Certa feita Pascal disse, sobre Descartes, que havia uma coisa da qual não o podia perdoar: ele precisou de Deus, em sua filosofia, apenas para dar um “piparote” inicial no universo, e depois o dispensou silenciosamente. Esta tem sido a postura, também, com relação a uma grande parte do cientificismo contemporâneo: a ideia do “fechamento causal” do universo criado, e da evolução pelo acaso, são ideias que procuram tornar o universo impermeável a Deus, uma vez surgido. A partir, então, de um “piparote inicial”, a máquina andaria sozinha, por um sistema fechado de causalidade eficiente sem causalidade final. O acaso, a multiplicação de seres e a eliminação dos ineficientes ou menos adaptados faria o resto.
Se o acaso pode ser definido como aquilo que não pode ser reduzido a causas explicáveis, ele pode ser tudo, menos explicação. Na verdade, a noção do acaso surge exatamente para recusar uma explicação àquilo que pode levar à ação da providência divina sobre a criação: as noções de causa formal e a noção de fim, ou causa final. Com o acaso, estas duas relações causais são negadas, em favor da noção de adaptação aleatória e seleção dos mais eficientes. As formas das coisas, portanto, seriam casuais, sem sentido em si mesmas, geradas pelo acaso de uma maneira tal que calhou de serem eficientemente adaptadas a um determinado contexto. A Deus, restaria um único pensamento, uma única ideia: a de dar o empuxo inicial, concebendo as regras gerais do sistema de uma forma tal que ele próprio, Deus, já não fosse nem necessário, nem transparente a partir da criação. E de uma forma tal que nem ele próprio pudesse saber o que resultaria da aplicação cega das regras iniciais de produção de seres em superabundância, com eliminação dos menos adaptados e transmissão das características dos mais adaptados. Deus não concebeu, para esta visão, as coisas que existem. Nem sequer as conhece de antemão. Gerou a forma básica das leis que regeriam o universo, deu o piparote inicial e foi se ocupar daquilo que o ocupava desde toda a eternidade – de si mesmo. Para estes, a única perfeição de Deus, que seria evidente para nós, seria a de ser um “relojoeiro perfeito”, capaz de construir uma engrenagem desprovida de causas formais e finais, mas tão afinada em suas causas eficiente e material que seria totalmente autocontido, e capaz de tornar-se progressivamente mais complexo pelo acaso e pela seleção. É exatamente esta noção muito forte de que o papel de Deus na inteligibilidade do universo limita-se a ter tido a brilhante ideia de criá-lo assim, e nada mais, que São Tomás quer debater agora. Se a ideia consiste, como vimos no último artigo, na existência da forma para além da coisa, ou seja, na inteligência de Deus, a proposição controvertida aqui, para provocar o debate, é a de que não existem muitas ideias, ou seja, há apenas pouquíssimas, senão apenas uma, noção sobre o universo na mente de Deus.
É claro que São Tomás não conhece o cientificismo tal como o conhecemos hoje, nem as teorias evolucionistas ou fisicistas da natureza, mas seu debate oferece alguns insights que antecipam estas discussões a partir de fundamentos muito profundos, que merecem ser visitados ainda hoje; ou, talvez pudéssemos dizer, hoje ainda mais.
Em defesa da hipótese controvertida inicial, São Tomás nos oferecerá quatro argumentos objetores. Eles cobrem desde a questão da unidade divina, de suas relações com o universo e, por fim, da própria natureza plural das criaturas. O primeiro argumento parte da radical unidade de Deus: se em Deus a ideia identifica-se com a sua essência, então não podem existir muitas ideias em Deus, uma vez que ele tem uma única e simples essência. Portanto, o argumento conclui que em Deus haveria uma única e simples ideia.
