Já afirmei anteriormente que uma noção interessantíssima que São Tomás nos traz é a de que Deus não aprende; ele já sabe, de modo perfeito, completo e cabal, simultaneamente e desde a eternidade, tudo o que há para saber. E seu saber não é causado, mas causa das criaturas. O conhecimento de Deus, portanto, não sofre variação: o que Deus sabe, ele sabe desde sempre e completamente. Deus não aprende nada. Deus não esquece nada.
Mas e quanto às coisas que variam com o tempo? Já discutimos em outras questões, seguindo os debates propostos por São Tomás, que Deus relaciona-se verdadeiramente com as suas criaturas, e estas relações podem mudar, junto com a mudança criatural; assim, se digo que “Deus é o meu Senhor”, falo obviamente de um senhorio que não podia existir antes que eu fosse concebido no seio de minha mãe. Mas fui eu quem mudou: Deus continua sempre o mesmo. Do mesmo modo que posso estar à direita de uma montanha, e em seguida caminhar para a esquerda da mesma montanha, sem que a própria montanha mude de lugar.
Aqui, o debate, relacionado a estes aspectos da relação entre Deus e sua criação, é muito interessante: como fica o conhecimento que Deus tem das criaturas, quando as próprias criaturas mudam? Muda também o conhecimento que Deus tem delas?
Esta é a hipótese que São Tomás nos propõe para debater a questão. Parece que os conhecimentos de Deus mudam. E ele nos trará três argumentos objetores, em defesa da hipótese controvertida inicial. O primeiro argumento trata exatamente daquilo que dissemos acima: quando falamos da relação entre Deus e as criaturas, falamos de uma relação verdadeira, e que, portanto, pode variar com a mudança na criatura. Deste fato, o argumento conclui que as mudanças na criatura provocam mudanças no conhecimento que Deus tem delas, e que, portanto, o conhecimento de Deus é mutável.
O segundo argumento vem da distinção entre a ciência de Deus e o poder de Deus. Em artigos anteriores, já vimos que o conhecimento de Deus é causa das coisas quando associado à sua vontade de que elas existam: é a chamada “ciência de visão”, com a qual Deus vê aquilo que ele quer que exista, Mas Deus também tem um conhecimento de natureza intelectual, daquilo que, embora não seja contraditório em si mesmo, não está em sua vontade que exista. O argumento estabelece então, a partir desta constatação, o seguinte raciocínio: Deus pode saber muitas coisas, e pode fazer muitas coisas. Ele pode fazer mais coisas do que ele faz; desta afirmação, o argumento conclui que ele pode saber mais coisas do que ele sabe. E afirma, portanto, que o conhecimento de Deus pode aumentar ou diminuir.
O terceiro argumento decorre de uma discussão teológica já antiga nos dias de São Tomás: a relação entre a imutabilidade da fé e a sua expressão histórica. E o argumento segue nesta linha; parte do fato histórico do nascimento de Cristo, em relação com o conhecimento de Deus. Deus soube, diz o argumento, que Jesus Cristo nasceria. Mas agora já não tem algum conhecimento de que Jesus nascerá, porque Jesus já nasceu, e já não nascerá mais. Portanto, algum conhecimento que Deus tinha ele já não tem, e portanto o conhecimento de Deus é mutável, conclui o argumento.
Como argumento sed contra, São Tomás nos traz uma citação bíblica. Carta de São Tiago, 1, 17: “no qual [Deus] não há mudança nem sombra de variação”. Há, portanto, a revelação da imutabilidade de Deus.
E é nesta linha que vai a resposta sintetizadora, brevíssima aliás, de São Tomás. Se em Deus o conhecimento é idêntico com a sua substância, como foi debatido em artigos anteriores, é necessário postular que seu conhecimento é invariável. O conhecimento de Deus não muda, embora mudem as coisas que ele conhece. E a maneira pela qual podemos compreender isto ficará clara na medida que São Tomás responde aos argumentos objetores iniciais.
