Talvez de tudo aquilo que diferencia a filosofia moderna e contemporânea da filosofia nada se mostre mais agudo do que a questão da verdade, e nada mostre mais claramente em que consistiu a tal “mudança antropológica” que marcou a transição do medievo ao moderno e contemporâneo. De fato, o que São Tomás vem preparando para nós, desde a questão quatorze, pelo menos, é uma fundamentação em Deus para a questão da verdade. E a coisa se dá assim: Deus é criador, e ele cria tudo a partir da sua inteligência, e das ideias que preconcebeu em seu intelecto. Estas ideias estão para a criação como o projeto está para o artesão, e medem a verdade das coisas criadas. A existência concreta das coisas criadas seria, portanto, no sentido mais próprio, uma revelação, para nós, da mente de Deus. Nossa inteligência se mede pelas coisas criadas por Deus, como fundamento e medida do mundo, do mesmo modo que as coisas que fazemos medem-se pela nossa própria inteligência e liberdade. As implicações científicas e éticas desta concepção de universo podem explicar toda a cultura ocidental, desde o maravilhoso desenvolvimento da ciência e da técnica, por um lado, ao próprio desenvolvimento do estado laico, cuja raiz, no fim das contas, é propriamente cristã.

Mas a tendência, por um lado, de negar o fundamento da verdade na mente divina, que marcou o pensamento filosófico ocidental desde Descartes e Kant até hoje, que caracterizou o chamado”secularismo filosófico”, ou “curva antropológica”, ou, por outro lado, de negar a razoabilidade da criação, fazendo tudo depender da vontade arbitrária e incondicionada de Deus a cujo império a única resposta é a submissão absoluta, que marcou certas correntes pietistas cristãs e certas correntes muçulmanas extremadas, por outro, gerou um conflito entre fé e razão que São Tomás não acharia razoável; não pode haver verdadeiro conflito entre a fé e a razão bem compreendidas, quando se entende o modo com que a inteligência de Deus se relaciona com a nossa, e a chave está aqui: é a questão da verdade. Não foi à toa que Pilatos, em grande medida um homem “moderno” na sua forma de lidar com a fé, a filosofia e o poder em seu tempo, dirigiu a Jesus a grande pergunta que veremos São Tomás responder aqui: “o que é a verdade”? Pilatos fez uma pergunta puramente retórica, sobre uma questão que considerava na verdade respondida de modo negativo – sua pergunta parece transparecer um menosprezo pela questão da verdade, que o impediria de enxergá-la mesmo que ela se encarnasse bem na sua frente (o que, aliás, aconteceu).

Vamos pensar numa situação muito simples um homem olha uma pedra. O que significa falar de “verdade”, nesta situação? Será que a verdade está na pedra, e nós somos meros espectadores dela, passivos contempladores de uma verdade totalmente externa a nós mesmos? Será que a verdade está totalmente na mente humana, que a projeta na pedra quando a contempla (ao modo de Kant), caso em que ele jamais saberá de fato o que é a própria pedra, e conhecerá apenas as próprias categorias que sua mente projeta nela? Ou será que não há nenhuma pedra, e a mente humana é a criadora daquilo que ela percebe falsamente como sendo um mundo externo a ela mesma? Será que a verdade é obter uma noção clara e distinta, na mente humana, daquilo que em si mesmo é apenas extensão, como queria Descartes? Todas estas respostas foram dadas em algum momento por alguma corrente filosófica, em especial as correntes modernas e contemporâneas. A proposta tomista coloca a inteligibilidade do mundo sempre em alguma mente, seja a mente de Deus como criador último de todas as coisas, seja na mente humana, de modo originário para aquilo que é artefato ou de modo derivado para aquilo que é natureza. A verdade é, portanto, sempre uma realidade numa inteligência. Mas Tomás quer firmar esta ideia num debate amplo. E proporá a hipótese contrária – a de que a verdade está sempre nas coisas, não nas inteligências. Para acompanhar esta questão, vamos lembrar sempre do referencial básico: um homem olhando para uma pedra. Onde está a verdade, nesta situação, eis o que nos interessa. A verdade é uma categoria lógica (ou seja, está numa mente que conhece, no processo de conhecer) ou ontológica (quer dizer, está nas coisas que são conhecidas)? Somente admitindo que a verdade se unifica, lógica e ontologicamente, na mente de Deus, e chega a nós dinamicamente pela nossa razão participada e construtiva, é que a conta fecha. E isto nunca foi fácil de entender, ou de aceitar, nem para os antigos, nem para nós.

