No texto anterior, estudamos a questão difícil de saber se, em Deus, o seu conhecimento é idêntico à sua substância. E vimos que São Tomás começa sua resposta sintetizadora afirmando categoricamente que sim. Vamos tentar compreender porque ele diz que é assim.

A explicação de São Tomás era muito clara para os leitores de sua época, familiarizados, pelo menos num grau introdutório, com o modo escolástico de pensar. Para nós, parece um jargão filosófico árido e difícil de penetrar. Para nós, demandará um pouco mais de esforço.

Já vimos como funciona o processo de aprendizado humano. Temos um intelecto em potência para aprender, isto é, capaz de aprender mas ainda ignorante. As coisas que existem no mundo são, em si mesmo, inteligíveis em potência, ou seja, são capazes de ser assimiladas por um intelecto. Estas coisas interpelam aquele ser capaz de conhecê-las, e no processo de aprendizagem o intelecto que conhece, graças à inteligibilidade da coisa, caminha do estado de ignorância ao estado de conhecimento em ato, que representa seu aperfeiçoamento. Pode-se dizer, portanto, que a coisa que interpela o ser inteligente move-o para o ato, e portanto para a própria perfeição, pela inteligibilidade que ela contém e que move a inteligência que a assimila e, no processo, aprende.

Mas em Deus as coisas não são assim. Deus não aprende, ou seja, não se pode admitir que o intelecto de Deus esteja, de qualquer modo, em potência para o conhecimento de qualquer coisa, e que venha a conhecê-la depois por um processo qualquer de aprendizagem. Se fosse assim, haveria em Deus alguma ignorância, alguma imperfeição cujo ato e perfeição estaria em outra coisa, justamente naquela coisa que interpelasse a Deus e se deixasse conhecer por ele, aperfeiçoando-o. Neste caso, a perfeição de Deus estaria na inteligibilidade desta coisa externa a ele mesmo, e nele haveria uma imperfeição; a essência divina seria então a potência para o ato de conhecimento que decorreria da inteligibilidade de alguma coisa externa a Deus. Não pode ser assim: para ser Deus, ele tem que ser perfeito e completamente atual. Sabemos que Deus conhece. Vimos isto nos debates dos artigos anteriores. Agora, São Tomás nos mostra que seria impossível imaginar que Deus aprenda. Aprender é um processo criatural. Deus simplesmente sabe. E como veremos adiante, o saber de Deus é que gera a inteligibilidade das coisas, e não o contrário.

São Tomás nos lembra que, para entender isto, precisamos nos lembrar de que o ato de conhecer não é transeunte, ou seja, não é um ato que se inicia no sujeito e termina fora dele, como, por exemplo, o ato de esculpir ou de pintar. O ato de conhecer é imanente ao sujeito que conhece, quer dizer, começa e permanece nele como seu ato e perfeição, sem modificar o mundo exterior. Como já estudamos na teoria tomista do conhecimento, conhecer,, para nós humanos, é assimilar formas em nosso espírito – ou mais precisamente assimilar a species da coisa conhecida, que, a rigor, é mais que simplesmente a sua forma: é a assimilação da sua essência, da sua quididade, como diziam os antigos. E o espírito do ser humano que conhece alguma coisa torna-se, de certo modo, a coisa conhecida. É por isto que São Tomás não cansa de citar Aristóteles, afirmando que o espírito humano, quando conhece, torna-se de certo modo todas as coisas. Isto significa duas coisas: 1. Nosso espírito precisa do contato com o mundo para aperfeiçoar-se, já que a perfeição do conhecimento vem em assimilar ao meu espírito a species das coisas que me interpelam, e que eu venho a conhecer. É a cognoscibilidade das coisas que leva ao ato as potências de conhecer que estão em mim. 2. A minha perfeição vai sendo construída a partir do que está fora de mim mesmo.

