Num texto anterior, eu afirmei ousadamente que Deus não aprende, nem reflete. Refletir e aprender são duas características próprias de intelectos imperfeitos, criaturais, como o intelecto humano. Deus é e sabe no mesmo e perfeito ato. Ele sabe o que é, ele é o que sabe e ele quer o que é e o que sabe. Este ato eterno e perfeito de querer o que é e o que sabe pode ser resumido numa palavra: amor. Deus é amor, porque ele é o perfeito querer do ser que se sabe plenamente. E que quer perfeitamente, porque sabe com conhecimento fundante, dar o ser àquilo que cria.

A pergunta agora é ainda sobre a natureza do conhecimento divino, e mais uma vez São Tomás se valerá do seu debate teológico para construir um estudo profundamente antropológico. O que significa, exatamente, a razão humana? Raciocinar é um ato humano, ou é um ato divino? Deus raciocina? Como exatamente conhece um ser que não está submetido aos limites do tempo e do espaço? Em que medida o fato de sermos seres inseridos no espaço-tempo marca nossa forma humana de conhecer e de discursar? Como, a partir da nossa limitada perfeição de conhecer e arrazoar podemos chegar a compreender, mesmo que às apalpadelas, o modo perfeito e inesgotável, simultâneo e ilimitado, do conhecimento divino?

A hipótese proposta aqui é afirmativa: “parece que o conhecimento de Deus é discursivo”. A questão posta, portanto, é saber se há método, se há lógica, se há raciocínio no modo de conhecer divino. Ou se estas são características humanas. Trata-se, portanto, um pouco de debater, com sete séculos de antecedência, se a concepção de um deus dialético e processual de Hegel tem alguma consistência. Claro que São Tomás não conheceu Hegel; nem poderia. Seria um anacronismo. Mas os problemas fundamentais que Hegel apresenta já foram, de certa forma, antevistos e comentados por São Tomás, inclusive aqui neste artigo.

O que significa falar de um “saber discursivo” em Deus? Significa propor que o conhecimento de Deus procede por raciocínio, por indução ou dedução, que ele está submetido a algum processo silogistico ou dialético para processar seu conhecimento. São Tomás nos dará três argumentos objetores em favor de sua hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento parte das noções de “hábito” e “ato”. Nós perdemos, hoje em dia, a verdadeira noção de “habitus”, tal como São Tomás a utilizava em seu tempo. Um habitus não é um simples costume pessoa de fazer as coisas do mesmo jeito sempre. Não é um automatismo, muito ao contrário: é um pressuposto para a liberdade, uma espécie de segunda natureza que nos habilita a atingir consistentemente a perfeição dos nossos atos, como uma segunda natureza que permanece em nós, latente, para ser utilizada sempre que for necessário exercer alguma perfeição em ato. Os conhecimentos que adquirimos, a disciplina moral que desenvolvemos, a capacidade de discernimento que conquistamos, tudo isto permanece em nós e marca profundamente o nosso ser, aperfeiçoando-o, mas permanece latente como um tesouro, um cabedal a que podemos recorrer sempre que queremos realizar com facilidade e livremente atos perfeitos.

Em nós, todo conhecimento gera um hábito, isto é, permanece marcado em nosso espírito como um tesouro, um cabedal para ser utilizado sempre que conveniente. Mas podemos utilizar este conhecimento, de modo atual, apenas de modo sucessivo; vale dizer, quando possuímos o hábito do conhecimento, guardamos em nós muitas coisas, como hábito. Mas sabemos, atualmente, apenas de uma por vez.

O argumento afirma, então, que em Deus não há conhecimento habitual, porque Deus não tem potências a serem atualizadas. Todo conhecimento divino está em ato. O argumento prossegue, então, para lembrar que Deus conhece a si mesmo, e em si mesmo conhece muitas coisas. Neste caso, o argumento conclui que, uma vez que sabe muitas coisas, seu conhecimento não é atual simultâneo; deve necessariamente passar de umas para as outras, sucessivamente; vale dizer, o argumento conclui que o conhecimento de Deus é processual e discursivo.

O segundo argumento faz um raciocínio semelhante. Ele lembra que o conhecimento discursivo, raciocinado, processual, caracteriza-se exatamente por caminhar das causas para os efeitos, ou vice-versa. E o argumento prossegue: Deus conhece a si mesmo e, sendo causa primeira da criação, conhece em si mesmo todas as coisas. Mas conhecer os efeitos pela causa, diz o argumento, é a própria noção de “conhecimento discursivo”. Logo, o conhecimento de Deus é discursivo.

O terceiro argumento vai pela mesma linha; nós conhecemos as criaturas e, por conhecê-las, conhecemos sua causalidade e os respectivos efeitos que elas podem causar, pelo raciocínio que vai da causa aos efeitos. Ora, diz o argumento, Deus tem um conhecimento muito mais perfeito que nós, das criaturas e de seu poder causal. Logo, ele procede da causa aos efeitos, de modo discursivo, até de forma muito mais intensa do que nós. Portanto, o argumento conclui que o conhecimento de Deus é discursivo.

O argumento sed contra é uma simples citação de Santo Agostinho; ele diz que Deus não vê as coisas de modo particular, por partes ou uma de cada vez, como que passando os olhos daqui para ali e dali para cá, como nós fazemos, mas vê tudo simultaneamente. A simultaneidade da visão de Deus parece ser uma chave aqui, portanto.