É o que ele fará agora. A primeira objeção parte do fato de que Deus tem uma relação real com as criaturas, e que esta relação muda quando as criaturas mudam. Deste fato, o argumento quer concluir que o conhecimento que Deus tem sobre as criaturas também muda quando as criaturas mudam.
São Tomás nos brindará com mais uma daquelas suas distinções maravilhosas, que iluminam a resposta. Ele faz uma distinção entre as relações que Deus tem 1. Com as criaturas em si mesmas, pela sua criaturalidade, por um lado, e 2. A relação que ele tem com as criaturas segundo o que elas são em Deus, ou seja, no seu intelecto divino.
No caso das relações que têm seu termo nas criaturas, estas relações mudam quando a criatura muda. Assim, quando chamo Deus de “Senhor” e “criador”, é muito claro que ele é o meu “Senhor” e “criador” na medida que eu sou criado e existo. Deus não pode ser chamado de “Senhor”, em sentido próprio, de criaturas que ainda não existem, ou que já não existem mais. Isto porque os atos de criação e de senhorio exercem-se sobre aquilo que efetivamente existe, pela sua existência, e consistem na própria existência e na providência sobre estas coisas. São atos, pois, que dirigem-se às coisas, e nelas têm seu termo. Mas o ato de conhecer não é assim; ele diz respeito às criaturas, porque trata-se de conhecê-las. Mas este ato tem seu termo em Deus, na própria substância perfeita e imutável de Deus. Não se pode, portanto, imaginar que o conhecimento de Deus muda quando as criaturas mudam; na verdade, tendo conhecimento prévio, perfeito e simultâneo das coisas, ele as conhece imutavelmente como coisas mutáveis antes mesmo que elas existam. As coisas mudam. Deus conhece estas coisas, e sua mudança, de modo perfeito e imutável.
O segundo argumento parte da noção de que Deus pode fazer mais coisas do que as que efetivamente faz; portanto, pode conhecer mais coisas do que efetivamente conhece. São Tomás responde que Deus conhece perfeitamente o que fez e o que poderia fazer e não fez; não há paralelismo, portanto, entre o poder de Deus, que implica uma abertura para o “sempre mais”, por um lado, e o conhecimento de Deus, que é perfeito, completo e imutável, por outro. Não há paralelo entre afirmar que Deus pode fazer mais do que aquilo que efetivamente faz, por um lado, e afirmar erroneamente que Deus pode saber mais do que efetivamente sabe, por outro. O poder de Deus exerce-se de forma pessoal, livre, deliberada e inteligente. Por isto, sempre há espaço, digamos assim, para que Deus escolha o que fará e o que não fará, dentre aquelas coisas que não implicam contradição. Mas o saber de Deus existe de forma plena e perfeita desde sempre, não é perfectível nem sujeito a falha. Deus conhece a mutabilidade das coisas de forma imutável, dirá elegantemente São Tomás. O conhecimento de Deus é causa de tudo o que existe, como já vimos. Se admitíssemos que Deus pudesse aprender ao deparar-se com alguma coisa que antes não existia e que ele não conhecia, teríamos que imaginar que esta coisa teria uma outra origem que não o próprio Deus, e portanto Deus não seria único e perfeito como Senhor e Criador. Portanto, se admitíssemos que Deus pudesse vir a saber mais do que sabe, admitiríamos, em suma, que ele não é Deus, ou que há outra fonte de existência fora dele – o que não é imaginável, como já vimos nos debates que estamos fazendo todo este tempo.
O terceiro argumento é aquele que usa a historicidade dos acontecimentos revelatórios para negar a imutabilidade dos conhecimentos em Deus. É um argumento, diríamos hoje, quase que hegeliano. É interessante ver como estas discussões que se põem na contemporaneidade são mais antigas do que imaginamos. O argumento diz que Deus um dia soube que Jesus nasceria, mas uma vez que Jesus já nasceu e não nascerá mais, Deus não pode mais saber que Jesus nascerá. E conclui que o conhecimento de Deus é mutável.