Se isto é assim, então não posso imaginar que conhecer, para Deus, seja algo similar ao que significa conhecer, para mim. Deus é a perfeição plena em si mesmo, então não há como imaginar que é a cognoscibilidade das coisas que trará a perfeição ao conhecimento de Deus. Se em nós conhecer é assimilar as formas que estão fora de nós, e de certo modo nós nos tornamos aquilo que conhecemos, não podemos imaginar que Deus assimile formas que estão fora dele como meio para a sua própria perfeição. Neste sentido, podemos afirmar, com São Tomás, que aprender, ou seja, assimilar formas que não são a sua própria forma substancial, é uma característica própria da inteligência humana. Deus não aprende, porque em Deus não se pode imaginar que ele venha a adquirir ou possuir alguma forma diferente do seu próprio ser. A forma de Deus é seu próprio existir; sendo ele simples por excelência, não se pode imaginar nele alguma forma que não seja a sua própria existência. Daí decorrem duas consequências:

1. A perfeição de Deus não pode advir da assimilação da forma das coisas cognoscíveis. Se admitíssemos isto, teríamos que admitir que as coisas, as criaturas, acrescentam perfeição a Deus quando são conhecidas por ele. Se aprender é assimilar a species das coisas conhecidas, e conhecê-las, em nós, é algo que é sempre posterior ao nosso contato com a coisa conhecida, e por ela causado, então não podemos aplicar a Deus a noção de aprendizagem.

2. Se a perfeição de Deus é a sua própria forma, então sua essência é a única species do seu conhecimento, o que determina, dada a simplicidade de Deus, que nele inteligir e ser inteligido é um único ato, idêntico à sua própria essência e impossível de ser descrito em termos de processo.

Que poderíamos dizer a partir daí? Estamos nos apressando, aqui, mais do que o próprio São Tomás, mas nos artigos posteriores ele vai nos ensinar que, em nós, o conhecimento é um processo que ocorre em consequência do contato entre a nossa inteligência e a inteligibilidade das coisas. Para nós, portanto, conhecer é uma consequência da inteligibilidade do mundo. Em Deus é o contrário; a inteligibilidade do mundo é uma consequência do conhecimento absoluto, permanente e essencial que Deus tem de si mesmo. E esta conclusão nos mostra como é grave esquecer deste fundamento da teoria do conhecimento tomista: sem isto, a criação torna-se opaca e nosso conhecimento torna-se artificial. É certo que não podemos cair num intelectualismo frio e estéril que levou certa parte da escolástica tardia a prescindir do empirismo e querer deduzir a realidade criada a partir da especulação sobre o intelecto de Deus, numa espécie de hegelianismo precoce; este caminho talvez esteja aberto para os anjos, mas não para o intelecto humano. Mas também não podemos simplesmente negar a relação entre o conhecimento fundante que Deus tem sobre a criação, por um lado, e a inteligibilidade intrínseca da criação como base para o nosso próprio conhecimento, por outro. Fazer isto é cair num nominalismo que transforma todo conhecer numa construção artificiosa e num jogo de poder e dominação. E, no extremo, conduzir o ser humano ao niilismo. É engraçado como o nosso mundo contemporâneo não conseguiu escapar destes dois desvios, e nossos teóricos do conhecimento irremediavelmente caem num ou noutro, e estabelecem uma confrontação com o lado oposto como se não houvesse uma terceira – e verdadeira – via média capaz de sintetizar os caminhos. Como diz a Constituição Gaudium et Spes, § 36, “sem Deus a própria criatura se obscurece”.

Neste sentido, enquanto nosso conhecimento nos multiplica em species e formas, acrescendo intencionalmente as formas conhecidas à nossa própria forma substancial, em Deus conhecer não causa nenhuma multiplicidade. Ele continua simples e perfeito, e sua perfeição e simplicidade são o fundamento de consistência da pluralidade e incompletude da criação.

Perdoem-nos as digressões. Vamos nos voltar agora para as respostas de São Tomás às objeções iniciais. A primeira objeção é aquela que diz que conhecer é uma operação; portanto ela é algo que procede de uma substância, e portanto não pode ser idêntica à própria substância da qual procede. Então a objeção nega que, em Deus, o conhecimento seja idêntico à sua própria substância. São Tomás responde simplesmente afirmando que a operação de conhecimento não é transeunte, mas imanente. Ou seja, começa e termina naquele que conhece. Se é assim, não há nenhuma contradição em admitir que, em Deus, o conhecer é idêntico à sua substância.

