refletir, e todo discurso racional seria, no fundo, apenas uma justificação para a vontade que em si mesma não é precedida pela verdade. Dá para perceber, daí, a importância deste artigo.
Sabemos que para São Tomás nunca há a exclusão de um termo pelo outro, mas sempre a busca da síntese mais perfeita para o dilema em debate. Vontade e inteligência, na sua abertura para o bem e a verdade, estão profundamente inter-relacionados. Como isto se dá, eis o objeto deste artigo.
A hipótese inicial controvertida, agora, é a de que, aparentemente, o bem é anterior à verdade. Ou seja, a relação do ser com a vontade (que caracteriza o bem) seria prioritária em comparação com a relação do ser com a inteligência (que caracteriza a verdade). Em outras palavras, a vontade teria prioridade sobre a inteligência, no relacionamento da criatura com o ser. Este é o debate proposto.
O primeiro argumento objetor recorda que, segundo Aristóteles, aquilo que é mais universal tem prioridade de razão. O argumento aduz, então, que não se pode negar que a verdade é um certo bem do intelecto, uma vez que o intelecto se aperfeiçoa, torna-se melhor, pela assimilação da verdade, à qual ele tende como para um fim. Assim, uma vez que a verdade constitui um certo bem, então a noção de bem é mais extensa que a de verdade e de certo modo a engloba; deste raciocínio o argumento conclui que o bem teria prioridade lógica sobre a verdade.
O segundo argumento lembra a noção, estabelecida nos artigos anteriores desta mesma questão, de que a verdade está propriamente no intelecto, enquanto o bem está propriamente nas coisas. Neste caso, diz o argumento, uma vez que a realidade das coisas antecede logicamente o conhecimento que temos sobre elas, admitir que o bem está nas coisas traria por consequência a necessidade de que admitíssemos que o bem logicamente a verdade, já que a existência concreta das coisas logicamente precede a sua existência intencional no intelecto. Assim, o argumento conclui que o bem precede a verdade.
O terceiro argumento recupera a noção aristotélica de virtude como perfeição do ser humano, e lembra que Aristóteles inclui a verdade como uma virtude. E, lembrando também que Agostinho considera que a virtude é “uma boa qualidade da mente”, e portanto pode ser descrita como um “bem”, o argumento conclui que a noção de bem engloba e antecede a própria noção de verdade, sendo-lhe, portanto, logicamente anterior.
Como argumento sed contra, a discussão vai para a questão da extensão. O argumento alega que a extensão da verdade é maior do que a extensão da razão, no plano dos entes de razão ou lógicos. Segundo o argumento, os entes matemáticos, por exemplo, incluem-se no domínio da verdade, mas a rigor não se incluem no domínio do bem, já que não têm existência entitativa concreta fora dos domínios da própria razão. Se o bem é uma qualidade das coisas, não se pode dizer que os objetos da razão (ou entes de razão) possam ser descritos como bons, já que a rigor não são coisas. Mas eles estão dentro do domínio do verdadeiro. Disto o argumento conclui que a verdade tem prioridade de razão sobre o bem.
Mas não podemos achar que o argumento sed contra representa simplesmente a posição de São Tomás. Na sua resposta sintetizadora, em todos os artigos que propõe, ele sempre fará uma análise ponderada sobre o tema do debate, e depois, em suas respostas aos argumentos iniciais, ele ponderará e resgatará o que há de justo ou excessivo em cada argumento. A posição de São Tomás nunca é simplória.
Neste caso a resposta de São Tomás envolve uma questão técnica que é difícil para quem não conhece muito profundamente a linguagem tomista – como é o meu caso… é nestes momentos em que somos desafiados a buscar léxicos e glossários para entender a extensão da resposta. A frase desafiadora de São Tomás, que começa a sua resposta, é a seguinte: Embora, de fato, o bem e a verdade, no supósito, sejam conversíveis com o ente, eles são diferentes quanto à razão. Como poderíamos entender esta afirmação?
A palavra supósito, na escolástica, designa aquilo que serve de sujeito. Qual o supósito da cor branca que estou vendo? É o meu carro. E por que não digo simplesmente que, nas coisas, o bem e a verdade são conversíveis com o ser, mas nas inteligências não o são? Porque há supósitos que podem ser sujeitos, mas não são coisas no sentido próprio da palavra; o exemplo é Deus. Deus definitivamente não é uma coisa. Mas quando estou falando da verdade em Deus, ou do bem em Deus, Deus é certamente o supósito da minha afirmação.
Assim, a frase poderia ser reelaborada, em termos mais familiares para nós, do seguinte modo: do ponto de vista objetivo, a concretude existencial, a inteligibilidade e a desejabilidade são equivalentes entre si; no plano subjetivo, no entanto, ou seja, para nós, elas se distinguem logicamente, porque geram relações diferentes para conosco.
É exatamente na relação do supósito para conosco que podemos falar numa anterioridade da inteligibilidade, ou seja, da verdade, sobre a desejabilidade, ou seja, sobre o bem. E São Tomás dá duas razões para isto, uma objetiva, outra subjetiva:
1. A razão objetiva é que a verdade está mais próxima do ser do que o bem. O que significa isto? É fácil de entender. Qualquer coisa, pelo simples fato de existir, já se dá em total inteligibilidade para nós. O ente é totalmente transparente à inteligência, pelo simples fato de existir. É claro que a nossa inteligência, por seus limites, jamais esgota plenamente a inteligibilidade dos entes, mas não porque eles não sejam totalmente inteligíveis; nossa inteligência é que tem suas dificuldades e seus métodos. Mas o bem não se apresenta para nós do mesmo jeito em todos os entes; quanto mais perfeito um ente, mais desejável ele é, e qualquer pessoa que já passeou pelas vitrines de um centro comercial entende claramente este princípio. Assim, por exemplo, uma fruta verde é plenamente inteligível como fruta verde; mas é menos desejável do que uma fruta bem madura, suculenta. Por isto, o bem do ente aumenta conforme aumenta sua perfeição. Mas a inteligibilidade é completa naquilo que o ente é, desde quando ele é.
2. A razão subjetiva tem a ver com o fato de que, para que uma coisa atraia nossa vontade, ou seja, para que ela se revele como um bem, ela primeiro deve ser conhecida por nós. Como foi dito no texto anterior, este princípio se revela em ditados populares como “aquilo que não é visto não é desejado”, ou ainda “ninguém ama aquilo que não conhece”. Ora, se o amor, como apetite da vontade pela coisa, vem depois do conhecimento que adquirimos sobre a coisa, podemos entender perfeitamente o que São Tomás quer dizer quando ele diz que a verdade vem antes do bem, segundo a razão.
Explicadas as concepções de São Tomás, ele passa a responder às objeções iniciais. Que veremos no próximo texto.
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