No texto anterior, vimos como São Tomás defende veementemente o conhecimento direto de deus sobre as coisas materiais na sua singularidade, afastando-se daqueles que queriam ver oposição entre Deus e a matéria.

São Tomás passa a enfrentar, agora, dois debates que existiam em seu tempo; para explicar como Deus podia conhecer as coisas singulares, por um lado, e mantê-lo a salvo de qualquer relação direta com a matéria, alguns pensadores do tempo de Tomás defenderam duas posições sobre a maneira pela qual Deus poderia conhecer as coisas singulares sem ter acesso a elas individualmente.:

1. Deus conhece o singular pelas causas universais. Deus conheceria todas as causas universais, e por isto teria todo o conhecimento sobre os singulares, sem precisar chegar propriamente até eles. O conhecimento de Deus sobre os singulares seria como o daquele astrônomo que é capaz de predizer todos os eclipses que ocorrerão nos próximos milênios, por conhecer todas as forças e movimentos do céu, sem, no entanto, haver testemunhado cada um destes eclipses futuros. Deus seria, portanto, como uma espécie de supercomputador capaz de conhecer e armazenar todos os dados matemáticos, físicos e químicos do universo, e deduzir, a partir deste enorme banco de dados, todos os eventos e entes particulares que existiram ou vão existir.

São Tomás diz que há alguma coisa nos entes particulares que não se reduz às suas causas abstratas, por mais perfeitamente que se as pudesse conhecer. Mesmo Deus seria um conhecimento deficiente da criação se apenas a conhecesse assim, com o conhecimento teorético de todas as forças, interações e causas do universo. O universo é muito mais do que um jogo mecânico de causas, forças e interações; há algo de irredutível na singularidade concreta e material das coisas, há algo existencial nas coisas que seria absolutamente ignorado por Deus, se ele fosse apenas o “grande Demônio” de Laplace ou a Tese inicial de Hegel. As formas, ideias, forças, causas, enfim, toda a abstração do universo adquire uma particularidade irrepetível quando adquirem concretude e individuação na matéria: a existência concreta, material, é irredutível às abstrações que a explicam. Ainda que eu soubesse tudo o que há para saber sobre seu João da Padaria, como a sua idade, cor, origem étnica, recursos econômicos, profissão, gostos pessoais, etc., eu jamais conheceria Seu João se não o encontrasse concretamente, na sua singularidade existencial, material, concreta. O mesmo se pode dizer de Deus. Deus tem esta relação existencial com a sua criação. Ele a conhece assim como ela é.

2. Deus conhece os singulares, em sua peculiaridade, porque os conhece em si mesmo, como causa primeira de tudo, e, conhecendo em si todas as causas que decorrem do seu poder, aplica as causas universais aos seres singulares, conhecendo-os assim na sua causalidade concreta. São Tomás afastará esta hipótese, dizendo simplesmente que, para aplicar alguma coisa a algo, é preciso conhecer esta “alguma coisa” que será aplicada, e o “algo” a que se aplica; este argumento, portanto, é circular, e incide em petição de princípio: pressupõe aquilo que deveria provar.

E São tomás nos dará uma explicação muito simples e muito completa: Deus criou a matéria. A matéria, portanto, é parte da explicação das coisas, como causa material daquilo que elas são. Se Deus é causa primeira de tudo, ele conhece também a causalidade material, da qual é, em última instância, a fonte. A matéria, portanto, não é algo estranho, obscuro, oposto a Deus, mas parte daquilo que é a própria criação de Deus. Portanto, uma vez que a matéria, criada por Deus, é princípio de individuação das coisas singulares, o conhecimento de Deus simplesmente chegará até as coisas em sua singularidade existencial. Como um pintor conhece perfeitamente aquilo que pintou em seu quadro, ele conheceria tudo o que há para saber sobre o quadro se houvesse criado do nada a própria tela, os próprios pincéis e a própria tinta que usa. Deus é este pintor maravilhoso, cujo conhecimento chega até a mais existencial das singularidades. E diríamos, não resistindo a avançar adiante dos bois: a encarnação em jesus cristo deu-lhe mesmo o conhecimento sensorial mais completo, não somente daquilo que se percebe pelos sentidos, mas daquilo que ocupa uma existência humana e sua singularidade: pensamentos, sentimentos, emoções e paixões.

Posto isto, São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor parte da noção de que o intelecto humano não conhece as coisas em sua concretude material, mas apenas os universais que são abstraídos do conhecimento sensorial. Assim, o argumento diz que, sendo mais imaterial do que o intelecto humano, o intelecto divino não conheceria as coisas na sua concretude material. São Tomás responderá que o processo de conhecimento humano é próprio da criatura composta que somos, com uma dimensão material, sensorial e concreta, e uma dimensão intelectual, imaterial, abstrata e racional. Mas em Deus não é assim; sua essência, pela qual ele conhece as coisas em sua concretude, não é imaterial por abstração, como são os conhecimentos em nosso intelecto humano. Ele é imaterial em si mesma, e é o princípio de todos os princípios que compõem as coisas. Não é princípio apenas dos aspectos formais da realidade criada, mas de toda a realidade criada; inclusive das causas materiais das criaturas. E é como princípio primeiro que ele conhece as criaturas, assim como existentes, no mais íntimo de suas causas, inclusive na sua causa material, por um conhecimento simples, direto e perfeito.

O segundo argumento objetor parte do fato de que em nós, humanos, são as faculdades mentais, como o sentido comum e a memória sensorial, que recebem os dados sensoriais concretos e os armazenam. Como Deus não é material, ele não teria este “equipamento sensorial” para conhecer os seres na sua concretude existencial. São Tomás nos explicará que não há analogia, neste ponto, entre o modo humano de conhecer e o modo divino. Deus conhece tudo como causa primeira, em sua própria essência, e não por um processo de aprendizagem por abstração dos dados sensoriais, como os seres humanos. E, uma vez que seu poder se estende às coisas materiais e imateriais, que foram por ele criadas do nada, ele simplesmente as conhece em si mesmo.

O terceiro argumento é aquele que, reafirmando o princípio gnoseológico que afirma que “semelhante conhece semelhante”, parte da dessemelhança entre Deus e a matéria para negar-lhe qualquer possibilidade de conhecer os seres materiais na sua concretude existencial.

São Tomás responderá simplesmente que a matéria, sendo pura potência, afasta-se de fato da pura atualidade que é Deus. Mas mesmo a pura potência, sendo um certo não-ser, é, de certa forma, um certo ser, e neste sentido tem certa semelhança com o ser divino.

Este artigo nos apresenta Deus como profundamente envolvido com a existência individual, concreta e singular das suas criaturas. E conhecedor, no sentido mais profundo, desta concretude individual que torna tudo, cada coisa, irrepetível e maravilhosa na sua singularidade. Deus não é menos por conhecer tudo no que tem de mais material e singular; ao contrário, este conhecimento o torna perfeitamente mais.