Todos nós conhecemos a concepção filosófica de Platão: ele entendia que existia uma espécie de “mundo transcendente das ideias” onde o protótipo de cada coisa tinha uma existência mais real do que as coisas materiais que existem em nosso mundo. Seu discípulo mais famoso, Aristóteles, negava a existência dessa noção de um mundo transcendental das ideias, e afirmava simplesmente que as ideias são extraídas pela nossa inteligência, por abstração, a partir do contato com as coisas individuais que vamos conhecendo ao longo da vida.
A filosofia cristã tende a fazer uma espécie de “síntese” entre Platão e Aristóteles; o “mundo transcendental das ideias” é a própria mente de Deus, e é origem e fonte da cognoscibilidade das coisas para nós. Deste modo, a inteligência divina seria a fonte das ideias, e a nossa razão seria capaz de conhecê-las pela inteligibilidade que a mente divina as proporciona. É nesta questão 15 que São Tomás demonstrará esta síntese maravilhosa, apontada pelo Evangelho de São João, 1, 1, e preparada pela síntese agostiniana.
Na questão 14, houve um debate profundo sobre a inteligência divina como fonte de inteligibilidade do mundo. A presente questão fará uma espécie de correlação entre esta inteligência maravilhosa, onisciente, e a concepção platônica da transcendência e anterioridade das ideias com relação ao mundo empírico. E explicará, de acréscimo, como se dá o nosso próprio conhecimento das formas por abstração, no modelo aristotélico. Trata-se, portanto, de uma questão em que o instrumental da filosofia platônica e aristotélica é utilizado para aprofundar as questões teológicas que São Tomás quer debater. Questão muito importante, portanto.
A hipótese controvertida é de que as ideias não existem, ou seja, que elas não têm realidade ontológica. De certo modo, esta é a velha questão dos universais, que muitos ainda hoje defendem ser a grande questão da filosofia medieval. O que são estes universais, estes entes, existentes ou de razão, que têm poder explicativo sobre toda uma categoria de coisas? Será que eles sequer existem? Será que precisam ser postulados? Não é menos do que este o debate que São Tomás propõe aqui, condensado neste pequeno artigo.
Ele apresentará três argumentos objetores em defesa da sua hipótese controvertida inicial. O primeiro argumento parte da função da ideia no processo de conhecimento; a ideia, na noção clássica, é o fundamento do conhecimento. Nós somos capazes de conhecer, diziam os antigos, porque as ideias existem: ou num reino transcendente platônico, que seria mais real que nosso mundo e que forneceria ao nosso mundo a cognoscibilidade que ele tem, ou mesmo pelo compartilhamento empírico das formas, capazes de nos levar, por abstração, ao conhecimento dos universais, como defendia Aristóteles. Em todo caso, qualquer conhecimento humano, no sentido realista do termo, pressupõe a universalidade da ideia. Este primeiro argumento traz, então, uma citação do [pseudo-] Dionísio, de que Deus não conhece por meio de ideias. Ora, desta afirmação o argumento conclui que não é necessário pleitear a existência de ideias para explicar a possibilidade de que haja conhecimento da natureza. Então as ideias, seguindo a linha deste argumento, não são uma realidade. Talvez sejam, na linha deste argumento, uma boa técnica humana para descrever ou intervir na natureza, mas não representam uma realidade em si mesma, que seja fundamento do conhecimento. Em suma, este argumento conclui que não se pode pleitear que haja ideias na mente de Deus.
O segundo argumento parte mais uma vez do modo divino de conhecer; ele lembra que Deus conhece todas as coisas em si mesmo, conforme foi debatido na questão anterior. Mas o conhecimento que Deus tem de si mesmo não se dá por meio de uma ideia. Logo, segundo o argumento, a ideia não explica o conhecimento divino, e portanto o argumento conclui que é desnecessário – e portanto incongruente – imaginar que a ideia exista como uma realidade na mente divina.
O terceiro argumento parte da noção de ideia como princípio de conhecimento e ação. Se a ideia é isto, diz o argumento, então ela não pode existir em Deus. Em Deus, o princípio de conhecimento e de ação é sempre a própria essência divina. Pleitear, portanto, que haja ideias em Deus seria, para este argumento, pleitear que há em Deus um princípio de conhecimento e ação independente da sua própria essência, o que seria absurdo; seria, para este argumento, imaginar que as ideias seriam, de certo modo, mais divinas do que Deus, já que funcionam como princípio de conhecimento e ação para ele. Deste raciocínio o argumento conclui que não se pode pleitear a existência das ideias em Deus.
Como argumento sed contra, São Tomás aduz uma citação de Santo Agostinho, que conhecia o platonismo muito bem, e de certo modo utilizou o instrumental platônico na sua própria teologia. Santo agostinho dizia que há tanto poder nas ideias que sem elas não há sabedoria possível.
São Tomás passará a nos apresentar, agora, sua resposta sintetizadora. E começa logo afirmando que é necessário admitir que há ideias na inteligência divina. E nos explica, pacientemente, que a palavra ideia, de origem grega, é traduzida, em latim, por “forma”. Ideia e forma são, portanto, sinônimos. Segundo São Tomás, a palavra ideia designa a própria forma das coisas, como existe para além da própria coisa. E neste sentido a ideia teria duas funções:
1. A ideia é causa exemplar da coisa, ou seja, é modelo daquilo que se diz que tem a respectiva forma.
2. A ideia é o princípio de conhecimento daquela forma, na medida que “conhecer” significa ter em si a mesma forma da coisa conhecida, mas fora da coisa, intencionalmente. Esta noção de “forma fora da coisa” corresponde exatamente ao conceito de ideia que São Tomás acabou de trazer.
