O presente artigo traz uma discussão muito interessante; trata-se ainda da utilização da filosofia platônica das ideias para a concepção revelada de Deus, tal como recebemos no cristianismo. Se esta questão inteira tem um inegável sabor platônico, este artigo, de modo especial, faz um fechamento nesta utilização deste instrumental filosófico pelo pensamento teológico. Assim, além de harmonizar o instrumental do platonismo com a revelação cristã e mesmo com o instrumental filosófico aristotélico. Aqui, o reino imutável e transcendental das ideias platônicas torna-se dinamismo criador na mente divina, fonte de amor que origina tudo o que há. E a maravilhosa síntese tomista entre Revelação, platonismo, aristotelismo e patrística revela toda a sua força.

Há outro ponto a ressaltar: é na mente divina, segundo São Tomás, que a ontologia e a lógica se encontram. De fato, o reino das ideias e das coisas não coincidem, mesmo na mente de Deus. Como explicar que há ideias que não correspondem a coisas, e há realidades, como o mal, que não correspondem a ideias? Tudo isto São Tomás tentará explicar agora. E é exatamente esta noção da diferença entre o real e o ideal que a filosofia moderna e contemporânea perderam. Ou se reduz todo o real ao ideal, como nas filosofias de padrão hegeliano, ou se nega toda a força da lógica e se transforma a existência em puro fato, contingência e acaso sem sentido, como nos existencialismos ateus mais radicais. São Tomás talvez tenha alguma coisa para nos explicar, neste particular. Com a sua noção, interessantíssima, de que na mente de Deus a lógica e a ontologia se encontram sem jamais reduzirem-se uma à outra. Mas a discussão aqui, poderíamos dizer, é para saber se o conjunto do real é mais extenso do que o conjunto as ideias em Deus. Vale dizer, se o que é real e o que é lógico têm a mesma extensão em Deus, e como se distinguem.

O debate é proposto a partir da seguinte hipótese controversa: parece que nem tudo o que Deus conhece pode ser chamado de ideia em sentido próprio. E quatro argumentos objetores são apresentados, no sentido desta hipótese controversa inicial. O primeiro argumento traz o problema do mal. De fato, Deus, sendo sumo e puro bem, não pode conter em si nenhum mal. Mas Deus conhece o mal. Ora, o argumento prossegue dizendo que Deus contém em si as ideias do que conhece; ora, se Deus conhecesse o mal por meio de ideias, então ele conteria em si a ideia de mal, o que é inadmissível. Assim, o argumento conclui que, uma vez que Deus conhece o mal, mas não pode contê-lo em si de nenhuma forma, então não é por meio de ideias que Deus conhece o mal. Logo, conclui o argumento, não é por meio de ideias que Deus conhece todas as coisas.

O segundo argumento parte das coisas que, embora concebíveis por Deus, não foram por ele eleitas para existir. Segundo uma citação do [pseudo-]Dionísio sobre as ideias, que o argumento ajunta aqui, as ideias são descritas como “modelos da divina vontade, que definem e realizam as coisas”. Ora, das coisas que não foram eleitas para existir jamais não se pode dizer que tenham “modelos” ou “causas exemplares”. Logo, o argumento conclui que nem tudo o que Deus conhece pode ser descrito como “ideia”.

O terceiro argumento lembra o caso especial daquele ente que os antigos chamavam de “matéria-prima”. Ela é aquilo de concretude e existência que resta depois que todas as formas são abstraídas, vale dizer, aquilo que permanece através do processo de corrupção e geração de todas as coisas. Está fora de questão, diz o argumento, que Deus conheça a matéria-prima. Mas, por definição, a matéria-prima, não tendo qualquer estrutura em si, não pode ser conhecida por meio de ideias. Daí, o argumento conclui que o conjunto das coisas que Deus conhece é maior do que o conjunto das ideias que ele tem. Logo, nem tudo aquilo que Deus conhece, segundo o argumento, toma o modo de ideia.

O quarto argumento parte das noções propriamente lógicas de espécie, gênero, singular e acidente. Deus conhece todas estas realidades. Mas não se pode dizer, segundo a filosofia platônica que São Tomás cita aqui por meio de Santo Agostinho, que haja uma “ideia do gênero”, ou mesmo dos singulares ou dos acidentes. Estas categorias são entidades lógicas, mas não se manifestam diretamente nas coisas, como realidades ontológicas distintas em si mesmas; quanto aos entes singulares, no pensamento platônico, eles são meras cópias imperfeitas das espécies, concretizadas na matéria, e portanto não haveria ideias distintas para cada singular. Daí o argumento conclui que nem tudo o que Deus conhece pode ser descrito como ideia.

