Dentre as coisas que compõem o modo humano de conhecer estão os raciocínios. E os raciocínios expressam-se mediante enunciados, que são orações, compostas de sujeito e predicado. Na linguagem de São Tomás, portanto, “compor e dividir” significa afirmar ou negar alguma coisa de um sujeito, num enunciado. Se digo que “esta flor é vermelha”, componho o vermelho com a flor no meu enunciado, embora na vida real, empírica, não existe uma flor separada do vermelho ou um vermelho separado da flor, que seriam unidos por mim para resultar numa flor vermelha. Trata-se apenas de um modo muito humano de conhecer e afirmar coisas sobre a realidade. A discussão aqui é a de saber se este modo humano também se aplica a Deus. Trata-se, portanto, de saber se Deus, na sua forma de conhecer, raciocina. Ou melhor, se ele conhece e usa o modo discursivo de conhecer.

A hipótese, portanto, proposta por São Tomás é a de que Deus, uma vez que não conhece por raciocínios, nem sequer conhece o próprio método raciocinante de conhecer. A lógica, como humanamente formulada, seria, portanto, totalmente estranha a Deus; ele nem sequer teria conhecimento dela. A hipótese objetora que São Tomás propõe para iniciar o debate é: parece que Deus não conhece enunciados.

O primeiro argumento objetor vai ao ponto: formular enunciados é próprio da maneira humana de conhecer, porque expressa em conceitos, juízos e raciocínios o conhecimento que vai adquirindo pela experiência empírica e pelo uso da lógica. Trata-se, pois, de uma maneira complexa de conhecer, que implica composição no seu percurso – afirmar ou negar uma coisa de outra (ou compor e dividir, na linguagem escolástica). E o argumento prossegue: esta forma composta de conhecer é inadequada ao intelecto divino, por sua simplicidade. Portanto, o argumento conclui que Deus não conhece os enunciados. Para o argumento, pode-se afirmar simplesmente que Deus não faz discursos, nem se ocupa com lógica. Nem sequer se dá ao trabalho de conhecê-la.

O segundo argumento vai mais longe: não é que Deus simplesmente não se dê ao trabalho de conhecer a lógica, por considerá-la indigna de si e desimportante. É que, partido do princípio de que todo conhecimento se dá por semelhança, e da constatação de que Deus é, em si mesmo, a simplicidade plena, não haveria nenhuma semelhança entre Deus e os raciocínios lógicos que permitissem sequer que eles fossem, segundo o argumento, um objeto adequado ao conhecimento divino. Portanto, a lógica seria um objeto inadequado para o conhecimento divino. E portanto, segundo o argumento, Deus nem poderia conhecer os enunciados, conceitos, juízos e raciocínios próprios da maneira humana de conhecer e expressar o conhecimento.

O argumento sed contra traz uma citação bíblica para asseverar que Deus conhece os raciocínios humanos. É um versículo do Salmo 94 (93): “O Senhor conhece o pensamento do homem”. Mas se os enunciados são a forma própria do pensamento humano, o argumento conclui que há fundamento revelado suficiente para garantir que Deus conhece os enunciados.

São Tomás passará à sua resposta sintetizadora.

Ele fará, como sempre faz, uma bela distinção; de fato, há uma diferença entre 1. Conhecer a própria lógica, por um lado, e 2. Precisar dela para o processo de conhecimento, por outro. Deus conhece os raciocínios, as formulações lógicas e os respectivos enunciados, pelo simples fato de que Deus sabe tudo o que está em seu próprio poder e tudo o que está no poder de suas criaturas. Vale dizer, Deus sabe que aprendemos e conhecemos mediante enunciados e raciocínios lógicos, porque ele sabe tudo o que há para saber sobre nós. Mas ele não precisa dos enunciados e do raciocínio lógico para conhecer nada. Ele conhece tudo essencialmente e diretamente. Eu conhecimento é completamente simples e imaterial: pelo simples fato de conhecer essencialmente uma coisa, ele sabe tudo o que há para saber sobre ela num só e mesmo ato. Nosso conhecimento não é assim: nós caminhamos daquilo que sabemos e apreendemos para aquilo que não percebemos num primeiro momento, por meio de enunciados, formando conceitos, juízos e raciocínios. Mas se fôssemos capazes de, numa única intuição, conhecer tudo o que há para conhecer sobre a essência de alguma coisa, então no mesmo ato esgotaríamos todas as consequências deste conhecimento, e não precisaríamos de enunciados para “compor e dividir”. O conhecimento divino não se dá por raciocínio. A razão é própria do ser humano, de sua maneria material e limitada de conhecer. Deus não raciocina, ele intelige. Mas ele conhece, no seu ato simples e pleno de inteligir, todos os raciocínios que já formulamos e que podemos formular.

São Tomás passará a responder muito laconicamente às objeções iniciais. A primeira objeção diz que, uma vez que o conhecimento de Deus não se dá por “composição e divisão”, ou seja, por meio de raciocínios, como o conhecimento humano, então Deus não conhece os enunciados. São Tomás responde que, de fato, esta objeção teria razão de ser, se ela quer dizer que Deus não conhece os raciocínios como raciocínios, quer dizer, como meios de aprender e de expressar conhecimento. Mas ela vai longe demais, se pretende negar que Deus conhece os próprios enunciados que os seres humanos usam para este fim. Deus não precisa de enunciados e raciocínios. Mas conhece todos eles muito bem.

A segunda objeção diz que, ademais de desnecessária a Deus, a lógica, com seus raciocínios e enunciados, estaria, por natureza, além da capacidade de conhecimento de Deus, porque implica em si mesmo composição, e, uma vez que não há composição em Deus, não haveria semelhança nele capaz de permitir-lhe conhecer enunciados e raciocínios. São Tomás também responderá muito laconicamente: enunciados são sempre sobre alguma realidade; não há enunciado sem objeto. E os objetos, no fim das contas, sempre referem-se a coisas, seja na forma de coisas existentes realmente, seja na forma de entes de razão. Em qualquer caso, Deus tem em si mesmo a semelhança de tudo o que pode ser significado por qualquer enunciado. Não há, pois, contradição em imaginar que Deus possa conhecer, mesmo em tese, os enunciados.

Estamos numa das grandes salas desta maravilhosa catedral que é a Suma. Aliás, esta questão 14, (bem como as questões 12 e 13), são bem grandes, com muitos artigos e muitos debates interessantíssimos. Mas isto às vezes nos dá a sensação de prosseguir apenas lentamente e com dificuldade. Isto se dá porque a nossa própria percepção de tempo e de percurso é muito diferente daquela de São Tomás. O que torna para nós ainda mais difícil entender como ele pode ser tão produtivo, em seus parcos quarenta e sete anos de vida. Prodigioso.