Ninguém ama aquilo que não conhece. O que não é visto não é desejado. São ditados populares que parecem deixar claro que, na sabedoria popular, a inteligibilidade, ou seja, a questão da verdade, precede logicamente a questão sobre o bem das coisas. É preciso conhecer algo para amá-lo, ou seja, é preciso assimilar a verdade da coisa para discernir seu bem, a fim de que a razão possa apresentar aquilo à vontade como um objeto adequado.

A discussão aqui parece teorética e desimportante, mas não é. Na verdade, esta questão sobre a verdade concedeu a São Tomás a fama de intelectualista, contra tantos voluntaristas que colocam a vontade, e não a inteligência, no centro da existência humana. São Tomás não o faz. Para ele, a inteligência vem antes da vontade, não no sentido cronológico, mas no sentido lógico mesmo, do termo.

É preciso mais uma vez situar muito bem o que estamos falando. Em Deus mesmo, em si mesmo, o ser, a verdade e o bem são coincidentes; não se pode falar em primazia de um ou de outro. Se esta primazia existe, ela se dá não em si mesma, mas para nós. De fato, é na relação com o ser humano, ou melhor, com a criatura, que se pode falar em primazia do ser, da verdade ou do bem. Ou mesmo até em primazia da pessoa. A primazia está sempre naquilo que se toma como princípio, que não precisa ser explicado em si mesmo mas que tem grande poder de explicação e fundamenta tudo o que se segue. Se para São Tomás este ponto de partida era Deus, compreendido como aquele ser ao qual se chegada pela consideração de um universo que estava em movimento e precisava de um primeiro motor imóvel, que podia ser explicado pelas causas e precisava de uma primeira causa eficiente, que era contingente e precisava de um lastro de permanência, que tendia à perfeição e precisava de um parâmetro para compreendê-la, e que tinha um fim, e precisava de um maestro para conduzi-lo até lá. Este ser, portanto, que explicava tudo e não precisava de nenhuma explicação era Deus, e o Deus de quem se falava era o primeiro motor, a primeira causa eficiente, a permanência, a perfeição e o fim. É muito fácil perceber o poder de explicação que tem Deus, neste contexto.

Na etapa seguinte, do renascimento e do iluminismo, o dado já não era mais Deus, mas o homem. O homem estava aí, e aí se encontrava. Sendo aquele que não precisava de explicação, deveria poder explicar todas as coisas. E a explicação deveria partir não mais daquele fundamento do ser – já que o “estar aí” do ser humano não era mais o problema, mas o ponto de partida – mas de outro questionamento: estando aí, defronto-me com tudo que precisa de explicação. Mas para que uma explicação seja possível, é preciso que eu seja capaz de conhecer aquilo que eu devo explicar. Como posso explicar que eu possa conhecer? Eis, pois, que o ser humano encontra a si mesmo no ato de refletir sobre tudo que o interpela, e descobre a si mesmo existindo, ao descobrir-se refletindo. E confunde a sua reflexão com a sua existência mesma, proclamando – penso, logo existo. Isto, servindo como ponto de partida, deixa tudo o que vem antes mais além da necessidade de explicação: se o ponto de partida é o pensamento humano, e não o ser daquele que pensa, não preciso mais explicar o ser, porque o ser já não é um dom de algo que me precede: ele é uma consequência da descoberta do meu pensamento. E a racionalidade resta limitada ao que procede e sucede do pensar humano, não ao que o coloca na existência e fundamenta o seu próprio ser. A pergunta por Deus é colocada, portanto, mais além dos limites da racionalidade, porque antecede à pergunta sobre o conhecimento que fundamenta a minha autopercepção. A filosofia passa a ter como ponto de partida o pensar humano, e não o ser de Deus. A pergunta pelo ser de Deus, estando aquém dos limites do ponto de partida, é remetida à pura fé, impermeável à especulação racional. Se está aquém do conhecer humano, então não poderia ser racional, dizem.  Esta é a curva antropológica da modernidade. E se é assim, este ser humano que se define pelo pensamento e que busca resolver racionalmente a questão sobre a sua própria capacidade de conhecimento, de modo autônomo, se depara com um mundo que o interpela e ao qual já não é permitido perguntar pela fonte e origem. Sem origem, o mundo é também desprovido de inteligibilidade intrínseca, a não ser aquela que o pensamento humano lhe conceder.

