No texto passado, estudamos a hipótese de São Tomás, que diz respeito à relação entre a contingência e o conhecimento de Deus. Como poderíamos imaginar que Deus soubesse de antemão sobre os futuros contingentes, e eles pudessem continuar contingentes? Como conciliar, por exemplo, a onisciência divina e a liberdade humana?
Vimos que a chave está na simultaneidade do conhecimento de Deus, que, ao conhecer tudo ao mesmo tempo e de modo presente, não altera, no entanto, o fato de que, no tempo, um determinado evento é contingente. Deus o conhece de maneira certa e atual, mas o conhece assim como ele é – como contingente, e portanto como resultado de causas livres e indeterminadas no tempo.
As objeções iniciais, como veremos, envolvem certa confusão entre o plano lógico e o plano existencial; entre conhecimento certo, por um lado, e acontecimento necessário, do outro. Em suma, eu sempre posso ter um conhecimento certo de alguma coisa contingente; por exemplo, quando se trata de um acontecimento que, embora contingente, deu-se no passado. Como posso ter um conhecimento limitado incerto, inseguro, sobre algum fato necessário, como, por exemplo, não sei como morreram todas as pessoas que viviam na terra há duzentos anos.
É preciso sempre distinguir, portanto, mesmo em Deus, a esfera do existencial, do ser, daquela esfera do saber. Distinguir sem separar – esta é a estrutura mais preciosa do conhecimento escolástico. Em suma, todo conhecimento, em Deus, é certíssimo, mesmo quando versa sobre coisas contingentes. Isto significa que não existe inadequação entre os fatos contingentes, como objeto de conhecimento, e o intelecto divino. É o que ficará muito claro nestas respostas.
A primeira objeção parte da seguinte afirmação: uma causa necessária produz um efeito necessário. Assim, aquilo que Deus conhece é sempre necessário quanto à ordem do ser, e as coisas contingentes seriam um objeto inadequado para o conhecimento divino. São Tomás responderá simplesmente com uma consideração que embute, no entanto, uma enorme complexidade e um enorme mistério, que é o próprio mistério da contingência, da liberdade das causas segundas e da indeterminação existencial do mundo criado. Ele diz: mesmo que a causa última seja necessária, o efeito em si pode ser contingente, por decorrer de uma causa próxima contingente. E ele nos dá um exemplo: a órbita da Terra em torno do sol é necessária, no sentido de que obedece a leis rígidas, e é suscetível de cálculo preciso. A luz do sol também está sujeita a leis de necessidade. Mas a germinação de uma semente que está exposta à luz do sol, embora tenha na própria luz do sol a sua causa talvez mais decisiva, está sujeita a outras causas talvez não tão decisivas, mas mais próximas e variáveis, que podem determinar que aquela semente determinada não venha a germinar. Vale dizer, o fato de que Deus é a causa primeira e absoluta de todo o existir, e que se conhece como causa primeira e, neste conhecimento, conhece todas as coisas que existem, não retira a verdadeira causalidade de tudo o que existe! São Tomás não é um ocasionalista. Na verdade, Deus conhece perfeitamente o que é contingente porque foi Deus quem deu a causalidade verdadeira às causas próximas que tornam contingente alguma coisa. A causa primeira que é a ciência de Deus, é necessária, o que não torna necessário aquilo que Deus, mesmo quis que fosse contingente, e como contingente é necessariamente conhecido por Deus.
A segunda objeção ainda trabalha com o fato de que, na mente divina, lógica e ontologia se encontram de alguma maneira. Segundo esta objeção, em qualquer proposição condicional, quando o antecedente é necessário o consequente também o será. E nos apresenta a seguinte proposição: “se Deus soube que algo haveria de ser, isso será”. Do fato de que o conhecimento de Deus é sempre verdadeiro, e de que o antecedente desta proposição está no passado, o argumento extrai a necessidade de que o consequente também seja. E destas premissas extrai a ideia de que tudo o que Deus conhece é necessário, e que portanto o que é contingente está fora da ciência divina.
São Tomás dará uma resposta um tanto alongada a esta premissa. Ele começa explicando a própria proposição trazida pelo argumento, e apresentando sobre ela duas análises:
1. Alguns afirmam que esta proposição não é necessária, mas contingente, já que, mesmo utilizando-se de verbo no passado no seu antecedente, diz respeito, no caso de futuros contingentes, a eventos futuros, e não ao próprio passado. Seria, pois, uma proposição contingente. São Tomás diz que esta análise está equivocada. De fato, uma afirmação que diz respeito ao futuro sempre e necessariamente diz respeito ao futuro, no plano lógico, mesmo que o futuro a que ela diz respeito venha a não realizar-se no plano existencial.
2. A segunda análise diz que, nesta proposição, o antecedente é contingente porque é composto de necessidade e contingência; portanto, ele não implica necessidade no consequente. São Tomás também explica que esta análise é equivocada. Quando alguém afirma que “Deus soube que este contingente haverá de ser”, a palavra “contingente”, aí, não está relacionada à estrutura lógica da proposição, mas à natureza existencial do objeto de conhecimento afirmado pela proposição. A palavra “contingente”, portanto, é elemento material, não formal, da proposição. Não descreve, portanto, a natureza da própria proposição, mas dos fatos a que ela se refere. Assim, se eu digo que “João é um extraterrestre”, o fato de que João não seja um extraterrestre não apaga o fato necessário de que é verdade que eu tenha dito que João é um extraterrestre.
Portanto, São Tomás conclui que esta proposição é verdadeira em sua necessidade, porque, de fato, se Deus soube que algo seria, isto será; mas isto não apaga o fato de que isto que Deus soube que seria, ele soube que seria como contingente, causado por causas contingentes. A ambiguidade, aí, se encontra na ideia de que o conhecimento de Deus pode, de qualquer maneira, constituir-se no tempo.
Isto nos leva à resposta à terceira objeção, aquela que diz que aquilo que sabemos que existe necessariamente é porque existe necessariamente, o que é mais verdade ainda com o conhecimento divino. São Tomás lembra de novo que o conhecimento divino não está sujeito ao tempo, e portanto, Deus tem, na sua eternidade plena de simultaneidade, conhecimento perfeito e necessários de que determinadas coisas ocorrem contingentemente, e seu conhecimento não tira a natureza contingencial da coisa, porque esta natureza se relaciona com as causas próximas e consistentes que a própria coisa tem, não com o conhecimento de Deus sobre ela.
Questão complexa, e importantíssima para distinguir o plano lógico do plano existencial, mesmo na mente de Deus.
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