Esta questão da verdade é fundamental, e por isto merece uma avaliação mais longa, como a que estamos fazendo agora.

Já avaliamos a hipótese controvertida, e as objeções iniciais. Hora de estudar mais detidamente a resposta sintetizadora de São Tomás.

São Tomás começa logo nos dando uma noção de verdade, por analogia com o bem. Já vimos, em textos anteriores, que a tradição aristotélico-tomista define bem como aquilo a que tende o apetite. Ora, a verdade é definida por São Tomás como aquilo a que tende o entendimento. Neste sentido podemos repisar o velho aforismo – a verdade é um certo bem, na medida que ela atrai o apetite do entendimento. E o bem é uma certa verdade, na medida que é a inteligência quem o apresenta à vontade para ser eleito. E ele vai passar a explicar qual a relação entre as coisas e os seres inteligentes, em suas faculdades relacionais.

Os seres vivos possuem diversas faculdades, como as chamadas faculdades vegetativas (nascer, crescer, reproduzir-se, morrer) ou as sensitivas (os sentidos e os apetites inferiores). Os seres inteligentes possuem duas faculdades reflexivas, que são a vontade (ou apetite racional) e a inteligência. Estas duas faculdades caracterizam-se pela forma com que se relacionam com o mundo das coisas; a inteligência caracteriza-se pela capacidade de assimilar em si mesma as species das coisas que a interpelam.

Assim, de certa forma, conhecer é possuir sua species ou similitude na inteligência que, interpelada pela coisa, a conhece. No conhecimento, portanto, a coisa conhecida passa a existir, de algum modo, naquele que a conhece. Mas no caso da vontade, o sujeito se inclina para a própria coisa que o atrai; possuir, digamos, um milhão de dólares é objeto da vontade. Saber o que vale um milhão de dólares é objeto da inteligência. Mas o milhão de dólares adquirido, em razão da inclinação da minha vontade até ele, é muito diferente do milhão de dólares conhecido, mas não adquirido. Num caso, a minha vontade me inclina até o dinheiro. No outro, a minha inteligência absorve a informação. Em suma, o dinheiro real é o bem, em si mesmo, ao qual minha vontade me inclina. Mas o conhecimento sobre o dinheiro é uma similitude, uma informação que está na minha mente, independentemente de existir em minha conta bancária. Posso conhecer a verdade sobre o dinheiro sem ter nenhum tostão. Mas não posso gastá-lo sem possuí-lo efetivamente. É por isto que São Tomás diz que o bem está na coisa, e a verdade, no intelecto.

Mas há duas maneiras, lembra-nos São Tomás, de relacionar as coisas conhecidas com os intelectos: a maneira principal, ou “por si”, como São Tomás a chama, e a maneira acidental, ou “por acidente”. A coisa conhecida relaciona-se “por si” com o intelecto quando seu próprio ser depende do intelecto que a conhece. O exemplo é a relação da casa com o arquiteto: ele a conhece porque ela se originou no intelecto dele, como um projeto que foi executado. E certa forma, a inteligibilidade da casa está antes no intelecto do arquiteto do que na própria casa. É neste sentido que Sã Tomás nos ensina que a relação entre a inteligibilidade de uma coisa e o intelecto que a criou é essencial, direta e por si. E também neste sentido o único intelecto do qual pode-se dizer que toda a inteligibilidade do mundo depene é o de Deus, porque somente ele criou tudo do nada, e é criador em sentido próprio. Mesmo as coisas manufaturadas pela inteligência humana o são a partir de matéria preexistente, e portanto não estão em dependência completa do intelecto humano que as concebeu e criou, senão apenas parcialmente; este é o limite da analogia entre Deus e o arquiteto. Deus não pode ser chamado, em sentido próprio, de “Grande Arquiteto do Universo”, porque ele não o é; ele criou do nada, criou por amor, sua obra continua plenamente dependente dele para existir e ele a conduz om sua própria mão ao fim, que é a perfeição que existe em sua própria mente antes que nas coisas. Voltemos a São Tomás, depois desta breve digressão.