Esta discussão era feita pelos teólogos e filósofos, diríamos hoje, de matiz idealista, com sua propensão para confundir a existência com a lógica ou com a dialética. São Tomás os chama de “antiqui Nominales”, o que nos sinaliza que eles já existiam muito tempo antes do próprio São Tomás.
O problema envolvia, é claro, a questão da historicidade da fé; Por exemplo, se admitirmos que Abraão tinha fé, isto significa que de algum modo ele tinha que acreditar que Jesus nasceria e morreria para nos salvar; mas isto ainda não tinha ocorrido no tempo de Abraão. Desta constatação, alguns teólogos (estes que São Tomás chama de “antiqui Nominales”) afirmavam que o nascimento de Jesus, quando expresso no passado, no presente ou no futuro, expressam a mesma realidade idêntica e imutável; ou seja, dizer “Cristo nasce”, ou “Cristo nascerá”, ou “Cristo nasceu” é no fundo dizer a mesma coisa, enunciar o nascimento de Cristo como marco atemporal de salvação. Assim, saber que Cristo nasceu é saber que Cristo nasce e nascerá, para estes “Nominales”. E, portanto, a mudança temporal não tem nenhum significado, e não pode expressar uma mudança real de conhecimento em Deus. É uma solução fascinante – e falsa, como São Tomás nos explica.
Ele vai usar o seu referencial aristotélico para nos explicar que a diversidade dos elementos da oração exprime realmente a diversidade das realidades a que ela se refere, e é isto o que possibilitar distinguir os juízos como falsos ou verdadeiros. Se, por exemplo, enuncio que “Sócrates está sentado”, esta proposição será verdadeira quando Sócrates estiver sentado, e falsa se ele estiver de pé. Assim, a proposição “tudo o que Deus soube, ele sabe” é falsa se quer significar que o conhecimento de Deus quanto a futuros contingentes mudasse conforme os eventos contingentes mudassem. Deus, em seu conhecimento perfeito, conhece a contingência como contingência,, e portanto sabe quando um ser é ou deixa de ser. Deus conhece a história como história, de modo simultâneo e perfeito, sem que as mudanças históricas – que ele conhece de antemão e imutavelmente – representem uma mudança no próprio conhecer de Deus. Nosso conhecimento varia por cotejo com a realidade fática que o mede. Ora o que sabemos é verdadeiro, ora pode ser falso, conforme os acontecimentos históricos se sucedem. Mas Deus não aprende, nem raciocina; simplesmente sabe. E, como senhor da história, ele a conduz, e não é conduzido por ela. “Non duco ducor” (não sou conduzido, conduzo) é inadequado como mote da Cidade de São Paulo; mas é perfeito para Deus. Como Deus pode ser, a um só tempo, Senhor da história e criador da liberdade, onisciente, onipotente, coerente e amoroso, eis o grande mistério que conduz São Tomás ao longo da Suma. E nós nos deixamos conduzir por Tomás como um guia turístico experiente nestes assuntos. Mas lembrando sempre que a catedral da Suma só tem sentido porque fala de Deus. Ela não é um fim em si mesmo.
Mais uma vez, devemos lembrar que a imutabilidade do conhecimento divino não é estática. Ela é uma imutabilidade dinâmica: a perfeição de um ser vivo é viver; a imobilidade é o contrário disto.
Quando estiver tratando da Trindade, e mais especialmente de Jesus, São Tomás nos introduzirá ao mistério de um Deus humanado que aceita vir morar conosco e passa pelo processo humano de crescimento na graça e na sabedoria. Este estudo, que agora fazemos, sobre a perfeição do conhecimento de Deus não diminui o mistério de Jesus, na sua humanidade. Torna-o, na verdade, ainda mais fascinante.
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