Como argumento sed contra, São Tomás trará uma citação agostiniana; segundo Santo Agostinho, as ideias são as próprias razões existentes na mente divina. Uma vez que Deus tem razões próprias de tudo o que conhece, este argumento conclui que Deus tem ideia de tudo o que conhece. Trata-se, pois, de um argumento de plena confiança na racionalidade intrínseca à criação, que refletiria uma racionalidade plena no espírito do Criador. Como veremos adiante, São Tomás, embora concordando essencialmente com este argumento, faz importantes distinções capazes de mostrar que ele também não é completamente verdadeiro, assim sem restrições. Mas este artigo é um daqueles em que o debate só ficará completo com o exame de todas as respostas às objeções.

São Tomás passa agora à sua reposta sintetizadora. E mostrará, logo de partida, que parte das dificuldades deste problema é que a noção de ideia, em Platão, não é unívoca. Ela tem duas facetas: é princípio de conhecimento das coisas, mas também é princípio de geração das coisas. Existe, pois, uma carga contemplativa e uma carga performativa na noção de ideia, conforme ela se refira àquilo que simplesmente se conhece ou àquilo que, tendo se formado na mente do agente, dirige a sua ação para a criação do que foi concebido. Vale dizer, há, nas idias, uma dimensão contemplativa, que se relaciona com o nosso conhecimento especulativo – aquele conhecimento que não se dirige ao fazer, mas ao possuir, ao tornar-se semelhante, ao absorver no próprio intelecto aquilo que se conhece. Como vimos na questão 14, há, mesmo em Deus, um conhecimento especulativo, com relação à sua própria natureza. De fato, Deus não se fez; sendo eterno e imutável, o conhecimento que tem de si mesmo não é um conhecimento prático, mas especulativo, contemplativo. Lamentavelmente, esta dimensão de conhecimento foi perdida pelo cientificismo e mesmo pela filosofia prevalente hoje. Tendemos, hoje, a considerar valioso apenas o conhecimento performativo, prático, capaz de nos dar poder sobre a natureza. Exatamente o contrário do que pensavam os gregos clássicos e os escolásticos medievais, que valorizavam em primeiro lugar a contemplação, por sobre a ação.

Assim, as ideias são modelos, ou seja, causa exemplar, apenas daquilo que se refere ao conhecimento prático de Deus, ou seja, daquilo que ele escolhe fazer. Mas como princípio de conhecimento, pode-se ter ideia tanto do que se escolhe fazer (causa exemplar) quanto do que apenas se contempla ou especula. A noção de ideia como princípio de conhecimento, portanto, abrange e contém a noção de ideia como causa exemplar, modelo de ação. É por isto, portanto, que em qualquer caso podemos designar as ideias de razão das coisas. E com isto São Tomás conclui que, no sentido de razão de modelo, ou de causa exemplar, Deus tem ideia de tudo o que ele decidiu fazer em qualquer tempo. Mas no sentido de princípio de conhecimento ou razão, Deus tem ideia de tudo aquilo que ele conhece, seja aquilo que ele não elegeu para existir, seja o conhecimento contemplativo que tem de si mesmo. E assim a regra está estabelecida; tudo o que Deus conhece, tem nele próprio a razão, sob a noção de ideia, incluindo-se aí ele mesmo, as coisas que não elegeu criar e, como será explicado adiante, com as devidas ressalvas, até mesmo quanto ao mal, a matéria-prima e os acidentes próprios das coisas. Este será o assunto das respostas às objeções iniciais.

A primeira objeção traz a questão do conhecimento que Deus tem do mal. Será que há uma ideia do mal em Deus, de modo a tornar o mal participante do próprio intelecto divino? São Tomás responde que não; de fato, Deus conhece o mal, não como uma coisa, porque o mal não é uma coisa, mas uma deficiência. Assim, por conhecer a perfeição própria de cada coisa, por sua razão última que está no intelecto divino como ideia, Deus sabe exatamente quais são as deficiências que ela apresenta em sua existência concreta. Neste sentido, o mal é conhecido não por uma razão própria (que ele não tem, já que não tem concretude ontológica) mas pela deficiência na razão de bem das coisas. Assim, não há ideia do mal, nem como princípio de conhecimento, nem como exemplar, na mente de Deus, mas, pela razão de bem das coisas, o mal é perfeitamente conhecido por Deus como deficiência.

