Aquilo que São Tomás chama de “ciência” é um pouco diferente daquilo que hoje em dia designamos pelo mesmo nome. Hoje, consideramos como ciência apenas aquele conhecimento que implica algum grau de previsibilidade e controle sobre o fenômeno observado. Toda ciência, para nós, tem uma dimensão prática, ou seja, envolve uma pretensão de domínio sobre o respectivo objeto. E mais, desconfiamos e duvidamos de qualquer alegação de que há, ou pode haver, um conhecimento contemplativo, desinteressado, sobre alguma coisa. É por isto que, contemporaneamente, dificilmente alguém aceitará admitir que a teologia possa ser considerada como “científica”; qual a possibilidade de colocar Deus como objeto de conhecimento dominável? E se por definição Deus é um ser que não se pode dominar ou controlar, então por definição ele seria um objeto inadequado para qualquer conhecimento científico. E com isto está negada a possibilidade de sequer propor uma conciliação entre fé e razão (razão entendida aqui como pensamento científico).

Não era assim na tradição aristotélica, não era assim no pensamento escolástico, não é assim que São Tomás enxerga a ciência. Neste artigo, ele nos dará uma apresentação resumida, mas muito interessante, sobre a sua própria visão a respeito da concepção clássica de ciência. Mas o objeto deste artigo não é exatamente a conciliação da fé com a razão, mas a discussão sobre a natureza do conhecimento que o próprio Deus tem. Aqui, Deus não está como objeto das nossas especulações. Trata-se de debater as especulações do próprio Deus. Qual a natureza do conhecimento divino? Será que Deus pode ter conhecimento contemplativo, ou seu conhecimento é sempre prático? A ciência divina consiste sempre em dominar seu objeto e ser capaz de produzi-lo? Ou há nele algum conhecimento que não se volte para o fazer, mas apenas para o contemplar? A hipótese inicial proposta por São Tomás será a de que não há em Deus nenhum conhecimento de natureza simplesmente contemplativa, ou especulativa. A hipótese é a de que Deus não conheceria nada em teoria. Em Deus haveria apenas conhecimento do tipo prático, porque, como causa primeira de tudo o que há, em Deus saber é causar. Esta é a hipótese controvertida inicial: parece que não há ciência especulativa em Deus.

Há aqui apenas dois argumentos objetores iniciais, e um argumento sed contra. Este, aliás, é um daqueles artigos em que São Tomás não responderá apenas às objeções iniciais, mas ao argumento sed contra também, ao final.

O primeiro argumento objetor lembra que o conhecimento de Deus é a causa das coisas. Mas o conhecimento que tem por finalidade causar não pode ser classificado como teorético, contemplativo ou especulativo, mas como prático no sentido próprio do termo. E deste fato o argumento conclui que não há conhecimento especulativo em Deus.

O segundo argumento parte da maneira pela qual os seres humanos chegam ao conhecimento especulativo: pela abstração. Conhecemos o concreto, em seguida abstraímos as suas formas das condições materiais com que elas nos foram entregues e chegamos ao conhecimento abstrato, especulativo. Mas Deus não passa por este processo de conhecimento pela via da abstração. Deste fato, o argumento conclui que Deus não possui conhecimentos especulativos.

O argumento sed contra parte de um princípio teológico, que será devidamente sopesado por São Tomás nas respostas específicas, após a resposta sintetizadora. O princípio teológico é: “devemos sempre atribuir a Deus aquilo que há de mais nobre”. Se o que há de mais nobre, em termos de conhecimento, é o conhecimento contemplativo, como se vê das obras de Aristóteles, então o argumento conclui que todo o conhecimento de Deus é contemplativo, ou especulativo.

Na sua resposta sintetizadora, São Tomás nos dá uma aula de epistemologia, ou teoria do conhecimento, assim como ele a concebia.