O segundo argumento parte da noção de ideia como princípio do conhecimento e da ação. Ora, além da ideia, também a arte, que é o saber fazer, e a sabedoria, que é o conhecimento dos princípios mais profundos, são princípios de conhecimento e de ação. Mas, segundo o argumento, não há múltiplas artes nem múltipla sabedoria em Deus: a arte e a sabedoria de Deus são unas. Assim, também a ideia, como princípio de conhecimento e ação em Deus, deve ser una.
O terceiro argumento parte da noção de relação entre Deus criador, por um lado, e suas criaturas, por outro. Se existe pluralidade de ideias em Deus, ou seja, se em deus a ideia se multiplica pela relação de Deus com cada uma das criaturas, seria necessário pleitear que esta pluralidade existe desde a eternidade, porque Deus existe desde a eternidade e é imutável em si mesmo. Mas as criaturas, e principalmente a pluralidade das criaturas, existe no tempo e pelo tempo. Assim, o argumento defende que seria necessário concluir que a causa da multiplicação das ideias em eus seria a multiplicação das criaturas no tempo, e portanto, segundo o argumento, teríamos que admitir, neste caso, que o temporal causou a multiplicação no eterno, o que, para o argumento, seria uma conclusão absurda. Assim, o argumento conclui que não pode haver uma multiplicidade de ideias em Deus.
O quarto argumento também parte da natureza da relação entre Deus e suas criaturas. Esta relação é de difícil compreensão, porque Deus é eterno e imutável, e as criaturas, temporais e perecíveis. Desta dificuldade de conceber uma relação assim, o argumento constrói o seguinte raciocínio: não há dúvida de que, do lado das criaturas, há uma relação real com Deus. Mas do lado de Deus, esta relação pode ser:
1. Real, caso em que algo surge e perece em Deus conforme as criaturas existem e deixam de existir no tempo, ou
2. Somente de razão, conforme Deus permaneça imutável pela impermanência de suas criaturas, por um lado, mas estas estejam referidas a Deus pela criaturalidade, por outro.
Se a relação é somente de razão, significa que ela não chega a atingir ao próprio Deus realmente; ou seja, em Deus há apenas a sua essência una e simples, e a multiplicidade existe realmente apenas nas próprias criaturas, conforme surgem e perecem. É a hipótese deísta, que examinamos no parágrafo de introdução a este artigo, e que diz que a multiplicação das formas deve-se ao acaso ou aos fenômenos naturais que, embora conhecidos em suas leis gerais por Deus, geram resultados que não importam ao próprio Deus. E disto o argumento conclui que não há muitas ideias em Deus, se as relações dele com as criaturas forem apenas de razão.
E se as relações forem reais? neste caso, segundo o argumento, seria necessário pleitear que haveria uma pluralidade dentro da própria essência divina, com a multiplicação de relações; haveria tantas relações em deus quantas forem as criaturas. Mas isto viola o dogma da Trindade, que diz que, em Deus, as relações formam as pessoas da Trindade. Se há múltiplas relações reais na própria essência de Deus, então haveria múltiplas pessoas nele, e não apenas uma Trindade. E, por isto, segundo o argumento, não se pode admitir esta pluralidade, e consequentemente, ainda segundo este argumento, não se pode admitir que há muitas ideias em Deus.
Como argumento sed contra, São Tomás resgatará santo Agostinho que, como se sabe, tem grande influência platônica em sua própria teologia. (Aliás, a influência platônica atravessa grande parte da teologia patrística mais elaborada, e grande parte deste debate sobre ideias passa pela assimilação desta teologia à grande síntese teológica cristã da patrística). Segundo Santo Agostinho, as ideias são como que as formas primeiras, ou razões permanentes e imutáveis das próprias coisas. As ideias, tais como estão na inteligência divina, não são formadas, nem mudam. São sempre as mesmas; e, embora não tenham início nem final, dizemos que é por elas que se forma tudo o que pode iniciar e findar, e tudo o que de fato inicia e finda.
A partir destes argumentos, São Tomás iniciará a sua resposta sintetizadora. Que veremos no próximo texto.
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