Em que medida o fato de que Deus conhece tudo influencia em nossa liberdade? Será que Deus já sabe de antemão todas as decisões que tomaremos, os rumos que nossas ações terão, os acidentes e percalços que acontecerão conosco? Então nossa liberdade é um jogo de cartas marcadas?

Não é difícil imaginar que Deus sabe tudo sobre aquilo que ocorre necessariamente. Se solto uma pedra num lugar algo, Deus sabe de antemão que ela deve cair. Se a terra gira em torno do sol, Deus sabe de antemão que amanhã deve amanhecer de novo.

Mas e quanto às decisões que ainda nem tomei? A questão aqui diz respeito, pois, ao conhecimento que Deus tem daquilo que a escolástica chama de “futuros contingentes”, ou seja, daquilo que não necessariamente ocorrerá. Daquilo que depende de um ato de vontade, de liberdade, de alguém, para que ocorra.

Como conciliar a liberdade humana com a onisciência divina? Há quem simplesmente negue que Deus saiba o que ocorrerá em razão do exercício da liberdade humana, que é exatamente aquilo que escapa da necessidade. Vale dizer, talvez em nome da preservação da liberdade e da autonomia da criação, nega-se que Deus conheça os futuros contingentes.

E é exatamente esta a hipótese que São Tomás adotará aqui, para provocar o debate: parece que Deus não conhece de antemão os futuros contingentes. E apresentará três argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor parte de um princípio ontológico: a noção de que o conhecimento de Deus é causa primeira de tudo o que existe. Desta constatação, o argumento prossegue: causas necessárias produzem efeitos necessários. Assim, as coisas que Deus conhece seguem-se necessariamente ao seu conhecimento. Portanto, ele não pode ter conhecimento das coisas contingentes, senão elas deixariam de ser contingentes e se tornariam necessárias.

O segundo argumento tem um perfil mais lógico, e faz uma confusão entre a necessidade de um raciocínio e a necessidade das próprias coisas sobre as quais o raciocínio versa. Veja-se como é importante distinguir claramente a realidade da lógica, para evitar confusões como a deste argumento. O argumento parte de uma regra lógica: nas proposições condicionais, quando o antecedente é absolutamente necessário, o consequente também o será. E lembrando as lições de lógica aristotélica, o argumento diz que de princípios necessários somente podem decorrer conclusões necessárias. Neste ponto, o argumento propõe a seguinte proposição condicional: “se Deus soube que algo haverá de ser, isso será”; esta proposição, segundo o argumento, é verdadeira, pois o objeto do conhecimento de Deus é sempre e necessariamente verdadeiro. A primeira parte da proposição, diz o argumento, é necessária, por dois motivos: o conhecimento de Deus é eterno; e a premissa está no passado. E deste fato o argumento conclui que todo objeto de conhecimento de Deus é necessário; e que portanto o contingente não é objeto de conhecimento divino.

Por fim, o terceiro argumento faz uma analogia entre o nosso conhecimento verdadeiro e o de Deus. Se tudo o que nós conhecemos como existente necessariamente existe, e se o conhecimento de Deus é mais perfeito que o nosso, então tudo o que Deus conhece como existente deve existir necessariamente. E deste raciocínio o argumento conclui que Deus não tem conhecimento de coisas contingentes.

No argumento sed contra, São Tomás nos apresenta uma citação bíblica, do Salmo 33 (32), versículo 15, que diz que “[Deus] forma o coração de cada um e discerne todos os seus atos”, isto é, dos seres humanos. Mas as ações humanas são contingentes, porque temos o livre arbítrio. Portanto, há suporta na revelação para acreditar que Deus conhece os chamados “futuros contingentes”. A questão é discernir como este conhecimento se dá, e como se dá a relação entre o conhecimento divino dos futuros contingentes, por um lado, e a liberdade humana, pelo outro.