Ele concebe, então, três tipos de ciência:

1. A ciência especulativa, contemplativa ou estritamente teorética, que ele considera a mais nobre e alta. Esta tem por objeto o puro conhecimento das coisas que há; não é um saber para fazer, para dominar ou controlar de qualquer modo, mas apenas um saber contemplativo, daquilo que nos interpela e que se dá à nossa inteligência.

2. A ciência prática, um saber que tem por fim o fazer.

3. A ciência que tem uma dimensão especulativa e uma dimensão prática.

A ciência especulativa, por seu lado, pode ser dividida em três modos:

1. A ciência teorética ou especulativa em sentido próprio, e em razão da coisa conhecida: é aquele conhecimento que diz respeito às coisas que não são realizáveis de nenhum modo por aquele que o possui ou adquire. É, segundo Tomás, o conhecimento que o ser humano tem das coisas naturais, ou das coisas divinas. Este conhecimento não visa a utilidade de quem o possui, mas o seu aperfeiçoamento existencial. A nossa contemporaneidade nega qualquer valor científico a este tipo de conhecimento desinteressado, que hoje em dia nós classificamos, com certo desprezo, como “conhecimento metafísico” ou “teológico”. Para nós, hoje, só tem valor aquele conhecimento que nos proporciona algum poder sobre o seu objeto, no sentido de possibilitar que ele possa de algum modo ser usado em nosso favor. Mas para São Tomás, o puro conhecimento especulativo não visa o poder, mas o conhecer mesmo.

2. O conhecimento que é teorético ou especulativo quanto à maneira de conhecer, mesmo que verse sobre coisas que não estão fora da possibilidade do fazer humano. É quando, por exemplo, alguém estuda uma casa projetada por um grande arquiteto, apenas pelo valor artístico ou cultural que aquela casa tem, e não para refazê-la ou restaurá-la.

3. O conhecimento especulativo quanto ao fim; aqui, há um estudo que envolve mesmo a possibilidade concreta de fazer, embora se encaminhe mais ao domínio da prática do que propriamente à confecção da coisa. Há, aqui, um cruzamento entre o intelecto especulativo e o intelecto prático. É o que se dá quando, por exemplo, o engenheiro simula a elaboração de um projeto para fins didáticos e pedagógicos, numa sala de aula, mas não tem a intenção de construir a coisa projetada. Neste caso, quanto ao fim, trata-se de um conhecimento especulativo, embora, quanto ao conteúdo, refira-se a um saber eminentemente prático.

No caso do item 01, ou seja, do conhecimento contemplativo daquilo cujo ser está completamente fora da possibilidade prática do conhecedor, trata-se de um conhecimento puramente especulativo. Nos outros dois casos, há uma dimensão especulativa e uma dimensão prática profundamente entremeadas, que se distinguem conforme o conhecimento se dirija à contemplação ou à execução do seu objeto. Mas se o conhecimento, por fim, está ordenado ao fim de produzir o objeto, fala-se num conhecimento prático em sentido estrito.

Desta classificação toda, São Tomás conclui que Deus tem, de si mesmo, um conhecimento especulativo. Porque Deus, sendo o motor imóvel e a primeira causa, não tem causas, sendo próprio da sua essência o de ser incausado. Deus não é causa de si próprio, não é causa sui (como pensaram Espinosa e seus discípulos). Se, portanto, Deus é incausado, ou seja, ele não foi causado nem por si mesmo, então o conhecimento que Deus tem de si mesmo é estritamente contemplativo. Se ele não pode fazer-se, então não pode ter conhecimento prático de si mesmo.

Quanto aos outros seres, Deus tem perfeito conhecimento especulativo e prático. Tem conhecimento especulativo quanto ao modo de conhecer (item 2 acima), porque vê tudo na própria essência, e as conhece perfeitamente, muito mais perfeitamente do que qualquer um de nós jamais as conhecerá. Na verdade, seu conhecimento contemplativo é sempre uma concepção, perfeita e completa.