Eis agora a questão que São Tomás propõe para iniciar o debate: onde está a verdade, está no intelecto ou nas coisas? É claro que a hipótese controvertida implica debater propriamente o que é a verdade. Aqui, ela será formulada assim: parece que a verdade está principalmente nas coisas.

O que significa dizer isto? Significa isolar, na busca da verdade, a relação entre as coisas e a mente de Deus, por um lado, e estas mesmas coisas e a mente humana, por outro. Se a verdade está nas coisas, ela se determina por uma simples relação entre as coisas e a mente humana, como querem os modernos, e não por uma relação entre Deus, a criação e os seres humanos. Seriam as coisas em si mesmas, relacionando-se com as mentes humanas, que mediriam a verdade. Neste sentido, a hipótese controvertida parece muito moderna, para nós. São Tomás trará três argumentos objetores no sentido da hipótese controvertida inicial. Continuemos com a figura de um homem olhando para uma pedra.

O primeiro argumento objetor cita duas noções de verdade que teriam sido refutadas por Santo Agostinho:

1. A noção de que “a verdade é o que se vê” (que, diríamos hoje, parece muito kantiano), que, segundo o argumento, não pode ser aceito, já que, neste caso, coisas que não podem ser vistas pelos seres humanos, como as pedras que se encontram nas profundezas da terra, não seriam pedras de verdade.

2. A noção de que nada seria verdadeiro se não houvesse alguém para conhecê-lo. A mente humana, contemplando a pedra, formaria a própria verdade no processo de conhecê-la. Assim, a pedra não seria uma verdeira pedra enquanto não fosse conhecida por um homem.

Diante destas contradições, o argumento propõe que a definição final de Santo Agostinho para a verdade seria “o verdadeiro é o que é”, ou seja, o argumento conclui, diante do que ele entende como contradições causadas pela ideia de que a verdade está na inteligência, que a verdade estaria totalmente nas coisas, e nunca num intelecto.

O segundo argumento quer mostrar a contradição de pensar que a verdade está sempre num intelecto cognoscente reduzindo ao absurdo a ideia de que o verdadeiro seria aquilo que aparece como tal ao sujeito cognoscente – que é uma noção também com uma aparência muito contemporânea. Isto significaria, segundo o argumento, que cada homem olhando para uma mesma pedra formaria, sobre ela, uma verdade distinta, mas igualmente válida. Haveria, então, tantas verdades quantos fossem os seres humanos que contemplam aquela pedra. Aceitar esta definição traria, segundo o argumento, como consequência que a verdade, como tal, não existiria em sua unidade, já que, se todas as opiniões sobre a pedra são verdadeiras, então a rigor a verdade não existiria, senão verdades, mesmo que incompatíveis e contraditórias entre si. Assim, o argumento conclui que admitir que a verdade estivesse no intelecto seria admitir que a verdade é impossível como unidade, com objetividade. E o argumento conclui que a verdade deve estar nas coisas: se um homem olhar uma pedra, para este argumento, a verdade está sempre na pedra, nunca no homem que a contempla.

O terceiro argumento distorce uma afirmação aristotélica para negar que a verdade seja uma categoria lógica, ou seja, que ela esteja sempre numa inteligência, e não nas próprias coisas. Primeiro, o argumento traz a afirmação aristotélica de que “aquilo que faz com que algo seja é sempre mais do que o que é feito”. E outra citação aristotélica diz que “é pelo fato de que alguma coisa é ou não é que a opinião ou a afirmação relativa a ela é verdadeira, e não o contrário”. Destas duas afirmações o argumento conclui que a verdade está principalmente nas coisas, que medem o intelecto humano, e não o contrário.

Como argumento sed contra, São Tomás traz outra citação aristotélica, do livro VI da Metafísica: “o verdadeiro e o falso não estão nas coisas, mas no intelecto”.

Como conciliar estas informações todas? É o que veremos no próximo texto.