Na sua resposta sintetizadora, São Tomás nos lembra que em nossos debates anteriores nós já descobrimos que Deus conhece não somente aquilo que existe em ato, mas também tudo o que está em seu próprio poder ou no poder da criatura. Mas, devido ao fato de que temos livre arbítrio, aquilo que está em nosso poder envolve as coisas que chamamos de “futuros contingentes”, isto é, aquilo que pode ser de um jeito ou de outro conforme as escolhas que tomamos. Portanto, Deus conhece estas coisas também.

São Tomás nos dará, então, uma aula sobre futuro e causalidade, e sobre a forma com que nós, humanos, conhecemos aquilo que é contingente. São duas maneiras:

1. Quando ele se torna presente, e já não é futuro. Neste caso, além de já não ser futuro, ele já não é contingente. Tornou-se determinado, pelo fato de ter acontecido. Realmente, não faria sentido, por exemplo, que uma Lotérica aceitasse apostas para o sorteio da semana passada: os números da loteria são contingentes apenas enquanto são futuros. Quando são sorteados, tornam-se certos e imutáveis. E exatamente por isto podem ser objeto de conhecimento verdadeiro e certo. Eu posso saber, com certeza, quais os números que foram sorteados pela Loteria na semana passada. Mas qualquer um que alegue saber, com ciência certa, quais números serão sorteados na semana que vem é um louco ou um picareta. Enquanto não for determinado por uma das atualizações possíveis, os futuros contingentes permanecem contingentes. Mas, uma vez atualizados desta forma e não daquela, deixam de ser futuro contingente e passam a ser presente ou passado certo. Assim, quando olho, por exemplo, para Sócrates entrando em minha casa, sei que ele pode escolher sentar-se ou ficar de pé; mas uma vez que ele escolhe sentar-se, sentado está, e eu posso saber com segurança que ele está sentado, sem que isto altere o fato de que sentar-se foi uma escolha livre que ele adotou num determinado momento.

2. Enquanto ele existe apenas nas suas causas. Neste caso, ele pode ser objeto apenas de conhecimento especulativo. Realmente, enquanto existe apenas como possibilidade futura, ele permanece contingente, e ainda não determinado no ser, porque as causas daquilo que é futuro contingente podem atualizar-se de maneiras opostas. Assim, eu posso até saber que a loteria diz respeito ao sorteio de números, e não, digamos, de letras ou de cores. E posso até calcular, por análise combinatória e por conhecimento estatístico, quais números podem vir a combinar-se com maior chance no resultado, mas nunca saberei, com segurança, sobre o futuro contingente, pela falta de determinação que existe nas causas. Posso afirmar, com segurança, que daqui a duzentos anos nenhum de nós que vivemos na Terra hoje estará vivo; morrer, após um prazo mais ou menos longo, não é um futuro contingente, para o ser humano. Mas como e quando cada um de nós morrerá, isto é contingente.

De qual maneira, pois, Deus conhece os futuros contingentes? Das duas maneiras, dirá São Tomás. Ele não somente o conhece nas causas, como também conhece cada um deles cem si mesmo, como ato, ou seja, em sua determinação existencial.

Como isto pode acontecer? Mais uma vez nos deparamos com a questão da sucessividade, que é a forma com que nós, criaturas temporais, vivemos e conhecemos, e a simultaneidade, que é própria da existência divina. Assim, embora os contingentes aconteçam sucessivamente, para nós, eles estão presentes para Deus na simultaneidade de sua sapiência, e são vistos como ato por Deus. Tudo o que existe no tempo está presente para Deus sempre de maneira atual e simultânea; no entanto, embora Deus conheça em si todas as causas de maneira também completamente atual e perfeita, não por isto os futuros contingentes deixam de ser contingentes apenas porque sua atualização já é conhecida por Deus. Eles continuam contingentes quanto às suas causas temporais próximas, ou seja, continuam ocorrendo de maneira livre e indeterminada no tempo. Contudo, diante disto que São Tomás nos explicou, eu não desafiaria Deus para uma partida de pôquer. E duvido que alguma lotérica o aceitasse como apostador!

Neste ponto, São Tomás passa a responder às objeções iniciais. Que veremos no nosso próximo texto.