Vamos agora à resposta sintetizadora de São Tomás, na questão relativa ao lugar da verdade no intelecto, ou seja, onde podemos encontrar o sentido próprio da palavra verdade. Não se pode perder de vista, em momento algum, que a verdade é um transcendental do ser, e carrega consigo forma analógica de manifestação. Vale dizer, situar a verdade, no sentido próprio, em algum dos aspectos ou momentos do seu processo não exclui que ela se apresente em outro dos momentos, mas em sentido simplesmente analógico.

A verdade, como vimos, é o transcendental do ser que se apresenta como relação entre o ser e a inteligência. Pode-se dizer, portanto, que a verdade consiste na perfeição do conhecimento do ser, e o ser conhecido não é uma cópia, uma simbologia, uma mera representação; é uma das formas de manifestação do próprio ser. O ser conhecido tem, na inteligência, uma existência intencional, vale dizer, aponta para o ser da coisa conhecida.

Neste sentido, a perfeição do conhecimento consiste em julgar que o ser que se assimilou na inteligência corresponde ao ser da coisa que está sendo dada ao conhecimento. Vale lembrar que o conhecimento intelectual, em especial o humano, dá-se sempre como universal – o intelecto humano, por si mesmo, não conhece os individuais. Mas é o ser humano, e não simplesmente seu intelecto, quem conhece a realidade, e, portanto, o ser humano conhece os individuais por um processo complexo que envolve a sensibilidade, a memória, a imaginação e o intelecto, na sua relação com a realidade realmente existente fora do indivíduo. Portanto, é na integração deste processo, no momento do julgamento, que a verdade e manifesta em sentido próprio, porque é neste julgamento que integra o dado sensorial, a memória, a imaginação e a inteligência que o ser humano toma consciência da verdade do seu conhecimento. É aí que o ser humano não somente sabe, mas também sabe que sabe, e sabe que a sua intencionalidade cognitiva realmente aponta, aperfeiçoa e completa o ser da coisa conhecida, sendo um com ela. A assimilação entre a inteligência e a coisa se aperfeiçoa completamente, portanto, quando o processo se torna autoconsciente. A coisa passa a existir, ela mesma, de fato, intencionalmente, naquele que a conhece. A consciência desta possessão é a consumação da verdade em sentido próprio. É por isto que São Tomás nos dirá que a verdade existe no intelecto quando toma conhecimento de que assimilou a forma verdadeira da coisa conhecida. A consciência desta assimilação consiste na perfeição da verdade como conhecimento, ou seja, a verdade se manifesta de maneira própria quando se conhece, quando este conhecimento de fato é uma assimilação da coisa conhecida e quando esta adequação entre a coisa existente e a coisa conhecida se torna consciente, se torna ela própria conhecida no processo de conhecer. Isto se dá pela segunda operação do intelecto, a operação propriamente reflexiva do julgamento.

Este momento reflexivo pertence ao intelecto que julga, ou seja, ao “intelecto que compõe e divide”, como diz Tomás.

São Tomás passará a nos explicar todo o processo de conhecimento, assim como ele o vê, a fim de demonstrar que a verdade está no momento do julgamento reflexivo da inteligência. Ele passará pelas etapas do conhecimento par demonstrar seu ponto de vista. É mais fácil seguir o raciocínio dele se pensarmos num exemplo concreto. Um jovem contempla uma flor, digamos, uma bela rosa perfumada.

O jovem se aproxima da flor, percebe seu formato e suas cores harmoniosas, que agradam os olhos. Sente nos dedos a suavidade da pétala, aveludada, e a agudeza dos espinhos. Inala o aroma agradável que a flor exala. Reúne na mente todos estes aspectos sensoriais da flor e forma a sua imagem mental. Da experiência de várias flores, abstrai a noção de flor no seu intelecto. Todo este processo se dá sem que a questão da verdade se coloque em jogo.

Num determinado momento, este jovem vê uma flor artificial, e percebe que ela tem as mesmas cores e a mesma aparência de uma flor natural. Mas não percebe nenhum aroma, e logo percebe que a consistência do material daquele simulacro se apresenta ao seu tato de modo diferente daquele de uma flor natural. Voltando, pois, à noção de flor que tinha em seu intelecto, é capaz de perceber que aquela flor plástica não corresponde essencialmente a uma flor verdadeira, e emite o seu julgamento: esta é uma flor falsa. É artificial. Mas percebe, depois, que aquele artefato não foi concebido para enganar, mas para enfeitar um local em que uma flor natural não poderia ser depositada, porque pereceria muito rapidamente, em razão, digamos, de uma condição ambiental muito adversa. E percebe que o artefato foi feito com muita habilidade, e expressa a sensibilidade de um artesão criativo. E emite o seu julgamento: esta flor artificial é um enfeite verdadeiro, embora seja uma falsa flor. Este processo, pois, tem a sua culminação neste julgamento da inteligência, que se torna consciente deste jogo de correspondências que caracteriza o ser intencional. Pode-se dizer, mesmo, que a verdade, como transcendental, representa a generosidade de Deus para com a criatura inteligente, inserindo-a no processo de consumação do próprio ser. Sim, porque a existência da coisa, e sua correspondência com a inteligibilidade que Deus lhe dá ao concebê-la, são momentos necessários da própria criação, e não estão sujeitos ao império do falso. Neste sentido, constituem verdade apenas numa noção derivada, analógica. Mas quando o ser humano conhece, assimilando e julgando, torna em ato a relação do ser com a sua inteligência, que até então era potencial. Este movimento da potência ao ato da inteligência, com toda a sua possibilidade de falhar, consuma-se com a assimilação da inteligência ao ser e com a reflexão que torna evidente esta assimilação ao próprio ser inteligente – perfaz, portanto, a verdade em sentido próprio. Evidencia-se a proporção entre o ser de Deus, a inteligência de Deus, o ser e a inteligibilidade das coisas e o processo de conhecimento humano; consuma-se a existência das coisas com o aperfeiçoamento autoconsciente do intelecto humano, num jogo de assimilação do intelecto humano à fonte de inteligibilidade da criação que é Deus, em que a proporção entre todos os elementos manifesta a verdade em seu sentido próprio. E como a proporção também manifesta um outro transcendental do ser, que é a beleza, pode-se perceber facilmente como a beleza está profunda e inextricavelmente relacionada com o ser e a verdade. E como tudo isto está ligado com o bem, que nada mais é do que o próprio ser relacionando-se com uma vontade de consumação, na qualidade de fim.

Mas, se o fim do intelecto é o conhecimento da verdade, então a verdade é o bem do intelecto, e a beleza, no sentido de proporção com a mente de Deus, a sua consumação. Assim, a verdade é um certo bem, o bem é uma certa verdade, a beleza é a proporção entre elas e tudo isto se fundamenta no ser que é Deus e que ele doa à sua criação, de modo dialogal e amoroso.

E ainda há quem considere que o pensamento de São Tomás é frio e intelectualista. Ele pode ser profundo a ponto de ser áspero e difícil de penetrar, mas não poderia ser mais contemplativo. E eu consigo imaginar com que paz no espírito, com que elevação de alma São Tomás concluiu este artigo dizendo simplesmente: disto tudo se extrai facilmente a resposta às objeções iniciais. Depois de relacionar Deus com o ser humano por meio da inteligibilidade da criação, e descrever a generosidade de Deus em deixar que o processo do ser se consume, como verdade, na inteligência humana, por meio da proporção belíssima entre o ser e o espírito, nada mais coerente do que deixar-nos com a tarefa de responder, por nós mesmos, os questionamentos que nos levaram até aqui.