Como vimos no último texto, o debate aqui é para estabelecer se a verdade é uma qualidade lógica, isto é, tem a ver com uma inteligência que se debruça sobre o real e o examina, ou se é uma qualidade ontológica, isto é, se está nas próprias coisas. Sabemos que o sistema de São Tomás, que sintetiza magistralmente a filosofia clássica com a revelação cristã, faz a verdade depender totalmente de Deus, em cuja inteligência tudo foi concebido a partir do nada, e cujo poder faz com que as coisas passem a existir.
Isto faria com que o reconhecimento da verdade dependesse completamente da fé em Deus? Esta é uma questão importante, porque nos dias correntes a maior parte da filosofia acadêmica parece entender que o ateísmo é um pressuposto necessário para filosofar, e que admitir a existência de Deus parece uma rendição ao fideísmo e uma contaminação da filosofia pela teologia. Mas não é assim. Sempre se entendeu, dentro dos sistemas clássicos e mesmo do medieval – e em parte da boa filosofia contemporânea – que a existência de Deus, como causa eficiente primeira, fundamento da mudança, garantia da permanência na contingência, perfeição completa e causa final do cosmos, fosse matéria de razão, não de fé. Como se entendia – e como entendem os bons filósofos ainda hoje, é só olhar para a finalidade e sua projeção além do tempo para admitir, pela razão, que deve haver uma inteligência onipotente guiando aquilo que está no tempo para um sentido que transcende o tempo, sem recorrer à necessidade da fé. Sendo claro: basta perceber, por exemplo, que o genoma aponta para um fenótipo que ainda não existe no tempo para ter que conceder que há algo que transcende o tempo, e que guarda em sua inteligência o sentido que está inscrito no genoma. Talvez seja exatamente porque esta conclusão é tão inescapável que a ciência moderna não se contenta em ignorar as causas finais por motivos práticos (o que, aliás, é bem aconselhável do ponto de vista científico). Vemos boa parte dos cientistas arriscando-se temerariamente no campo filosófico para negar até mesmo que as causas finais sejam concebíveis, a fim de evitar que haja um gancho, na razão, para alcançar Deus independentemente da fé.
Que há Deus, portanto, é algo que a razão humana pode perfeitamente responder de modo afirmativo, sem necessidade de fé no sentido teológico. A própria contemplação inteligente da natureza o revela. Vimos isto quando estudamos a questão 2 desta primeira parte da Suma. Assim sendo, fazer a verdade depender de Deus não é irrazoável; aliás, é a única forma de estabelecer uma âncora que nos permite a própria comunicação interpessoal. Reconhecemos que, muitas vezes, este simples dado racional da existência de Deus foi manipulado por líderes religiosos para fins de dominação política. Mas, como diz o velho ditado romano, “abusus non tollit usum”. Quer dizer, o fato de que admitir racionalmente a existência de Deus pode legitimar o abuso político da religião não precisa conduzir ao ateísmo como uma espécie de refúgio seguro contra abusadores. Não se responde ao abuso da racionalidade com a irrazoabilidade.
Admitida a razoabilidade da existência de Deus, seria razoável também admitir que ele é o fundamento da verdade? Ou seria mais razoável colocar a verdade nas próprias coisas, independentemente de Deus, de modo a preservar sua unidade e sua objetividade, sem fazê-la depender de uma abertura à fé, como fizeram os antigos filósofos pré-socráticos, com sua filosofia cosmocêntrica que culminou no hiper-realismo platônico, será que teríamos como tirar Deus do centro, fazendo com que a verdade fosse uma qualidade completamente humana, e transformar a inteligência humana na medida de todas as coisas, neste antropocentrismo moderno no qual inda vivemos, e que nos encaminha sempre, no limite, à luta entre o niilismo anárquico, por um lado, e o totalitarismo voluntarista por outro? É nesta discussão que estamos agora.
Vimos, no último texto, que a hipótese controvertida aqui é a de que a verdade é uma qualidade ontológica, e não uma categoria lógica. Ou seja, a verdade estaria, segundo a hipótese controvertida, nas coisas, não nas inteligências. Os três argumentos objetores reduzem ao absurdo as proposições que fazem a verdade depender da inteligência humana, reduzindo-as ou ao subjetivismo, ou ao idealismo extremo, ou mesmo à total perda de significado da realidade, quando se coloca a verdade como uma dimensão da inteligência. Mas, como argumento sed contra, São Tomás traz uma citação de Aristóteles, que diz expressamente que a verdade e a falsidade não estão nas coisas, mas nos entendimentos. A verdade, para Aristóteles, é uma categoria estritamente lógica, embora com total fundamento nas coisas. Não é possível, para São Tomás, pensar numa lógica que não seja ferramenta de conhecimento do mundo, ou seja, instrumento de conhecimento de um intelecto racional perante um mundo existente em si mesmo. Passaremos, no próximo texto, a estudar a estudar a resposta sintetizadora de São Tomás.
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