No texto anterior, nós vimos que São Tomás defende ferozmente o fato de que Deus não está acima do mundo, no sentido de que não lhe interessassem as distinções, as concretudes, as individualidades dos entes criados. Deus conhece e governa cada coisa, cada substancia, cada acidente que existe no mundo criado, e o faz com pleno conhecimento de tudo. Agora, São Tomás vai nos oferecer uma explicação filosófica de como isto é possível.
Quando falamos do conhecimento que Deus tem das coisas, não falamos somente, portanto, do conhecimento que ele tem de tudo por ter perfeito conhecimento de si mesmo como existência plena, causa de todo ser, que Deus conhece o ser de cada coisa. De fato, o ser é aquilo que todas as coisas têm em comum, já que tudo o que é, tem o ser. Mas Deus conhece perfeitamente não somente aquilo que todas as coisas têm em comum, mas também aquilo que as individualiza, uma com relação à outra.
É neste ponto que São Tomás nos traz um debate que havia na filosofia do seu tempo, sobre como o autoconhecimento de Deus gerava nele o conhecimento de todas as outras coisas, pelo fato de que ele é o primeiro princípio. O debate se desenvolvia assim: se houver um primeiro princípio que tenha perfeita consciência de si mesmo, nesta consciência ele terá perfeita consciência de todas as consequências que estão implicadas em si, ou seja, de tudo aquilo que é principiado por ele. Assim, um ponto que tivesse perfeita autoconsciência também conheceria todas as linhas que partem dele. Ou a luz branca, se tivesse perfeita consciência de si, conheceria perfeitamente também todas as cores que estão nela contidas.
São Tomás explica que este exemplo é imperfeito, como analogia. É que estes princípios (a luz branca como princípio de todas as cores, ou o ponto como princípio de todas as linhas que partem dele) são princípios setoriais, que somente podem explicar aquilo que unifica os entes que são causados por eles, mas não aquilo que os diversifica. Assim, o ponto pode explicar a intercessão de todas as linhas que passam por ele, mas não pode explicar a própria extensão da linha. A luz branca pode explicar a união de todas as cores que ela contém, mas não pode explicar a razão da sua decomposição nas diversas cores. Assim, se estes princípios fossem perfeitamente autoconscientes, conheceriam aquilo que unifica todos os entes que são consequência de si mesmo, mas não seriam capazes de conhecer aquilo que os distingue. O que distingue está sempre fora do princípio que unifica, quando falamos de princípio no sentido matemático, ou mesmo físico, como o ponto é o princípio da linha, ou a luz é o princípio das cores. Assim, um princípio deste tipo, ainda que fosse perfeitamente autoconsciente, somente conheceria aquilo que é principiado por ele no quanto tem de comum com ele mesmo e com as outras coisas principiadas, mas não aquilo que os distingue. Neste sentido, um princípio autoconsciente teria apenas um conhecimento geral, mas não um conhecimento próprio, individualizado, de tudo quanto é principiado por ele.
No caso de Deus as coisas não são assim. Já sabemos, quando estudamos as perfeições em Deus, que tudo o que há de perfeição numa criatura existe de modo infinitamente mais eminente em Deus. Inclusive aquilo que individua o ente, distinguindo-o dos demais. Tomemos os seres vivos, com relação aos seres não vivos: a vida, que distingue os primeiros dos segundos, é também uma perfeição, e portanto tem seu princípio em Deus. Ou mesmo, dentre os seres vivos, tomemos a inteligência, que distingue os seres em inteligentes e não inteligentes: a inteligência também é uma perfeição que está em Deus em primeiro lugar.
Assim, em primeiro lugar, as criaturas distinguem-se pela forma; e cada distinção formal é uma perfeição, que pode remeter-se a Deus como princípio fundamental. É por isto que todas as coisas preexistem em Deus, não só pelo que é comum a todas, mas também naquilo que as distingue.
