No último texto, estudamos um pouco sobre a relação entre as ideias em Deus e as coisas que há no mundo; se Deus as concebe individualmente ou se, ao contrário, ele teve apenas a ideia de criar o mundo em sua estrutura básica e, a partir daí, as coisas foram evoluindo e se constituindo sem obedecer nem a alguma causa formal, nem a alguma causa final; um mero jogo de causas materiais e eficientes num mecanismo completamente destituído de sentido e de inteligibilidade. Deus seria, então, apenas o relojoeiro cego que criou as regras básicas e colocou tudo para funcionar, sem ter nenhuma relação providencial com o mecanismo que ele criou, e sem que este mecanismo pudesse de algum modo revelar a sua existência.

De fato, na visão clássica que o cristianismo tem do universo, Deus se revela no conjunto da causalidade; mas especialmente as causas final e formal tornam o mundo transparente a ele. É só voltar na questão 2 da Suma e rever as chamadas “cinco vias”, que veremos facilmente como isto pode acontecer. Mas na visão mecanicista do Universo, há um cuidado todo especial para negar qualquer aspecto, na estrutura do universo, que possa levar a Deus; o esforço é ocultar quaisquer “ganchos para o céu”. Como se dá este reducionismo, é o que discutimos no último texto.

Ali, vimos que a hipótese que São Tomás nos traz, nesta questão, para provocar o debate, é a de que Deus não tem, em si, mais do que uma ideia só, ampla e geral, sobre a sua criação; as formas das coisas individuais não estariam, pois, em sua mente.

Em favor desta hipótese inicial, São Tomás introduz quatro argumentos objetores, que examinamos ali. O primeiro parte da coincidência, em Deus, entre a sua essência, que é simples, e as suas ideias. Se há apenas uma essência em Deus, o argumento conclui que haverá também apenas uma e só uma ideia nele. O segundo argumento também parte da simplicidade divina. Em Deus, o princípio primeiro de agir é ele mesmo. Ora, segundo o argumento, a ideia é princípio do conhecimento e da ação; é por ter uma ideia de casa, digamos, que o arquiteto concebe e constrói aquela casa. A ideia, a sabedoria e a arte, ou seja, o saber prático, são os princípio do agir de qualquer agente. Ora, em Deus o princípio de ação é ele mesmo, que é uno e simples. Logo, há nele apenas uma ideia. O terceiro argumento parte da diferença entre a temporalidade das coisas e a eternidade de Deus; se Deus, eterno, tivesse em si as ideias das coisas temporais, isto significa que as coisas temporais causariam ideias em Deus, o que seria admitir que o temporal pudesse ser causa do eterno; e disto o argumento conclui que não pode haver muitas ideias em Deus. O quarto argumento parte da relação entre as coisas, suas ideias e Deus. Se a relação entre as coisas, suas ideias e Deus. Se esta relação existe de verdade, tanto nas coisas como em Deus, significa que em Deus há diversas relações, que unem ele, as ideias e as coisas. Haveria, portanto, uma pluralidade de relações reais e eternas em Deus, substanciais. O que, segundo o argumento, seria um absurdo de pensar, já que a única forma de multiplicar relações reais e eternas em Deus é a Trindade. Mas se esta pluralidade não é real em Deus, mas só nas criaturas, então não há, segundo o argumento, uma pluralidade real de ideias em Deus. O argumento sed contra cita Agostinho, que aforma as ideias como razões estáveis e imutáveis das coisas em Deus, que são eternas, mesmo quando dizem respeito àquilo que é, em si mesmo, temporal. Não são as coisas, em sua existência contingente e efêmera, que formam as ideias em Deus, antes ao contrário. Até aqui havíamos chegado no último texto.

Vamos examinar agora a resposta sintetizadora de São Tomás. Ele começa logo negando a hipótese inicial, e afirma que é necessário admitir que há muitas ideias. E passa a nos dar uma aula sintética e maravilhosa de causalidade formal e final, e da relação entre elas. Qual a primeira causa, para qualquer agente? Tomás nos ensina que a primeira causa, a mais fundamental, é sempre a causa final. Isto é fácil de perceber, quando estamos tratando do agir de um ser inteligente. Todo ser inteligente, quando age, quer propriamente aquilo que é o fim de sua ação. O general, por exemplo, pode dar pequenas ordens destinadas a este ou aquele subordinado, mas ele visa propriamente, como fim de seu agir, a ordem do exército inteiro. Assim é com Deus: a ordem final da criação é o que move propriamente Deus em sua providência. Portanto, não se pode imaginar que os agentes criados, secundários, existam por acaso, por uma espécie de seleção cega, a partir da primeira coisa que Deus criou. Deus criou o universo com uma ordem, perceptível e evidente, uma vez que é a própria existência desta ordem que torna possível a própria ciência humana. Ora, se a ordem do universo é o fim propriamente visado por Deus na criação, é necessário que a ideia que ele tem desta mesma ordem envolva absolutamente tudo que esta mesma ordem refere. E São Tomás nos oferece outra analogia: o construtor concebe a casa, e a ordem final da casa é o fim propriamente perseguido por ele. Mas ele tem que ter a ideia de cada parte, cada aspecto da casa, senão não poderá construí-la. Assim, na mente divina, deve haver a ideia de cada coisa que existe, por sua referência com a ordem final do universo. É claro que São Tomás parte de dois pressupostos que a filosofia moderna renega totalmente: que haja um sentido no universo, e que haja uma inteligência transcendente por trás dele. A esta altura da Suma, devemos estar muito cientes da robustez da construção teológica de São Tomás quanto a estes dois aspectos, pela solidez dos fundamentos filosóficos que toma e aplica com competência aos dados revelados que possui.

