No esquema epistemológico de São Tomás, o conhecimento funciona assim: Deus pensa nas coisas, faz com que elas existam, e por isto as coisas têm uma inteligência, um sentido em si mesmas. Nós somos interpelados por estas mesmas coisas, e nossa inteligência as pode conhecer, e descobrir o sentido que Deus colocou nelas. Assim, cada coisa criada é uma espécie de bilhete de Deus para nós, e revela um pouco da mente de Deus, quando a conhecemos. A rigor, portanto, a ciência consiste em desvendar a mente de Deus pelo conhecimento da criação. Assim, a mente de Deus mede as coisas, as coisas medem a nossa mente. É exatamente este o sentido da noção de verdade. E é neste sentido que podemos defender, com profunda coerência teológica, que há verdade em todas as religiões, a partir da contemplação natural da criação, porque contemplar a criação com abertura e sinceridade sempre produz algum conhecimento verdadeiro de Deus – mesmo se imperfeito e com mescla de erros. Isto permite fundar adequadamente o diálogo inter-religioso, a convivência política, o respeito à diversidade e os direitos humanos.

Mas é claro que isto não engessa a criação. A criação divina é uma obra aberta e, respeitados os sentidos que Deus deu às suas coisas, há virtualidades nelas que estão abertas à mente humana. Podemos contemplar as coisas criadas e conhecê-las, mas também somos convidados a completar a criação, e encontrar novos sentidos para as coisas criadas. Quando fazemos isto, é a nossa mente que estabelece o nosso fazer, a nossa poiesis transformadora, e as coisas que manufaturamos passam a ter um sentido que nós descobrimos nelas, ou mesmo que nós inserimos nelas com o nosso fazer. Neste caso, a mente do artesão é a medida do sentido das coisas transformadas, e o conhecimento técnico que ele possui é transferido para a coisa produzida. Neste caso, a intenção do artesão mede o produto, e a verdade passa a ser uma medida entre a mente que produz e a coisa produzida. Como a técnica humana é derivada e limitada frente a criação divina, é também num sentido limitado que falamos numa verdade prática, na produção humana. Mas este é o único sentido que a contemporaneidade parece conhecer: houve uma absolutização do valor da técnica humana, considerada como única fonte de sentido para a realidade, e uma total desconsideração do sentido criatural, intrínseco das coisas, com relação à mente de Deus. De certa forma, o mote “sola scriptura”, quando mal entendido, vai nesta linha: recusando a noção de que a criaturalidade é uma forma natural de revelação, e limitando a revelação à positividade da Bíblia, aqueles cristãos que defendem a “sola scriptura” nas suas versões mais radicais transformaram o mundo numa grande oficina sem sentido intrínseco, e todas as religiões naturais são consideradas simplesmente como sem nenhum valor, ou verdadeiramente ofensivas a Deus, e toda a legislação deriva da voluntariedade de Deus ou do consenso entre os seres humanos. Não há, para quem não reconhece a criaturalidade inteligente do mundo, razões naturais que possam fundamentar as leis, apenas a vontade e o consenso humanos geram direito. Ou, no caso dos religiosos, apenas a vontade pura de Deus, que, na sua onipotência arrogante, não precisa fazer sentido para ser obedecido. Não é este o caminho de São Tomás.

Neste artigo, portanto, debateremos como pode ser que o conhecimento de Deus não decorra de uma aprendizagem que ele adquire ao contemplar as coisas, mas, ao contrário, produza as próprias coisas e a sua inteligibilidade intrínseca para nós. E a hipótese controvertida que São Tomás colocará aqui é a de que o conhecimento de Deus não é causa das coisas. É caro que ele quer exatamente provocar o debate, que envolve duas questões:

1. O conhecimento de Deus não é gerado pelas coisas, como o nosso. Na verdade, as coisas é que são geradas pelo conhecimento de Deus. Deus não aprende. Ele concebe e cria. E criando nos ensina a contemplar e a completar.

2. A criação não é um simples ato de vontade despótica, de uma onipotência que se manifesta exatamente como um poder incondicionado e infenso à ordem. Não há distinção real entre a inteligência de Deus e a sua vontade, e portanto a ordenação que a inteligência divina estabelece na criação não é um limite à sua onipotência, mas é exatamente a forma de manifestação desta mesma onipotência. Deus é onipotente na sua onisciência, e onisciente na sua onipotência. Não é um ditador arrogante fazendo as coisas apenas para mostrar que pode sempre fazê-las de modo inverso ou diferente quando isto lhe apraz, o que nos condenaria a um nominalismo irracionalista. Ele é amor, e o amor sempre se manifesta com sentido, nunca com despotismo.

São Tomás passará, então, a apresentar os argumentos objetores, que dão suporte à hipótese controvertida inicial. O primeiro argumento é patrístico; ele cita Orígenes, que, no seu comentário à Carta aos Romanos, afirma: “Não é porque Deus sabe que uma coisa vai existir que esta coisa existirá, mas porque uma coisa deve existir, Deus sabe com antecedência que ela existirá”. Desta afirmação, o argumento tira a conclusão de que não é o conhecimento de Deus que causa as coisas.

O segundo argumento é interessante; ele parte da noção de causalidade, e diz que, uma vez que a causa seja posta, o efeito ocorrerá. Mas se o conhecimento de Deus é eterno, e se o conhecimento de Deus é a causa das coisas criadas, daí decorreria que as coisas deveriam ser eternas. Mas as coisas não são eternas, e disto o argumento conclui que o conhecimento de Deus não pode ser causa delas. Este é daquele tipo de argumento que nos faz ansiar pela resposta de São Tomás…

O terceiro argumento é parte da teoria do conhecimento aristotélico. Segundo Aristóteles, as coisas são causa e medida do conhecimento que se tem delas. Ora, a causa e a medida não podem vir depois do efeito. Assim, o conhecimento de Deus, segundo este argumento, é causado pelas coisas, e não causa delas.

Como argumento sed contra, São Tomás traz uma citação de Santo Agostinho: “Deus não conhece o conjunto total das criaturas, espirituais e corporais, pelo fato de que este conjunto existe; na verdade, ele existe porque Deus o conhece.”

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.