Vimos, no artigo anterior, de que modo podemos dizer que o autoconhecimento de Deus é perfeito. Aqui, o problema é um tanto complementar: conhecendo-se a si mesmo tão perfeitamente, Deus compreende-se plenamente?
A palavra “compreender” tem, aqui, mais de um sentido. Tanto significa aquele conhecimento que esgota a inteligibilidade de algo, quanto significa aquele que é capaz de estar totalmente presente a si mesmo, conter-se, ver-se e ter a si mesmo em perfeita harmonia. Não ter sombras para si mesmo, não ter nenhum “subconsciente” ou “inconsciente” no sentido psicanalítico, bem como ter total domínio e responsabilidade por si, sendo incapaz de surpreender-se em descontrole ou deixar-se mover ou desordenar-se de qualquer modo.
Como já se podia prever, a hipótese controvertida que São Tomás nos traz aqui para provocar o debate é a de que “Deus não compreende a si mesmo”. São apenas dois argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento é uma citação de Santo Agostinho, e parte da noção de finitude como limite, no sentido de plena inteligibilidade. De fato, para a filosofia grega, algo era ilimitado na medida que fosse imperfeito, incompleto, aberto, ininteligível. A perfeição traria a completude, estabelecendo os limites capazes de permitir a completa inteligibilidade de algo. Assim, dizer que algo é plenamente compreensível significa afirmar que esta coisa tem limites, que pode ser completamente contido como objeto numa inteligência. É neste sentido que Santo Agostinho dirá: “quem compreende a si é finito para si mesmo”. O argumento completa: uma vez que Deus é infinito de todos os modos, ele não pode ser completamente compreensível nem para si mesmo, porque ele não pode ter limites. E disto o argumento conclui que Deus não pode compreender completamente a si mesmo.
O segundo argumento é um complemento ao primeiro. Ele imagina que alguém possa dizer: Deus é infinito para nós, mas é finito para si mesmo, no sentido de que ele pode compreender-se, chegar ao fim de si mesmo. Mas o argumento prossegue: se Deus for infinito para nós, mas finito para si mesmo, aquilo que ele é em si mesmo é mais real do que aquilo que ele é para nós; e então, diz o argumento, teríamos que admitir que Deus seria muito mais propriamente finito do que infinito, o que seria um absurdo. E disto o argumento conclui que Deus não pode compreender a si mesmo.
O argumento sed contra traz outra citação de Agostinho, que se encontra na mesma obra (Octoginta Trium Quaest.) em que o Padre da Igreja diz: “todo aquele que conhece a si mesmo compreende a si mesmo”. Logo, como ficou provado no artigo anterior que Deus conhece a si mesmo, o argumento conclui que Deus necessariamente compreende a si mesmo.
Na sua resposta sintetizadora, São Tomás já inicia afirmando que não há dúvida de que Deus compreende a si mesmo. E explica: diz-se que algo foi compreendido quando foi conhecido até o fim da sua cognoscibilidade, ou seja, quando teve sua inteligibilidade totalmente assimilada, de modo perfeito, pelo conhecedor. São Tomás nos dá um exemplo matemático; uma proposição pode ser conhecida por mim apenas por uma razão plausível, mas eu não a terei compreendido totalmente enquanto não for capaz de demonstrá-la completamente. De fato, por exemplo, eu posso conhecer o que é uma equação de segundo grau, e mesmo haver decorado a fórmula de Bhaskara, que é o método mais popular para resolvê-la. Mas se eu não consigo demonstrar matematicamente as razões pelas quais a fórmula de Bhaskara é capaz de solucionar a equação, e mesmo de explicar quais outros métodos existem para resolvê-la e por qual razão eles também são eficazes, eu, sem dúvida, posso até dizer que conheço; mas ainda não compreendi totalmente as equações de segundo grau, porque meu conhecimento não esgota o que elas têm de inteligível em si mesmas.
Como nós já estudamos, em especial no artigo anterior a este, algo é inteligível na medida que está em ato. Deus, sendo ato puro, é, portanto, totalmente inteligível. O que limita a inteligibilidade de alguma coisa é aquilo que nela é material, ou mesmo está em potência. Deus não tem matéria nem potências, logo não há limites à sua inteligibilidade.
Por outro lado, alguém pode dizer que compreende algo quando conhece perfeitamente aquilo, e portanto seu conhecimento daquilo está completamente em ato. Já vimos nos artigos anteriores que é próprio de Deus conhecer. Ora, se Deus é perfeito e ato puro, sua inteligência necessariamente tem que ser capaz de esgotar a atualidade da sua própria inteligibilidade. Então São Tomás pode concluir: é evidente que Deus conhece a si mesmo tanto quanto é cognoscível. Ou seja, Deus se compreende completamente.
Havendo estabelecido isto perfeitamente, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento é aquele que toma a finitude no sentido grego de inteligibilidade plena, como limite. E nega que Deus possa ser plenamente compreensível, mesmo para si, uma vez que ele não apresenta limites. São Tomás nos responderá conceituando a noção de compreender como “ter alguma coisa e incluir outra”. Ou seja, no caso do conhecimento que compreende, trata-se de ter um intelecto e receber nele completamente a coisa inteligida, por sua species, contendo totalmente no intelecto essa inteligibilidade.
Neste sentido, tudo o que é compreendido é necessariamente finito, porque deve ser contido por outra coisa. Mas, no caso do conhecimento divino, a palavra “compreender” não pode ter exatamente este sentido, porque eu não posso dizer que Deus “tenha” um intelecto que “contenha” a sua inteligibilidade. O intelecto de Deus, como veremos no próximo artigo, não é diferente de si mesmo, de tal forma que constituísse uma espécie de receptáculo que fosse preenchido pela sua inteligibilidade. Trata-se de uma noção mais propriamente negativa de compreensão: do mesmo modo que não ha, em Deus, nada fora da sua própria essência que lhe dê a existência (ou seja, tudo o que ele é, ele é em si mesmo, porque não há nada fora do próprio Deus que lhe possa servir de limite ao seu ser), também não há nada nele mesmo que possa estar oculto à sua inteligência. E São Tomás termina com mais uma citação de Santo Agostinho: “algo é completamente compreendido por quem vê quando é visto de tal modo que nada dela fique oculto àquele que a vê”.
A segunda objeção é aquela que diz que nem sequer se poderia dizer que Deus é infinito para nós mas é finito para si mesmo, no sentido de que ele seria capaz de esgotar a sua própria inteligibilidade para compreender-se, porque, neste caso, seria mais verdadeiro considerar que Deus é finito, pelo que ele é em si mesmo, do que tê-lo por infinito apenas porque ele é infinito para nós. São Tomás responde que, de fato, eu posso afirmar, em certo sentido, que Deus é finito para si mesmo, apenas num sentido analógico, por uma analogia de proporção: a inteligibilidade de Deus está para a sua inteligência assim como a inteligibilidade de um ser finito está para uma inteligência finita. Mas isto não significa que Deus seja finito para si mesmo no sentido de que se compreende como sendo em si mesmo algo finito. Neste sentido, a afirmação seria falsa.
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