Passemos à resposta sintetizadora de São Tomás. Ele já começa negando a hipótese inicial cabalmente: não há discursividade no conhecimento divino. Deus não arrazoa, não faz silogismos, não procede por dialética. Então podemos dizer, completando a primeira frase deste texto: Deus não aprende, não reflete e não raciocina. Estes três aspectos são próprios da forma humana, criatural, de conhecer. Esta forma humana utiliza-se da discursividade, de duas maneiras:

1. O processo sucessivo, quando, por conhecermos alguma coisa em ato, chegamos ao conhecimento de outra coisa. É aquilo que chamamos de “conhecimento indutivo”.

2. Quando, a partir dos princípios, chegamos ao conhecimento das conclusões. É o chamado “conhecimento dedutivo”.

Nenhuma das duas maneiras de conhecer, diz São Tomás, é conveniente para Deus. Tomemos o conhecimento indutivo; nele, o conhecimento de uma coisa, e de outra coisa, e de mais uma terceira coisa, acaba nos levando sucessivamente ao conhecimento de uma quarta coisa. Ocorre que o conhecimento indutivo tende a integrar as coisas conhecidas sucessivamente em alguma espécie de todo simultâneo. Por exemplo; eu examino uma porta, depois uma janela, adiante uma parede, abaixo um piso, e logo descubro que eles pertencem a um todo, que é uma casa. Conhecendo sucessivamente as partes, agora posso conhecê-las de modo simultâneo nesta terceira coisa, que é a casa, que engloba e unifica a todas. Vale dizer: embora a inteligência humana sempre conheça de modo sucessivo, ao sintetizar as coisas conhecidas em alguma espécie de todo que as englobe nós somos capazes de vê-las simultaneamente neste todo que lhes dá sentido. Então São Tomás conclui: uma vez que conhece a tudo em si mesmo, ou seja, é o seu próprio ser que, sendo conhecido, sentido, como num todo, a todas as coisas que ele conhece, Deus não as conhece sucessivamente, discursivamente, mas simultaneamente em si mesmo. Não há espaço para induções no conhecimento divino.

Também não há espaço para a forma de conhecimento descrita no item 02 acima, as deduções. De fato, esta forma de conhecer pressupõe a sucessividade, que não existe em Deus. Quem conhece dedutivamente procede dos princípios, que conhece, para as deduções, que desconhece. Portanto, para os que procedem assim, os princípios, considerados em primeiro lugar, lhe são conhecidos, mas as conclusões lhe são ignoradas. As conclusões não são conhecidas nos próprios princípios, que não as contêm ostensivamente, mas apenas virtualmente. Então, a rigor, nós não conhecemos as conclusões nos princípios, mas pelos princípios. O discurso procede então dos princípios para os efeitos, e termina nestes.

Mas Deus vê os seus efeitos em si mesmo, não “por causa de si mesmo”. Não há uma sucessividade nesta visão, porque ele vê os efeitos na própria causa, que é ele mesmo, e não por causa dela. Não há, portanto, um termo inicial e um termo final para este conhecimento, mas a perfeição e a completude originária. Não há, portanto, raciocínios em Deus.

São Tomás passa agora a responder às objeções iniciais. A primeira objeção é aquela que diz que o conhecimento, que em nós é habitual, torna-se ato sucessivamente, uma coisa após outra. E completa que, uma vez que Deus conhece as coisas ao conhecer a si mesmo, fica claro, segundo o argumento, que há sucessividade em seu conhecimento.

São Tomás responde que, mesmo para nós, quando conhecemos muitas coisas numa terceira que as engloba e dá sentido, como no caso do exemplo acima, em que conhecemos uma casa e, com ela, simultaneamente, as partes que a compõem, conhecemos todas estas coisas em ato e simultaneamente. Deus conhece tudo em si mesmo, com um ato único de conhecer. Não há sucessividade, pois, em seu conhecimento.

A segunda objeção nos afirma que todo conhecimento que vai da causa aos efeitos é discursivo. Daí o argumento conclui que, uma vez que Deus conhece todas as coisas como efeitos de si mesmo, por ser a causa primeira de tudo, seu conhecimento vai da causa para os efeitos e, portanto, é discursivo.

São Tomás nos responderá que Deus não procede do conhecimento de si mesmo como causa para o conhecimento dos efeitos, como se caminhasse de uma causa anteriormente conhecida para os efeitos anteriormente desconhecidos. Ele conhece os próprios efeitos na causa, pelo mesmo ato. Assim, não há discursividade no seu conhecimento.

A terceira objeção é aquela que lembra que nós conhecemos os efeitos das coisas ao conhecermos a causalidade que há nelas, de modo discursivo. Ora, diz o argumento, se Deus conhece os efeitos das coisas criadas ainda melhor do que nós, então ele deve ter conhecimento discursivo sobre as criaturas. São Tomás explica que, muito melhor do que nós, Deus vê os efeitos das coisas criadas nas próprias causas; não porque conhece estes efeitos na medida em que a coisa os causa, mas porque estes efeitos preexistem em sua inteligência antes mesmo de serem exercidos pelas coisas. Não se trata, pois, de um conhecimento discursivo.

E eis que, estudando o conhecimento divino, agora sabemos um pouco mais sobre a visão que São Tomás tem do conhecimento humano.