É claro que Deus tem um conhecimento especulativo, quanto ao fim (item 3 da classificação acima), daquilo que, embora seja concebível, jamais será efetivamente realizado, porque ele escolheu nunca realizar. E tem conhecimento prático em sentido estrito daquilo que é efetivamente realizado como criação.

E quanto ao mal? O mal não é um ser, mas pode ser um feito, um acontecimento; ou seja, usando uma terminologia filosófica um pouco mais moderna, um fenômeno. Do qual Deus não é causa, nem direta, nem indireta. Mas se ele não faz o mal, como podemos dizer que Deus tenha um conhecimento prático do mal?

De fato, Deus não é causa, nem direta, nem indireta, do mal. Mas ele se relaciona com o mal, quer permitindo-o, quer impedindo-o, quer ordenando-o, de modo que, do mal ocorrido, Deus possa tirar sempre um bem maior. E São Tomás faz uma analogia com o conhecimento prático que o médico tem da doença: ele não é causa da doença, mas tem sobre ela um conhecimento prático capaz de permitir que ele trate dos seus pacientes nos quais a doença se manifesta. É uma bela metáfora para o conhecimento prático que Deus tem do mal.

Agora São Tomás passará a responder aos argumentos iniciais. O primeiro argumento é o que nega a noção de que Deus pode ter algum conhecimento simplesmente especulativo, pela constatação de que o conhecimento de Deus sempre tem natureza causal. São Tomás vai recolocar as coisas nos devidos lugares; o conhecimento de Deus tem, de fato, natureza causal, mas não de si mesmo. E, com relação às criaturas, há aquelas que são, de fato, causados efetivamente para serem, e aquelas que nunca serão, porque não foram eleitas por ele para que venham a ser. Portanto, o conhecimento de Deus não se esgota na dimensão estritamente prática.

O segundo argumento nega que Deus possa ter conhecimento especulativo das coisas, porque considera que o conhecimento especulativo sempre nasce da abstração. São Tomás diz que o processo de abstração, que resulta no conhecimento especulativo, diz respeito apenas e tão somente à inteligência humana, não à inteligência divina. Deus não conhece através de um processo de aprendizagem por abstração; aliás, Deus não conhece através de nenhum processo de aprendizagem; ele simplesmente sabe. Assim, negar que Deus tenha conhecimento especulativo sob o fundamento de que o processo de abstração não se aplica a ele é uma conclusão indevida.

São Tomás responderá, agora, ao argumento sed contra, que esticou demais a corda ao afirmar que, uma vez que o conhecimento especulativo é mais nobre do que o conhecimento prático – na concepção aristotélica – então o conhecimento especulativo seria mais adequado a Deus. Parece que esta objeção sed contra deixou o conhecimento prático abaixo da dignidade divina. Por isto, merecerá uma resposta retificadora de São Tomás.

Ele começa dizendo que aquele que conhece perfeitamente uma coisa realizável, tem necessariamente que saber que elas são realizáveis; ignorar este aspecto sobre elas é deixar de conhecer tudo o que há para conhecer sobre elas. Portanto, uma vez que o conhecimento divino é perfeito, ele não pode deixar de saber que as coisas por ele realizáveis são realmente factíveis, nem de saber exatamente como elas são factíveis.

Por outro lado, ao conhecer-se, Deus tem de si mesmo um conhecimento estritamente contemplativo, teórico e especulativo, porque não pode fazer-se; seu ser não tem causas, Deus não se faz. Ele simplesmente é.

Não podemos esquecer, agora, que é contemplando a sua própria essência que Deus conhece todas as coisas que são, que há de ser ou que já foram. Portanto, mesmo o conhecimento prático de Deus tem uma dimensão especulativa primordial, que consiste em conhecer tudo pela contemplação de si mesmo. E uma dimensão prática primordial – a de ser capaz de criar, do nada, tudo aquilo que ele concebeu e quis que existisse. Eis que o conhecimento divino é essencialmente especulativo sem perder em nada sua perfeição prática.

Acabamos a questão 14.