No artigo anterior, vimos de qual maneira Deus conhece as coisas diferentes dele mesmo. Ele as conhece em si mesmo, em sua essência, que mede, e não é mensurada, pela cognoscibilidade das criaturas. É fácil, pois, a partir daí, conceber que Deus tenha, em si mesmo, a medida de todas as coisas. Ele as concebeu, e neste conceber ele as conhece como um compositor conhece a sua sinfonia. Isto não significa que o compositor conheça cada apresentação da sua sinfonia, pelo mundo, com a diversidade de interpretações, de qualidade da orquestra, até mesmo a diferença de timbres, de andamento e de habilidades dos músicos executantes faz com que o conhecimento da sinfonia pelo compositor não implique o conhecimento, por ele, de todas as virtualidades contidas na sua obra, para que ele possa dizer que conhece, de antemão, todas as apresentações e variações concretas que sua obra pode sofrer cada vez que for tocada.
A pergunta, agora, envolve portanto o conhecimento particular, concreto, individual, de cada criatura, por Deus. É fácil conceber, na linha do artigo anterior, que Deus tenha o conhecimento de todas as espécies, de todos os conceitos, de todos os universais que se individualizam na criação. Como conceber, porém, que mediante a contemplação da própria essência, Deus possa conhecer cada aspecto individual de toda a criação?
A hipótese controvertida que São Tomás propõe, aqui, para estimular o debate, é exatamente esta: parece que Deus não conhece propriamente todas as coisas que são distintas de si, em suas particularidades, em sua concretude existencial, em sua individualidade. Esta é uma hipótese que parece atraente exatamente por colocar Deus como uma figura imponente, majestática, totalmente separada desta concretude “impura” da nossa realidade tão banal e mesquinha. Parece ser muito piedoso fazer de Deus um ser tão absurdamente transcendente que chegue a ser indigno dele conhecer o concreto, o existencial da criação. Mas esta é uma concepção totalmente equivocada da relação da criação com Deus, como veremos no final.
E São Tomás apresenta três argumentos objetores, em favor desta hipótese inicial. O primeiro argumento parte de uma ideia que foi lançada no debate do artigo anterior a este: Deus conhece todas as outras coisas do modo pelo qual estas coisas estão nele. E o argumento acrescenta: ora, todas as coisas estão nele na qualidade de causa primeira, comum e universal. Isto significa que é na qualidade de causa primeira, comum e universal que ele conhece as coisas. Mas isto significa que ele conhece as coisas, portanto, em sua generalidade, e não na individualidade concreta de cada existência. Assim, o argumento conclui que Deus não tem um conhecimento próprio, concreto e individual de cada ser distinto dele mesmo.
O segundo argumento parte da transcendência radical de Deus, para afirmar sua distância com relação à concretude e individualidade das coisas criadas. O argumento começa afirmando que a essência das criaturas estão a uma distância infinita da essência de Deus, e a recíproca também é verdadeira. Se pela essência da criatura não se pode conhecer nada da essência divina, o argumento conclui que a essência divina tampouco pode saber qualquer coisa da quididade das coisas criadas. É que, segundo foi visto no artigo anterior, Deus conhece todas as coisas pelo conhecimento da sua própria essência. Dado, no entanto, a distância infinita entre a essência divina e as quididades criadas, fica claro, para o argumento, que nada pode ser visto, na essência divina, a respeito da concretude de cada ser criado, em sua própria quididade. Assim, o argumento conclui que Deus não pode conhecer as coisas individualmente, de modo próprio.
O terceiro argumento vai na mesma linha: não se pode conceber que duas coisas compartilhem da única e mesma essência. Ora, se Deus conhece todas as coisas através da contemplação de sua própria essência, e se é impossível que sua essência seja concretamente a essência das coisas criadas, daí decorre, segundo o argumento, que Deus não sabe nada a respeito das coisas individualmente, porque não vê as suas essências próprias.
No argumento sed contra, ele traz uma citação bíblica: Hb. 4, 12. Após afirmar que conhecer uma coisa propriamente é conhecê-las na concretude de sua individualidade, o argumento diz que, segundo o trecho citado da Carta aos Hebreus, é exatamente até aí, até a concretude das coisas individuais, que chega o conhecimento de Deus: “A palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes: penetra até dividir alma e espírito, junturas e medulas. Ele julga as disposições e intenções dos corações.” Não há como imaginar, portanto, segundo este argumento, que alguma criatura possa estar encoberta à presença de Deus.
Na sua resposta sintetizadora, São Tomás inicia logo negando a afirmação – procedente da filosofia grega – de que Deus tem apenas um conhecimento geral das coisas, mas não as conhece individualmente. De fato, a ideia grega clássica de deus o coloca fora de qualquer contato com a matéria, princípio de individuação. A matéria seria a própria incognoscibilidade, mesmo para Deus. Assim, Deus não poderia conhecer as coisas individualmente, porque as coisas, em sua materialidade, seriam indignas do conhecimento divino. Esta visão deísta chegou, de certa forma e em certos meios, aos nossos tempos. E defende que Deus pode até existir, mas não tem nada a ver com os negócios deste mundo, que não interessam a ele, em sua transcendência orgulhosa e arrogante. São Tomás até dá um exemplo de como se chega a esta conclusão errada: ele nos conta que eles pensam assim: se o fogo conhecesse perfeitamente o princípio do seu próprio calor, ele conheceria a natureza do próprio calor, e poderia conhecer o que há de quente em todas as coisas. Assim, se Deus conhece perfeitamente a si mesmo, e sua essência é o ser, então ele conhece o ser de todas as coisas, mas não a sua existência concreta, material, individual. Mas este não é o Deus cristão, o Deus verdadeiro.
De fato, São Tomás explicará que conhecer apenas de modo geral, abstrato, é conhecer de modo imperfeito; de fato, quando conhecemos as coisas de modo geral, abstrato, conhecemos como que de longe, de modo incompleto. É um passo intermediário no caminho da nossa inteligência: primeiro, não sabemos nada a respeito de alguma coisa. Depois, podemos ter dela certa noção geral, abstrata, como alguém que tivesse toda a informação científica sobre a maçã sem nunca tê-la efetivamente visto, provado ou tocado. Este é, segundo São Tomás, a metade do caminho entre a potência intelectiva, que é a ignorância completa, e o conhecimento perfeito, que é o conhecimento próprio, pessoal, individualizado, das coisas. Não é, pois, um conhecimento adequado para Deus, porque é imperfeito, e em Deus não há imperfeição.
Assim, se compreendemos a perfeição de Deus, temos que admitir também a completude do seu conhecimento sobre as coisas que criou e sustenta. Não simplesmente o conhecimento genérico e abstrato que, digamos, um cientista tem sobre coisas que nunca viu, mas das quais colecionou toda a informação possível na sua biblioteca e no seu computador. Mas aquele conhecimento do artista que contempla sua obra, na qual toda a sua intencionalidade está contida em cada pequeno gesto, em cada detalhezinho.
Continuaremos a tratar disto no próximo texto.
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