Às vezes São Tomás tem um modo que nos parece preciosista e lento, e enredado de questões pouco práticas. Mas isto ocorre porque temos um modo muito diferente de explorar o conhecimento, de adquiri-lo, que ele. Nosso método é muito mais empírico e direto, e visa a dominação do objeto pelo sujeito do conhecimento. O método de São Tomás, muito mais contemplativo e indireto, não se pauta por nenhum tipo de pragmática e não visa o domínio do seu objeto, mas a união com ele. Aprender, para São Tomás, é tornar-se mais perfeito, mais virtuoso, mais próximo de Deus. Para nós é tornar-se mais hábil, mais competente, mais eficaz. É por isto que, enquanto insistimos, hoje em dia, que aquele conhecimento que não é capaz de transformar-se em algum fazer prático não tem nenhum valor, para São Tomas o conhecimento é uma atividade que se inicia e termina no próprio sujeito. E na busca de contemplar o conhecimento de Deus, São Tomás nos trará até uma compreensão mais profunda e matizada a respeito da própria forma humana de conhecer. Eis a forma de conhecer de Tomás: para conhecer o ser humano, ele busca contemplar e conhecer mais profundamente a Deus, e, através do contraste, conheceremos melhor a nós mesmos. Não é à toa que a famosa inscrição “conhece-te a ti mesmo”, que pautou o procedimento filosófico de Sócrates e, com ele, toda a grande filosofia grega, estava localizada no Templo de Apolo. A teologia de São Tomás, e por consequência, a grande teologia cristã como guardada e estudada pela Igreja, é o humanismo mais perfeito que se pode conceber.

É, me parece, a grande linha a ser seguida no debate proposto aqui neste artigo. O que é exatamente “conhecer”, para Deus? Em nós, conhecer é um processo que inicia pela interpelação que o mundo nos faz, passa por um processo de aquisição da “species”, ou seja, das formas sensoriais através dos nossos sentidos e termina por um processo de abstração que nos leva a assimilar a species, a similitude, da coisa conhecida, levando ao ato o nosso potencial de conhecer. Trata-se, pois, de uma operação que pode ser descrita como um grande processo de aperfeiçoamento pessoal, que nos torna possuidores da coisa conhecida pela sua assimilação em nossa inteligência. Mas não é um processo substancial, em nós. Conhecer, humanamente falando, é estabelecer uma relação entre o nosso intelecto e a coisa conhecida, ou seja, é algo estritamente acidental, para o ser humano.

E para Deus? Não há potências, imperfeições, nem processos, nem acidentes em Deus. Como se pode conceber, então, que ele conheça alguma coisa? Como é esse conhecimento, e em que ele difere do nosso? Em que medida podemos conceber o conhecimento de Deus em analogia com o nosso, e em que medida o nosso é analogia do dele? Como pode ser que Deus, sendo simples, incorpore em sua essência mesma aquilo que em nós é acidental? Como pode ser completamente atual em Deus aquilo que em nós é sempre processual? Caminhar neste artigo, portanto, vai nos dar parâmetros, referências para compreender que, quando falamos do conhecimento humano como processual, acidental e aperfeiçoador, estamos sempre pensando, ainda que implicitamente, em comparação com Deus, em quem o conhecimento é substancial, atual, eterno e simples. Por ter perdido esta referência, a humanidade talvez tenha perdido a possibilidade de compreender adequadamente o referido, sem possuir mais o referente. Não é à toa que a Constituição “Gaudium et Spes”, do Concílio Vaticano II, nos lembre, no seu parágrafo 36, que “sem Deus a própria criatura se obscurece”.

Para possibilitar todo este debate, que vai nos esclarecer tanto não somente a respeito de Deus, e de como evitar concepções antropomórficas dele, purificando sempre nossa contemplação, mas também a respeito da própria razão humana e suas características fundamentais, São Tomás vai propor a seguinte hipótese controvertida, para dar origem ao debate: “parece que o conhecer de Deus não é sua própria substância”. E em defesa desta hipótese, apresentará três argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor conceitua o conhecer como uma “operação”. Uma operação é sempre uma atividade. Uma atividade sempre procede de um ser que é ativo. Ora, o argumento prossegue assim: se é algo que procede, ativamente, de Deus, o seu conhecimento não pode ser considerado como idêntico à sua própria substância. Assim, o argumento conclui que o conhecer de Deus não é, nem pode ser, a sua própria substância.

O segundo argumento parte de uma analogia: nós conhecemos o nosso próprio intelecto pela reflexão, como já debatemos em artigos anteriores. Mas quando refletimos sobre nosso intelecto, no seu ato de conhecer, e o conhecemos, estamos fazendo uma operação que é acessória com relação ao próprio ato de conhecer. O que o argumento quer dizer é que, digamos, quando conhecemos uma pedra e, no ato de conhecer a pedra, refletimos sobre o nosso processo de aprendizagem da pedra, na verdade o que importa primariamente aí é o conhecimento sobre a pedra, e não o conhecimento sobre o processo humano de conhecer, que é sempre acidental e acessório com relação ao próprio conhecimento humano. E o argumento prossegue: se Deus é o seu próprio ato de conhecer, então quando o ser humano busca conhecer Deus, o ser humano apenas adquire um conhecimento sobre um ato de conhecer. Mas se o conhecimento sobre o ato de conhecer é sempre acidental e acessório com relação ao próprio conhecer, então o conhecimento sobre Deus, como o conhecimento reflexivo sobre o ato de conhecer humano, é algo meramente acidental e acessório, desimportante portanto. Então, se Deus fosse substancialmente o seu próprio ato de conhecer, o conhecimento que adquiríssemos sobre Deus não seria algo grande, mas secundário, acessório e menos importante. O argumento quer nos mostrar, então, que a conclusão a que chegaríamos adotando a noção de que em Deus o conhecimento é substancial seria absurda, o que leva o argumento a concluir que Deus não pode ser substancialmente o seu próprio conhecimento.

O terceiro argumento também busca reduzir ao absurdo o argumento. E prossegue assim: se Deus é seu próprio conhecimento, quando ele reflete sobre si mesmo ele conhece que conhece, e quando percebe que conhece o seu próprio conhecer, ele conhece que conhece o seu conhecer, e assim até o infinito. Mas como a regressão ao infinito é, para o argumento, uma conclusão absurda, então ele conclui que Deus não pode ser substancialmente o seu próprio conhecimento.

Como argumento sed contra, São Tomás trará uma citação de Santo Agostinho: “Para Deus, ser é ser sábio”. Ser sábio é conhecer, pelo modo mais profundo da noção de conhecer. Então, segundo a citação agostiniana, o ser de Deus é idêntico à sua sabedoria. Mas o ser de Deus, conforme já estudamos antes, é a sua própria substância. Logo, o argumento sed contra conclui que o conhecimento de Deus é idêntico à sua substância.

Na sua resposta sintetizadora, São Tomás afirma de logo que o conhecimento de Deus é sua própria substância. Aprofundaremos isto no próximo texto.