Sim, Deus conhece seres diferentes de si mesmo. É a resposta enérgica de São Tomás ao questionamento colocado na hipótese controvertida, aqui debatida. Mas o seu conhecer é, como falamos no texto anterior, como o daquele maestro compositor, que conhece sua música em seu coração muito antes de escrevê-la e executá-la. Não é a execução da música que provoca o conhecimento no compositor, mas antes é o conhecimento que ele tem da música composta que permite a sua execução.
Esta analogia é muito limitada. É necessário, para conhecer mais adequadamente o assunto, examinar mais detidamente a linha de raciocínio que São Tomás desenvolve aqui, que é muito interessante e profunda.
A primeira premissa, da qual todo o raciocínio de São Tomás será desenvolvido, é a de que Deus conhece perfeitamente a si mesmo. A perfeição do seu inteligir, como vimos no artigo anterior, é a própria perfeição do seu ser, portanto é absoluta. Os fundamentos desta premissa já foram devidamente estabelecidos nos textos anteriores. Agora cabe-nos explorar suas consequências.
Conhecer-se completa, perfeita e absolutamente significa conhecer toda a extensão do próprio ser, e também toda extensão do próprio poder. Já sabemos, do estudo das questões anteriores, que o poder de Deus é causa primeira de todos os seres. O que quer dizer isto? Quer dizer que, em última instância, a criaturalidade do universo significa que todas as coisas que existem têm a sua origem no poder de Deus. Uma vez que Deus conhece perfeitamente o seu poder, ele conhece necessariamente tudo aquilo que o seu poder causa; se o conhecer de Deus é o seu próprio ser, e o seu poder causa aquilo que preexiste em sua inteligência. Ou seja, tudo aquilo de que Deus, como Criador, é causa primeira, está em seu intelecto, que é seu ser, como coisa conhecida. E neste caso ele conhece em si mesmo todas as coisas. Que existem como inteligibilidade em Deus antes mesmo de existirem como criaturas. Como o nosso compositor conhece sua sinfonia em si mesmo, completamente, antes inclusive que ela venha a ser colocada por escrito no papel.
Mas o modo de existir da sinfonia, enquanto está na mente do compositor, é diferente do modo de existir que ela tem quando é executada pela orquestra. É isto que São Tomás nos está explicando quando nos diz que “tudo quanto existe em outro ser, existe aí ao modo próprio deste outro”. A sinfonia, na mente do velho Maestro, existe como inspiração e estrutura inteligível, não como vibração sonora. De modo analógico, as coisas existem previamente em Deus como inteligibilidade, não como concretude criatural. É muito interessante imaginar que todas as criaturas estão em Deus, como inteligibilidade plena, antes mesmo de existirem como criaturas. Nós também, seres humanos, fomos completamente pensados por Deus na eternidade, muito antes de nascermos.
E São Tomás nos explica que uma coisa pode ser conhecida em nós de duas maneiras: ou ela própria se dá ao nosso conhecimento e gera em nós a perfeição de assimilar sua species, atualizando nosso intelecto, ou conhecemos a coisa indiretamente, porque vemos sua imagem, digamos, num espelho. Neste caso, é a imagem no espelho, ou a sua descrição num livro, por exemplo, que causa nosso conhecimento, não a interpelação que nos faz a coisa em si.
O conhecimento que Deus tem da criação, segundo São Tomás, pode ser descrito de certa forma como este conhecimento indireto, já que não é a coisa, a contemplação da própria criatura, que causa em Deus o conhecimento; é contemplando a inteligibilidade da coisa em si mesmo que ele a conhece. Assim, Deus vê tudo, toda a Criação, em sua própria essência, que contém de modo originário a species (similitudinem) das coisas que existem.
Mas não nos deixemos influenciar pela metáfora do espelho: a essência de Deus não é como o espelho no qual as coisas se refletem e causam o conhecimento em Deus, como se ele fosse menos do que nós, e apenas olhasse para o mundo de soslaio, mediado por sua própria essência, condenado a nunca ver diretamente as coisas. Ao contrário, uma vez que a essência de Deus é a própria origem da inteligibilidade das coisas, ao contemplá-las em si mesmo Deus as conhece de modo infinitamente mais profundo e direto do que nós; ele as conhece assim como ele as quer, e elas são, por causa do seu poder, conforme o seu conhecimento. São as coisas, portanto, que dependem do conhecimento que Deus tem delas em si mesmo para serem causadas e inteligíveis, e não o contrário.