Note-se como a resposta de São Tomás respeita a simplicidade divina: há em Deus propriamente a ideia simples da ordem final do universo; mas, uma vez que o universo é, em si mesmo, complexo, é preciso que esta ideia contenha em si as espécies de tudo o que está contido nele. Portanto, não é a pluralidade das coisas que gera ideias plúrimas em Deus, mas a grandiosidade da sua ideia final do universo que gera a própria pluralidade das coisas.

São as coisas, portanto, que participam, de algum modo, na perfeição de Deus, que se expressa, quanto à criação, na perfeição última do universo.  Assim, cada coisa diferente que está contida no universo expressa algum aspecto desta mesma perfeição última de Deus. Assim, conhecendo-se perfeitamente e A sua própria perfeição, Deus conhece a complexidade da ordem última do universo e a maneira pela qual cada um dos seres expressa, de modo limitado, participado, esta perfeição. Conhecendo-se, portanto, Deus conhece todas as coisas. Na sua ideia final e perfeita, possui em si as ideias de cada coisa que há.

O mundo, portanto, não é um mecanismo sem propósito que vai engendrando ao acaso seres mais ou menos adaptados que lutam para sobreviver e reproduzir-se. Mas uma grande concepção de ordem pensada em seus mais íntimos detalhes por uma inteligência que ama e que, estando além do tempo, guarda em sua mente a perfeição de cada coisa. Isto parece responder uma pergunta que a genética não tem coragem de se propor: onde está o fenótipo do genoma do embrião, antes que ele seja aquilo para o que o genoma aponta? São Tomás responderia simplesmente: está na mente de Deus.

Dito isto, São Tomás passará a responder às objeções iniciais. A primeira é aquela que, sendo simples e uno na essência, Deus tem somente uma ideia. São Tomás responde que a palavra “ideia” não designa a essência divina como tal, mas como razão das coisas criadas. Usa exemplar de tudo o que existe. Assim, nada impede que haja várias razões exemplares na mesma essência. Ou seja, Deus é uno, mas tem várias ideias em si.

A segunda objeção parte da ideia de que Deus ó tem uma sabedoria e um só modo de agir disto conclui que Deus deve ter apenas uma ideia. São Tomás nos responderá que a sabedoria e a arte divinas dizem respeito ao modo com que Deus intelige, mas não ao próprio conteúdo de sua intelecção. De fato, embora seu entendimento seja um só, ele conhece a multiplicidade das coisas na unidade de sua compreensão. E ele faz uma analogia: quando um arquiteto conhece uma casa assim como é, devidamente construída, existente no mundo material, dizemos que ele conhece aquela casa. Mas quando ele conhece a própria razão de “casa” em seu intelecto e se torna capaz de projetar e construir inúmeras casas a partir daquele conhecimento sobre casas, que ele sabe que tem em seu intelecto, dizemos, neste caso, que ele conhece a própria ideia de casa. E São Tomás nos explica que Deus, em sua onisciência, conhece não apenas as coisas que existem em sua concretude existencial; ele também conhece a razão de todas as coisas, e sabe que as conhece como razões ou ideias de coisas. Assim, Deus conhece as muitas razões das coisas, e sabe que as conhece. Assim, temos que admitir que há muitas ideias no intelecto divino.

A terceira objeção diz que, se Deus tem ideia de todas as coisas, essas ideias existem nele eternamente, mas decorrem das coisas que são contingentes, temporais; e admitir isto seria admitir que o temporal possa ser causa do eterno. São Tomás dirá que não são as próprias coisas que causam as ideias em Deus, mas, ao contrário, a essência divina, que contém em si todas as perfeições, é origem das coisas das quais tem ideia, e que conhece em primeiro lugar em si mesmo, pela contemplação de sua própria essência.

A quarta objeção diz que a pluralidade de relações, em Deus, gera a pluralidade de pessoas da Trindade. Assim, se há pluralidade real de relações de Deus com as coisas criadas, Deus se multiplicaria muito além da Trindade – já que em Deus não há acidente, esta pluralidade estaria na própria essência divina, multiplicando Deus, o que seria inconcebível. São Tomás nos explicará que esta multiplicidade de ideias não está nas coisas; as coisas têm sua própria inteligibilidade intrínseca; vale dizer, em si mesmas são unas. Mas a multiplicidade de ideias está originalmente em Deus. A multiplicação de ideias é um fenômeno próprio das inteligências, e não das próprias coisas. É, portanto, um fenômeno de razão, e não uma multiplicidade real, como aquela que distingue as pessoas em Deus.

Todas as coisas são precedidas por suas ideias em Deus. Não há acasos nem surpresas para ele.