Nisto Deus, como princípio, distingue-se de tudo o que é princípio no sentido imanente do termo. Deus é o princípio último, por ser a causa primeira, não só daquilo que é comum a toda a criação, como a própria existência (o ser), mas também daquilo, daquelas distinções que são próprias de determinadas categorias de seres.
Por isto, uma vez que Deus contém em si todas as perfeições de modo eminente, a sua essência está para a essência de todas as coisas de um modo diferente daquele pelo qual os outros princípios estão para as coisas principiadas. Não como aquilo que unifica toda uma categoria de seres, como princípio compartilhado – é o caso do ponto para as linhas que partem dele, ou a unidade para todos os números. Deus está para todas as coisas como o ato perfeito, a perfeição suprema, está para todas as perfeições que existem. Eis o exemplo que São Tomás nos dá: o ser humano tem, em sua essência, a animalidade, de maneira plena. Assim, quem conhecesse os animais de maneira geral não conheceria o ser humano, porque tem dos animais apenas um conhecimento genérico, principiológico, mas não conhece aquilo que os distingue. Ms quem conhecesse perfeitamente um ser humano conheceria de modo próprio o ser humano e também a animalidade, que está contida no ser humano de modo perfeito. É assim que quem conhece o mais perfeito, a consumação da perfeição, pode conhecer tudo aquilo que está contido nele, todas as perfeições que ele tem, de modo próprio.
Por isto, ao conhecer-se como perfeição suprema, Deus conhece em si tudo o que distingue todos os seres, ou seja, todas as perfeições que são participadas pelas criaturas de modo limitado, e as distingue formalmente umas das outras, preexistem em Deus de modo eminente e, portanto, são conhecidas por ele. Ao conhecer-se perfeitamente, Deus conhece, pois, não só aquilo que unifica, como princípio, todas as criaturas, mas também aquilo que as distingue, porque o que as distingue são as perfeições de que participam em grau diferente; e todas estas perfeições são conhecidas propriamente por Deus em si mesmo, de modo perfeito.
Isto não explica, ainda, como Deus conhece os indivíduos, as coisas singulares, porque o artigo só trata das chamadas “diferenças formais”, e não das diferenças materiais. Mas isto será debatido adiante, num artigo, por São Tomás, aqui mesmo nesta questão.
Agora São Tomás vai passar a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção é aquela que diz que Deus conhece as coisas do modo como estão nele – como causa primeira, comum e universal; por isto, ele teria das coisas apenas um conhecimento universal, abstrato e genérico.
São Tomás nos dirá que de fato é um princípio do conhecimento que nós conhecemos as coisas assim como estão em nós. A pedra não está em minha mente de modo material, como está na natureza, mas apenas de modo intencional. Mas ele faz aqui uma importante distinção; há dois sentidos pelos quais eu posso dizer que as coisas são conhecidas assim como estão em nós. Um destes sentidos é falso, o outro é verdadeiro. Esta distinção é importantíssima, porque ela mostra como não cair no erro dos idealistas radicais, aqueles que já não sabem distinguir entre aquilo que está em nossa mente e aquilo que existe na natureza.
Assim, se eu digo que conheço uma coisa assim como está em minha mente, e estou me referindo à própria coisa, a afirmação é falsa. Quando eu conheço uma pedra, conheço-a como um ente material, existente na natureza, mas ela está na minha mente imaterialmente. Portanto, se eu disser que a pedra que eu conheço é imaterial, porque tem uma existência imaterial na minha mente, isto é uma afirmação falsa. Eu conheço imaterialmente a pedra em sua species que inclui a noção de que ela é material.
Mas se a afirmação quer dizer que a species de pedra está na minha mente imaterialmente, e não na sua materialidade, para intencionar aquilo que na natureza é material, então a afirmação é verdadeira. O ser da species intencional que está na minha mente é imaterial, embora aponte para a coisa material que conheço. E ele é tão mais completo quanto mais perfeitamente reflita aquilo que está na natureza, e que é conhecido por mim.