E o que é exatamente uma forma, e por que é necessário pleitear sua existência, filosoficamente, segundo São Tomás? Porque o conhecimento de tudo o que existe passa pela compreensão de suas causas. A menos que nos contentemos em admitir que tudo é fruto do acaso (e o acaso, a rigor, não é uma causa, mas a falta delas), é necessário admitir uma causa formal, ou seja, a ideia, que nada mais é do que a forma da coisa para além da coisa; esta forma é causa final do agente eficiente e a própria estrutura da coisa que se está conhecendo. Para ser causa final para a causa eficiente, a ideia pode relacionar-se com o agente eficiente de duas maneiras:
1. A forma preexiste em seu ser natural, no caso dos seres que agem por natureza, como é o caso do fogo que gera fogo, ou do animal que gera outro animal. Neste caso, não se fala exatamente de uma ideia que existe na mente da causa eficiente, porque trata-se da geração de uma forma que está naturalmente nele.
2. A forma preexiste na mente do agente; é o caso do agente inteligente, que é causa eficiente daquilo que não é naturalmente igual a si mesmo pela forma. Neste caso, a forma preexiste no agente como uma ideia no seu intelecto, que é causa exemplar daquilo que o agente faz. É o caso da ideia de casa que está na mente do arquiteto antes que a própria casa seja construída; neste caso, o agir do arquiteto tem por fim que a casa produzida assimile a forma que preexiste como ideia na mente do construtor. Esta forma da casa, que preexiste na mente do arquiteto, e que constitui a forma da casa efetivamente construída, é o que propriamente se pode chamar de ideia.
Neste ponto, São Tomás insere a noção de que o mundo não é feito por acaso: carrega em si a marca da inteligência divina, que o concebeu. O mundo é inteligível, porque foi criado de modo inteligente. E a forma que origina o mundo, que dirige a inteligência divina em sua atividade criadora, preexiste na mente divina, e é causa exemplar do mundo. Esta forma da criação, preexistente na mente divina, constitui exatamente o que São Tomás chama de ideia.
Note-se, portanto, o realismo tomista, que tem como fundamento da universalidade dos conceitos a sua preexistência na mente divina. Neste sentido, a ciência humana consiste em desvendar a inteligibilidade da criação, preexistente em Deus; há algo de divino na ciência humana. A natureza é um livro escrito por deus para ser desvendado por nós. Mas é um livro aberto; a atividade humana completa a criação, inserindo nela os fins que o ser humano vislumbra como necessários e suficientes na sua caminhada livre de volta a Deus. A ciência, portanto, não apenas compreende e conhece os fins divinos; também constrói livremente os fins humanos, de modo a completar a obra da criação e encaminhar tudo a Deus.
A perda destas noções tornou sem sentido a atividade de conhecer, hoje em dia. Não há mais a noção de que a inteligibilidade preexiste à investigação humana da natureza; há apenas uma natureza sem sentido, sem inteligibilidade intrínseca, que o ser humano examina e submete, valendo-se dos mecanismos que encontra para fazê-los trabalhar em seu favor. Isto favoreceu ao domínio tecnológico da natureza, por um lado; mas também causou toda a destruição e o desequilíbrio de uma natureza violada, torturada e submetida aos caprichos e à ambição humana. Talvez o retorno à noção de que a natureza tem uma lógica intrínseca que deve ser respeitada sob pena de levar-nos ao desastre ambiental seja um retorno, enriquecido, à antiga visão de um mundo que, ao mesmo tempo, tem uma lógica interna e, ao mesmo tempo, é um dom aberto ao ser humano. São Tomás pode ter algo a nos ensinar neste caminho.
São Tomás passa a responder, agora, às objeções iniciais. A primeira objeção diz que, uma vez que Deus não conhece as coisas por meio das ideias, elas não existem em si mesmas, como uma realidade em Deus. São Tomás diz que a objeção erra o ponto: de fato, as ideias não são uma realidade metafísica externa ao próprio Deus, que permitisse que, em contato com elas, ele conhecesse o mundo, tal como pensava Platão. As ideias existem sempre e somente num intelecto, como intuiu Aristóteles. Assim, são as coisas que ganham a sua inteligibilidade a partir das ideias existentes em Deus, e não o contrário.
A segunda objeção diz que Deus conhece todas as coisas em si mesmo, contemplando sua essência; mas não conhece sua essência por uma ideia. E desta premissa o argumento conclui que Deus não conhece as coisas por ideias. São Tomás responderá que Deus não cria a si mesmo. Logo, não se poderia pleitear que Deus tem ideia de si mesmo, porque não é princípio operativo de sua própria existência. Mas ele é princípio operativo de toda a criação; logo, o modo como a criação preexiste em seu intelecto tem caráter de ideia.
A terceira objeção nega que haja ideias em Deus porque, segundo o argumento, admiti-las seria admitir que elas são o princípio do conhecimento e da ação em Deus, quando se sabe que, dada a simplicidade divina, o princípio do conhecimento e da ação de Deus é a sua própria essência. São Tomás responde simplesmente que Deus, por sua essência mesma, é similitude de todas as coisas criadas. Assim, em deus, as ideias não diferem da sua essência mesma.
E assim, de certa forma, integraram-se Platão e Aristóteles na teologia tomista, explicou-se a inteligibilidade do mundo e colocou-se Deus como centro, princípio e fim de tudo o que existe. Isto não é pouco. Mas o debate ainda não está encerrado. Veremos nos próximos artigos os seguintes debates: Se há muitas ideias em Deus, e se há, em Deus, ideias de tudo o que ele conhece.
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