Isto faz sentido com a ideia de “curva antropológica”: se não há outro ponto de partida além do pensamento humano, não há outra inteligibilidade no mundo além daquela que o pensamento humano lhe der. O ser humano já não conhece: ele apenas pensa, cria, constrói e domina. Impõe sua própria inteligibilidade sobre um mundo opaco, estranho, desprovido de logos, de sentido intrínseco. Kant dirá que esta opacidade está além da possibilidade da inteligência humana. Hegel irá além: não há nada ali onde a objetividade parece pleitear um númeno incognoscível para Kant. A objetividade também é uma criação, a criação dialética de um espírito que se constrói quando se descobre pensando, e que se dilata quando se pensa descobrindo. É claro que esta construção teria que desmoronar quando encontrasse alguém corajoso o suficiente para gritar que o rei está nu, e este alguém parece ter sido Nietzsche. O adversário de Nietzsche não é São Tomás, que ele não conheceu; é a cultura do humanismo pós renascentista que ele abate implacavelmente enquanto acredita que está destruindo tudo o que lhe precedeu. Sem ousar voltar a perguntar-se pelas vias racionais de acesso a Deus, restou à filosofia pós-nietzscheriana discutir o poder, o puro poder. E poder é vontade incondicionada, não precedida de nenhuma justificação, de nenhuma razão, de nenhuma objetividade. E a desconfiança na razão tornou-se total: a hermenêutica da desconfiança instalou-se e toda busca de inteligibilidade, num mundo que se recusa a admitir qualquer inteligibilidade intrínseca nas coisas, é denunciada como discurso de encobrimento, discurso de dominação para justificar o exercício de algum poder alienante e encoberto. Basta pegar esta mentalidade e aplicar a São Tomás: as cinco vias, e seu esforço para transformar o cosmos num reino de inteligibilidade capaz de pautar a vontade para o bem são vistos como tentativa de encobrimento do domínio eclesiástico e aristocrático sobre pobres e pequenos fanáticos irracionais e iletrados.

É esta a importância de ler seriamente São Tomás. E não lê-lo clericalmente, mas laicamente; a pergunta é saber se o que ele tinha a propor pode ser útil para que saiamos do atoleiro em que nos colocamos. O que significa dizer que o mundo é prenhe de inteligibilidade, mas não da inteligibilidade que o ser humano lhe projeta, mas de uma inteligibilidade que é um dom amoroso do fundamento último da existência de tudo quanto há? Significa proclamar a humildade antropológica como princípio do questionar, e perceber que colocar o fundamento acima e além de todos e de cada um de nós não é instituir um programa oculto de dominação, mas, ao contrário, estabelecer uma igualdade fundamental na criaturalidade, com confiança plena na inteligibilidade de tudo o que deve pautar a vontade humana.

Freud que nos desculpe, mas a inteligibilidade como pauta da vontade não se dá apenas como um discurso de encobrimento de razões que não são manifestas nem para quem julga tê-las, mas perdem-se irremediavelmente num inconsciente lodoso. Isto não é a descrição do humano, mas do humano maculado pelo pecado original. A teoria freudiana é importantíssima, mas apenas expressa, em termos pós-religiosos, aquilo que a humanidade já sabia desde sempre: somos perdoáveis, porque não somos completamente transparentes a nós mesmos. A pergunta, portanto, não é pela possibilidade de perdão e acolhimento para os que agem sem plena consciência do seu agir; mas pela misericórdia de Deus para com uma humanidade que, mesmo sabendo que o cosmos era o dom amoroso e transparente da verdade divina, optou contra Deus. Se o ser humano traiu conscientemente Deus, descrendo que ele fosse o ser absoluto, pleno de inteligibilidade e principalmente de amor absoluto, Deus não poderia abandonar o ser humano sem trair a si mesmo. Sendo infinita justiça e infinita misericórdia, assumiu em si mesmo a justiça que deveria recair sobre nós e, adotando nossa natureza, deu-se à morte para expiar a nossa culpa e poder reatar a amizade que nós havíamos rompido, satisfazendo, de uma só vez, a justiça infinita e o amor infinito.

Tudo isto é coerente com aquele que se revela pelas cinco vias (como preâmbulo de fé) e permite que possamos ouvi-lo e amá-lo sem renunciar ao que somos – criaturas inteligentes. É claro que existe aí um passo de fé, que se dá pela graça, mas a graça não se constrói sobre o vazio. O centro do Evangelho é a ressurreição, como fato histórico. Crer nela é uma questão de fé, mas não de fé louca, desarraigada, irracional. Na sua generosidade infinita, Deus se submete aos nossos escrutínios. É certo que tendo optado pelo encontro histórico, ele se humilhou a ser objeto de nossas indagações. Mas negar a indagar-se é a forma mais absurda de negar a Deus, porque não se justifica senão pela renúncia à própria inteligência humana. Nosso medo de perguntar não decorre da convicção de que não há resposta, mas do medo de que ela exista, e de alguma forma nos constranja. A ignorância não escusa quando é deliberada. Mas nem toda pergunta é desonesta, e nem toda resposta é encobrimento.

Se Deus é tal como a nossa inteligência pode intuir que ele seja, a resposta nunca será constrangedora para quem se atreve a fazê-la. Ninguém ama aquilo que não conhece, é certo. Mas conhecê-lo depende também de um ato de vontade que é, a um só tempo, razoável e livre, mas também necessariamente precedido pelo convite de Deus. Porque se Deus é Deus, ele tem que ter a primazia. Ele nos ama e, pela sua graça, se dá a conhecer, mesmo aquele conhecimento que decorre da contemplação da natureza; mesmo o conhecimento que vem não da conversão religiosa em sentido estrito, mas da contemplação honesta da criação independentemente de confissão religiosa. Mesmo aí, o conhecimento existe em nós porque Deus se dá a conhecer. Ou seja, mesmo considerando que para nós o conhecimento precede o amor, ou seja, a verdade tem precedência lógica sobre o bem, é preciso lembrar e confessar sempre que, em si mesmo, o amor de Deus é indissociável de sua inteligibilidade, e sempre precede qualquer conhecimento que possamos adquirir.