São Tomás passa então a responder às objeções iniciais. A primeira objeção cita Santo Agostinho para declarar que “Deus nada vê fora de si mesmo”, e negar, a partir daí, que Deus conheça alguma coisa que seja distinta de si mesmo. São Tomás responderá dizendo que esta frase de Santo agostinho não deve ser compreendida como se Deus não conhecesse nada do que lhe é exterior, mas apenas no sentido de que ele vê todas as coisas em si mesmo, como foi explicado acima.
A segunda objeção lembra que, no processo de conhecimento, a coisa conhecida é que dá ao conhecedor a perfeição consistente em assimilá-la, ou seja, é o conhecido que causa a perfeição do conhecedor. Mas Deus é absolutamente perfeito em si mesmo, de uma perfeição que não é nem pode ser causada, mas originária e absoluta. Por isto, a objeção nega que Deus possa conhecer alguma coisa fora de si mesmo, porque, neste caso, sua perfeição estaria em alguma coisa que não em si mesmo. São Tomás responde dando mais uma aula de sua teoria do conhecimento; ele nos explica que, de fato, a coisa conhecida é a perfeição do conhecedor. Mas não em si mesma, senão pela species dela, que está no espírito do conhecedor. E são Tomás cita Aristóteles para nos explicar que quando nós conhecemos uma pedra, não é a própria pedra, mas a sua similitude, sua species, que passa a existir em nossa alma, de modo abstrato, espiritual. Uma coisa, para as coisas a serem conhecidas, é o modo de existir no mundo; outra, o modo de existir no intelecto de quem conhece, embora nos dois casos tratemos de uma e mesma coisa. Assim, estas coisas estão no intelecto de Deus porque ele tem a species delas em si, como inteligibilidade plena que causa a existência da própria coisa e sua inteligibilidade, e não como um conhecimento que é causado pela inteligibilidade da coisa. Assim, a perfeição do intelecto divino não é causada pela coisa, mas está em si mesmo e é causa da perfeição de inteligibilidade que a própria coisa tem.
A terceira objeção parte de que o objeto de conhecimento é que especifica o conhecedor. Ora, o argumento então nos diz que é próprio de Deus ser perfeição absoluta; assim, o único objeto de conhecimento proporcionado a Deus seria ele próprio. Em resumo, as coisas criadas não seriam dignas de ser objeto de conhecimento para Deus. São Tomás responde que quem conhece alguma coisa através de outra, é especificado por aquilo que é conhecido de modo principal, não por aquilo que neste se conhece. Como compreender esta afirmação de São Tomás, tão profunda e importante, que nos revela uma realidade a que pouco prestamos atenção?
Vamos imaginar o seguinte: eu vejo um pequeno pedaço de metal retorcido, não sei o que ele é. Mas em seguida eu vejo uma belíssima casa, muito perfeita, e reparo que aquele pedaço de metal, tão estranho, era a maçaneta da porta, e que ali, e só ali no seu lugar adequado, ele adquire todo o seu sentido. Assim, o meu intelecto conhece diretamente a casa, e é pela casa que o meu conhecimento é especificado. Na casa, ele conhece cada mínimo detalhe, cada objeto incorporado, que toma seu sentido pela pertença à casa. Estas pequenas coisas são conhecidas por mim como parte da casa, não em si mesmas – já que em si mesmas elas podem nem fazer sentido.
Assim é que o conhecimento de Deus é especificado pelo seu próprio intelecto, que é a sua própria essência. Na sua essência estão contidas as razões de todas as coisas que existem, e é como contidas em seu intelecto que o ato de conhecer divino é especificado pelas coisas. Portanto, por um lado, não é por algo menos nobre que ele próprio que ele é especificado, e a falta de nobreza das coisas, quando comparadas com o próprio intelecto divino, não é razão para que ele não as conheça, porque as conhece como estão em si mesmo. Por outro lado, como aquele pedacinho de metal retorcido só fez pleno sentido para mim quando descobri que ele era uma bela maçaneta de uma casa harmoniosa, toda a criação adquire seu pleno sentido quando devidamente compreendida por Deus em seu ser maravilhoso, que revela a plenitude de seu plano maravilhoso para a criação inteira, e o significado de cada pequena coisa se revela justamente aí. Ao especificar a si mesmo em seu ato de conhecer, Deus especifica, de modo perfeito, o significado da inteligibilidade de cada coisa em si mesma. A rigor, portanto, Deus não é um espelho que reflete o sentido das coisas; as coisas, a criação é um espelho que reflete o sentido que as coisas têm em Deus. Esta contemplação maravilhosa que São Tomás faz, reunindo harmoniosamente o instrumental platônico e o instrumental aristotélico para falar daquilo que, em si mesmo, ultrapassa infinitamente a capacidade de expressão da linguagem humana, é um daqueles detalhes da Suma capazes de emocionar quem o lê com o devido respeito e atenção.
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