A nossa contemporaneidade tem dificuldades em admitir algo como um conhecimento imanente, contemplativo. Toda a nossa educação está fundamentada na noção de que o conhecimento é sempre algo construído, em sua origem, e prático em seu fim. Nossa educação atual não tem dimensões contemplativas, e mesmo as refuta e nega. E desconfia delas como mero encobrimento ideológico. Somos educados para o pensar, para o questionar, para o criticar, para o construir e para o fazer. Mas não temos nenhuma pista do que é contemplar. E ainda duvidamos – e somos treinados para duvidar – de que possa existir algo assim, e denunciamos os que propõem esta dimensão, classificando-os de alienadores e irracionalistas. Mas se São Tomás – e com ele toda a boa tradição grega e medieval – estiverem certos, os verdadeiros alienados (no sentido de irremediavelmente cortados do contato com a realidade) somos nós.

A segunda objeção nega que o conhecimento, em Deus, seja a sua própria substância pelo argumento da reflexão. Ele diz que quando conhecemos pela reflexão nosso próprio ato de conhecer, o mais importante continua sendo o ato de conhecer, e o ato de refletir é apenas secundário e acessório com relação a ele. Assim, se em Deus o conhecimento fosse a sua própria substância, conhecer Deus seria como refletir sobre o conhecimento que Deus tem, e portanto seria algo secundário e acessório. São Tomás vai explicar que aqui reside uma diferença essencial entre o nosso modo de conhecer e o modo divino de conhecer. Em nós o conhecer é algo acidental e acessório com relação à nossa própria substância. Assim, refletir sobre nosso conhecimento é algo secundário que versa sobre algo acidental, e por isto é um fato de escasso valor. Mas, se, em Deus, o conhecimento é substancial, refletir sobre o conhecimento divino é refletir sobre a própria substância divina, e é o que de mais importante e elevado podemos fazer.

A terceira objeção tenta demonstrar que o conhecimento de Deus não pode ser substancial com uma argumentação de “redução ao absurdo”, consistente numa regressão ao infinito: todo ato de conhecimento consiste em conhecer alguma coisa, diz o argumento. Se o conhecimento de Deus consiste em conhecer a si mesmo, e se Deus não é outra coisa que seu próprio ato de conhecer, então ele conhece que conhece a si mesmo, e conhece que conhece que conhece a si mesmo, e assim iríamos até o infinito, segundo este argumento, caso admitíssemos que o conhecimento de Deus é substancial. São Tomás nos dirá simplesmente que esta regressão não existe, se admitirmos que o conhecimento de Deus é seu próprio ser, e por isto não difere essencialmente daquilo que Deus é.

A falha de raciocínio aqui, segundo São Tomás, e que o conhecimento de Deus não envolve nenhum tipo de composição: nem o que conhece é outro com relação ao que é conhecido, nem vice-versa. O que conhece é a substância de Deus, e o que ela conhece é a própria substância de Deus. Para que houvesse uma regressão ao infinito, seria necessário que o conhecimento de Deus fosse diferente daquilo que é conhecido, de modo a permitir uma reflexão sobre esta alteridade. Refletir, pois, é uma característica própria da imperfeição do modo humano de conhecer, que não se aplica ao modo perfeito de conhecer de Deus. Deus conhece. Aprender e refletir são duas características próprias de quem tem um intelecto que caminha da incompletude, da imperfeição, até a perfeição, no encontro com seu objeto. Mas Deus não é assim. O conhecimento completo de si mesmo que ele tem é total, permanente, eterno e perfeito, e não implica nenhuma alteridade entre o conhecedor e o objeto de conhecimento. Como estamos vendo aqui, Deus conhece, no sentido mais próprio da palavra. Mas ele não aprende. Nem reflete.