Ora, o conhecimento que há em Deus é perfeito, porque é idêntico à sua essência, que é perfeita. Este conhecimento inclui, é claro, todas as perfeições da coisa conhecida, inclusive suas distinções e sua existência. Assim, Deus tem conhecimento próprio, completo, perfeito, das coisas, tais como elas são em si mesmas, e não apenas um conhecimento universal e genérico.
A segunda objeção é aquela que ressalta a infinita distância entre a essência de Deus e as essências das criaturas. E afirma que, do mesmo modo que, conhecendo a essência de uma criatura, eu não tenho a menor possibilidade de saber qualquer coisa sobre a essência de Deus, então, diz o argumento, se eu conhecesse a essência de Deus não haveria a menor sombra, nela, das essências das criaturas. Ora, o argumento conclui daí que, uma vez que apenas conhece as coisas pelo conhecimento da própria essência, e uma vez que a sua essência dista infinitamente da essência das coisas, não haveria como defender que Deus tivesse conhecimento próprio da essência de cada coisa. São Tomás responderá mostrando a falha deste raciocínio; conhecendo a criatura, eu conheço alguma coisa da essência de Deus; quando nada, que esta é uma criatura, e que não tem em si mesma a razãod a sua existência. A essência das criaturas é capaz de nos revelar a existência de Deus, ainda que de modo muito distante, incompleto e imperfeito. Mas, se a essência da criatura não revela a essência de Deus de modo claro, é porque ela está para a essência de Deus como o imperfeito está para o perfeito. Mas isto não significa que haja aí uma reciprocidade: a essência de Deus está para a essência da criatura como o perfeito para o imperfeito. Deste modo, eu conheço as essências das criaturas, conheço apenas de modo muito imperfeito e limitado alguma coisa sobre Deus. Mas se Deus conhece perfeitamente a própria essência, ele conhece também de modo perfeito e próprio a essência de todas as criaturas.
A terceira objeção diz que o conhecimento próprio se caracteriza pelo conhecimento da própria essência da coisa. A essência de uma coisa, lembra o argumento, não pode ser a essência de outra coisa. Se Deus conhece apenas a própria essência, então ele não tem um conhecimento próprio das outras coisas, conclui o argumento.
São Tomás explicará que de fato a essência de uma coisa não pode ser tomada como conceito adequado para outra coisa; ou seja, ele admite o velho ditado popular que diz: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Mas Deus não é uma coisa ao lado de outras coisas; ele não é uma coisa, no sentido que usamos a palavra “coisa” para designar as criaturas. Deus é aquele que, tendo por essência o próprio ser incondicionado, ilimitado e perfeito, ultrapassa e excede a essência de todas as coisas, contendo em si de modo excedente e excelente todas as perfeições que são participadas pelas essências de todas as coisas. Assim, a essência de Deus pode ser tomada como conceito próprio de tudo aquilo que imita ou participa de suas perfeições. É por isto que, conhecendo perfeitamente a própria essência, Deus conhece propriamente todas as coisas.
Não podemos nos enganar aqui: São Tomás não está descrevendo os limites do conhecimento divino. Estes limites não existem. Ele está apenas tentando descrever, com os limites da linguagem humana, como é que um ser em si mesmo perfeito e ilimitado pode ser fonte de perfeição e cognoscibilidade de todas as coisas, ao conhecê-las e concebê-las em si mesmo.
10 de julho de 2025 at 13:15
Meditando sobre esse artigo me veio alguns pensamentos de que talvez esse conhecimento próprio se dá mais propriamente quando o homem se volta para Deus mediante o arrependimento.
“Chegai-vos a Deus e Ele se chegará a vós “.
Não que Deus não conheça a alma individual, sobretudo pelo próprio ato da sua criação. Mas como somos uma folha em branco, principalmente nesse momento do princípio da existência, talvez nesse momento não houvesse tanta diferença do conhecimento da criatura individual de modo específico. Claro que esse pensamento é guardado a devida proporção pelo fato de que para Deus o conhecimento sucessivo não cabe.
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