A segunda objeção diz respeito às coisas que, embora possíveis (por não conterem em si contradição essencial, como um círculo quadrado ou similares), não foram eleitas por Deus para existirem, São Tomás diz que não há delas ideia no sentido de exemplar, de modelo, salvo como virtualidades, ou seja, possibilidades que, embora caibam no poder de Deus, ele escolheu não realizar. A ideia que ele tem destas coisas é, portanto, especulativa, como princípio de conhecimento, e não como modelo. Neste sentido, não pode haver nada em nossa imaginação que não tenha sido primeiro imaginado por Deus!

A terceira objeção diz respeito ao conhecimento que Deus tem da matéria-prima, da qual, por definição, não pode haver ideia, porque não tem em si mesma nenhuma inteligibilidade. São Tomás começa com uma pequena precisão filosófica: a filosofia grega clássica, que culmina com Platão e Aristóteles, não tinha a noção de criação “ex nihilo” (do nada), que é uma noção propriamente judaico-cristã e, portanto, revelada. Assim, a matéria seria coeterna com o Demiurgo, e portanto uma concausa de tudo o que existe. Não haveria, pois, nenhuma ideia da matéria, porque ela sempre se apresentaria já informada, como elemento estrutural do real.

Incorporando esta noção à concepção teológica da criação da própria matéria por Deus, São Tomás nos diz que a matéria-prima é criada por Deus, mas não sem a forma. Deus não cria pura matéria-prima, eis porque não há uma ideia da matéria que seja independente do composto da qual ela é sempre elemento. Neste sentido, a resposta tomista antecipa em séculos a resposta para a busca, muito contemporânea, da chamada “partícula fundamental da matéria”, que é uma busca vã: é próprio das coisas materiais poderem ser divididas ao infinito, e cada partícula descoberta tem alguma forma, que a constitui num composto matéria-forma e a impede de ser descrita como matéria-prima simplesmente. Alcançar a pura matéria, fundamental e subsistente em todas as coisas, é conceitualmente impossível, porque a matéria destituída de forma não se constitui em ideia nem sequer no conhecimento divino. É conceitualmente impossível.

Por fim, São Tomás entra no campo da pura lógica: e quanto às categorias lógicas que não possuem substância ontológica, mas que têm que ser do conhecimento de Deus, tais como a noção de gênero, de acidentes próprios e mesmo de indivíduo? São Tomás nos explica que os gêneros não podem constituir uma ideia própria, no sentido de modelo ou exemplar, porque o modelo é propriamente uma espécie, e os gêneros só existem como categoria que se realiza nas espécies. Assim, as diversas espécies animais, dentre elas a espécie humana, concretizam o gênero como ideia, no sentido de que são modelo de tudo o que existe na forma animal. Neste sentido, não há nem pode haver uma ideia de gênero distinta das ideias de espécie. Com relação aos acidentes próprios, estão contidos na ideia mais ampla da espécie da qual fazem parte. Não faz sentido imaginar, por exemplo, que pudessem existir chifres andando por aí independentemente do animal chifrudo ao qual pertencem. Assim, os acidentes próprios não têm a característica da distinção, para constituírem ideias próprias. Mas os acidentes supervenientes, como a cor de uma casa, que pode ser alterada pela atividade posterior do pintor, têm subsistência ontológica distinta o suficiente para constituírem-se em ideias, tanto no sentido de razão de conhecimento, quanto no de modelo.

Por último, temos a questão dos indivíduos. Para Platão, os indivíduos são apenas cópias individuais imperfeitas da ideia de espécie, e imperfeitas porque são materiais. Assim, eles não seriam nada além da multiplicação da ideia através do meio de individuação que é a matéria, e por isto não representariam nenhum acréscimo de inteligibilidade para além da própria ideia, que é sempre a ideia de espécie. A matéria, que é fonte de individuação e concausa dos indivíduos, não acrescenta inteligibilidade, mas imperfeição à ideia que multiplica. Isto porque Platão desconhece a origem divina da matéria, o que nós, por outro lado, conhecemos perfeitamente. Assim, os indivíduos são mais do que simplesmente a ideia da espécie multiplicada imperfeitamente por uma fonte de ininteligibilidade; eles são, isto sim, o real concreto, ao qual chega a providência amantíssima de Deus. Mas isto será objeto de outra questão aqui na Suma. Por enquanto, interessa saber que a ideia representa a espécie, mas não exclui a individualidade dos exemplares do conhecimento pormenorizado e providente de Deus.

É assim que chegamos à conclusão de que Deus conhece tudo por ideias, mas não há uma ideia para tudo o que ele conhece. Como isto acontece, eis o que acabamos de estudar. Eis uma criação em que tudo está fundamentado em razões. E ancorado na eternidade da mente divina, cuja providência amorosa se estende a cada detalhe. Muito diferente do niilismo angustiante que cultivamos hoje em dia.