A segunda forma de relação entre uma coisa e um intelecto é a relação acidental: a coisa, que carrega em si a inteligibilidade presente no intelecto que a criou, interpela os intelectos criados e pode ser conhecida por eles. Mas este conhecimento é derivado; a coisa conhecida não depende, em sua existência, deste intelecto que passa a conhecê-la, e é neste sentido que São Tomás chama este conhecimento de acidental. Aqui há mais uma gritante diferença entre o modo com que São Tomás vê o mundo, e o modo com que nós o vemos hoje: a contemporaneidade, de modo geral, não admite a existência de algum conhecimento por acidente, seja por que não admite a criaturalidade das coisas, por negar a existência de Deus, seja porque coloca a criação somente no âmbito da vontade arbitrária de Deus; colocando a onisciência em confronto com a onipotência, os nominalistas acham que não há inteligibilidade intrínseca nas coisas, porque não há universais na mente de Deus, e cada coisa é criada numa singularidade total, como expressão do poder absoluto de Deus que não poderia ser constrangido nem sequer por uma pretensa inteligibilidade na forma de “gêneros” e “espécies” que existissem em Deus e o guiassem na criação de todas as coisas. Gêneros e espécies seriam, para estes, apenas criações da mente humana para ordenar e classificar, por meio de semelhanças, aquilo que na mente divina era individualizado e isolado entre si. Longe de São Tomás este nominalismo. Para Tomás, a lógica está presente em Deus como fonte, como sentido, e em nós como dom, como chave de conhecimento. E a lógica é a chave para relacionar a mente humana com a inteligência divina. Não há conhecimento acidental em Deus; tudo o que Deus conhece, ele conhece essencialmente, porque ele é a fonte última do próprio ser das coisas. Mesmo aquilo que é artificial deriva daquilo que é natural, e tem sua inteligibilidade firmada, em última instância, em Deus.

De maneira acidental, nosso intelecto criatural é capaz de apreender o que há de inteligibilidade nas coisas naturais e artificiais que nos interpelam. O conhecimento, para nós, é sempre derivado: criaturas que somos, para nós o ser sempre precede o conhecer. É por isto que a filosofia clássica sempre parte de uma realidade que nos interpela em primeiro lugar, a cuja inteligibilidade, que deriva da sabedoria de Deus em última instância, extraímos. A filosofia, no sentido clássico, é sempre uma “filo-sofia”, ou seja, uma amizade que estabelecemos com uma sabedoria que não se origina em nós, mas nos interpela. Diferentemente da filosofia contemporânea pós-cartesiana e pós-kantiana, em que o conhecimento precede o próprio ser. Para Descartes, o pensamento não é somente um indicador da minha existência – é o próprio fundamento do meu existir. Para Kant, filosofia é indagar sobre a própria possibilidade de conhecimento, cujas categorias de inteligibilidade eu projeto, no ato de conhecer, num mundo que é em si mesmo opaco e além de qualquer possibilidade de alcance – porque totalmente independente, para mim, de qualquer fundamento num suposto intelecto de Deus que está além da minha capacidade de conhecimento pessoal. A filosofia de Descartes e de Kant pressupõem o repúdio às cinco vias de Tomás, e já não consubstanciam, a rigor, uma “filo-sofia”, mas uma gnose. Uma construção estritamente humana de sabedoria. Que limita o conhecimento de que há Deus ao campo da revelação positiva (sola scriptura) e nega que conhecer o mundo seja, de algum modo, apreender uma inteligibilidade intrínseca ao mundo em forma de logos. Com isto, fica radicalmente negada a possibilidade de encontrar qualquer verdade fora da Bíblia, e excluída qualquer possibilidade de diálogo interreligioso, ou mesmo entre crentes e ateus, porque as pontes ficam destruídas: se a única revelação válida é a Bíblia, todas as religiões não estritamente bíblicas são falsas e todo conhecimento de que há Deus, fora da aceitação da Bíblia, é enganoso. Resta a missão de construir uma visão de mundo que seja consistente sem Deus, por um lado, e construir uma religião que exclua toda via intelectual, por outro. É aí, simplificando estupidamente, que estamos hoje. E que levou a Igreja a proclamar, como dogma de fé, aquilo que São Tomás já tinha demonstrado não somente com base nas próprias Escrituras, mas principalmente por meio da filosofia clássica – a inteligência humana é capaz de perceber com certeza que há Deus, embora não seja capaz de descobrir quem, ou o que, é Deus. Isto legitima, de alguma maneira, todas as religiões e mesmo toda a busca filosófica por Deus, e abre a possibilidade de diálogo plural. O que nem a posição ateia, nem a posição fideísta permitem.

A questão da existência de Deus, portanto, não é probabilística, mas essencial: as cinco vias não estabelecem a probabilidade de que haja deus, mas estabelecem que, uma vez concebendo-se uma causalidade, uma vez concebendo-se a transformação, uma vez contemplando-se a contingência, uma vez verificando-se a perfeição em ato, uma vez admitindo-se que haja fim nas coisas, necessariamente se concebe Deus. Para negar Deus, portanto, é preciso negar a causalidade, a transformação, a contingência, a perfeição e o fim. O que resta? Restam aqueles que preferem proclamar e cultuar o nada a abrir qualquer porta para Deus.

Voltemos a Tomás. No próximo texto.