A pergunta que estamos debatendo aqui é simples: Deus tem algum conhecimento sobre aquilo que não é? A hipótese controvertida inicial é que ele não pode conhecer de modo algum as coisas que não são.
Vimos que há muitos sentidos para falar das coisas que não são: há aquilo que absolutamente não é, e estas não são pensáveis de fato, e há aquilo que só existe como ente de razão, por estarem na fantasia ou na imaginação de alguém, ou por serem algo do campo da lógica ou da matemática, um conceito ou uma abstração. E há aquilo cujo não-ser é apenas relativo, como é o caso das potências para o ato.
São Tomás responde, agora, que Deus conhece tudo sobre todas as coisas, qualquer que seja o modo que exista; e começa a explicar de que modos podemos falar do não-ser, com relação ao conhecimento de Deus.
Podemos afirmar que Deus conhece aquilo que não é de modo absoluto, mas que nada impede que possa vir a ser; e pode vir a ser tudo aquilo que não apresente alguma contradição interna que a torne impensável. É o caso, por exemplo, de postular uma pedra tão pesada que nem Deus conseguisse levantar. É claro que a noção de “peso” envolve a noção de “massa”, e a noção de “massa” tem implícita a noção de “limite”; por isto há contradição interna em postular uma coisa assim, tal como uma pedra tão pesada que Deus não pudesse levantar – a própria definição de “peso” e de “pedra”, bem como a própria natureza divina, contradizem a possibilidade de concepção de um ente com tais características. Também haveria contradição interna em pensar num círculo quadrado, ou num triângulo cuja soma dos ângulos interiores desse mais que 180º. Para que tais entes fossem pensáveis, mesmo por Deus, seria preciso imaginar que Deus pudesse contradizer a si mesmo, e isto simplesmente é inconcebível. Uma criatura pode contradizer a si mesmo. Deus, por definição, jamais o faria.
É claro que Deus conhece (porque concebeu em primeiro lugar) todas as coisas que existem em ato. Não é sobre isto que estamos debatendo aqui.
Mas aquilo que não é, mas pode vir a ser, por não implicar contradição conceitual, está na esfera do cognoscível para Deus. Que a conhece assim, como possível, como contingente.
É por isto que Deus tem perfeita ciência do não-ser; tanto quando este não-ser relaciona-se com aquilo que já foi, mas não é mais, quanto com aquilo que ainda não é, mas virá a ser. Em todos estes casos, a visão de Deus, que ultrapassa a sucessão do tempo e existe na eternidade como simultaneidade, abrange o conhecimento destas realidades.
Também pode ser incluído naquilo que Deus conhece tudo aquilo que chamamos de “potências ativas”, ou seja, aquilo que, estando em ato, é capaz de levar a ato seres que estão em potência. Uma lata de tinta vermelha, por exemplo, tem a potência ativa de colorir um muro. É fácil conceber de que modo Deus conhece esta relação de transformação no mundo: aquilo que não está em ato, mas está em potência, tende ao ato como a um fim. Este fim, enquanto não existe como ato no mundo factual, existe sempre na mente daquele que tem o poder de conduzir a potência ao ato. Imaginemos uma pequena semente de milho: onde está o pé de milho que ela será um dia? Poderíamos imaginar que ele está inscrito no genoma da semente; mas toda inscrição somente possui significado se relacionada com alguma mente que a faz significar. Este pé de milho, que ainda não é, mas está inscrito como potencialidade no genoma da semente, existe na eternidade como conhecimento na mente de Deus.
Portanto, pode-se dizer que o não-ser, quando existe como ente de razão ou como potencialidade, existe antes na mente de Deus do que em qualquer outro lugar. Mesmo aquilo que nunca existiu, nem existe, nem existirá, mas é concebível sem contradição, existe antes na mente de Deus, como ciência de simples inteligência, como aquilo que Deus não elegerá, por sua vontade, para que passe a existir.
E o não-ser absoluto, aquilo que não existe nem sequer como ente de razão ou como potência? Podemos responder tranquilamente que a definição mais adequada de “não-ser absoluto” poderia ser “aquilo que não pode existir nem sequer na mente de Deus”. Este é o não-ser que absolutamente não é, diríamos, parafraseando Parmênides. E este é um dos grandes problemas da linguagem humana: muitas vezes conseguimos colocar em palavras contradições tão absurdas que não podem ser nem concebidas, mas que nos iludem como se fossem provas de um suposto “limite à onipotência divina”. São apenas limites da fraqueza da linguagem humana, que pode construir frases sem nenhum sentido como “existe um círculo quadrado”, e outras similares.
São Tomás passará agora a responder às objeções iniciais.
Os três argumentos objetores negam o conhecimento de Deus sobre o não-ser; o primeiro diz que, se o ser é conversível com a verdade, o não-ser não pode ser verdadeiro; mas se em Deus existe só a verdade, ele não pode saber nada do não-ser. São Tomás responderá que a potência, na sua relação ao ato, é um não-ser apenas de modo relativo, e portanto relaciona-se com a verdade como relaciona-se com o ser. Quer dizer: quando um ente qualquer tem uma potência para um determinado ato, ou mesmo está em potência para a própria existência, é sempre verdade que existe uma potência para um ato, e é neste sentido que este não-ser relativo é conhecido por Deus.
O segundo argumento é aquele que diz que semelhante conhece semelhante; e, do fato de que Deus é o próprio ser, nega-lhe a capacidade de conhecer qualquer não-ser, porque é totalmente dessemelhante de Deus. São Tomás nos lembrará de que, se Deus é o próprio ser, aquilo que existe como ente de razão e como potência para um ato participa de algum modo da semelhança com o ser de Deus, e por isto cai no âmbito da cognoscibilidade divina. A definição de Parmênides, portanto, de que o não-ser não é, tomada num sentido absoluto, é verdadeira apenas para aquilo que nem Deus possa conhecer.
O terceiro argumento é aquele que diz que Deus conhece tudo em si mesmo pela razão de ser causa primeira do próprio existir. Ora, o argumento diz que o que não é, não tem causa, e portanto está fora da cognoscibilidade, mesmo de Deus. São Tomás lembrará, aqui, que o conhecimento de Deus é causa primeira da existência juntamente com sua vontade; Deus não é uma espécie de máquina automática de fazer coisas, que transforma em existência os entes simplesmente por pensar neles. Sendo suprema liberdade, Deus elege, dentre as coisas que conhece, aquilo que por sua vontade existirá. Assim, as coisas que ele concebe, mas que não quer que existam, estão em sua mente como não existentes. E não há nenhuma contradição nisto.
E é assim que, numa discussão aparentemente teorética, metafísica, teológica e árida, São Tomás nos dá uma sólida noção de realidade, de lógica e, acima de tudo, da pessoalidade libérrima de Deus e da sua capacidade de imaginar e de sonhar. Quando o nosso santo descreve este Deus cuja essência é ser, está falando de algo muito diferente daquilo que os gregos chamavam de “ser”, como abstração rígida e fechada. Conceber Deus como uma pessoa livre, que faz, mas também sonha e imagina, é talvez ousar mais do que a palavra literal de São Tomás nos concede aqui. Mas eu quero ter esta ousadia. Peço licença, pois, respeitosamente a São Tomás.
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