Ao contrário das modernas teorias do conhecimento idealista, que partem cartesianamente do pensamento para chegar às coisas, ou melhor, para “construir” seu objeto, a teoria realista do conhecimento, como São Tomás a desenvolve, parte sempre da interpelação que as próprias coisas fazem a nós para chegar, por reflexão, ao próprio conhecimento e até ao conhecimento de que estamos conhecendo. Neste artigo, São Tomás traz uma das frases lapidares de sua teoria do conhecimento humano, no meio do terceiro argumento objetor: o nosso intelecto não pode compreender a si mesmo senão quando conhece outras coisas – é uma citação de Aristóteles. Podemos dizer que, para a teoria aristotélico-tomista, o homem, interpelado pelas coisas, conhece e reflete. Para a teoria contemporânea do conhecimento, o homem pensa e constrói objetos.
Mas, se é assim, como se poderia conceber que Deus conhecesse a si próprio? Em que medida Deus seria reflexivo? Como poderia refletir um ser que não pode fletir-se?
É esta a hipótese controvertida que São Tomás nos apresenta agora, para provocar o debate: Deus não conhece a si próprio. Parece uma hipótese desarrazoada, porque tendemos a imaginar que é tão óbvio que Deus se conheça, que não conseguimos entender como é que uma afirmação assim poderia de qualquer modo parecer plausível. O que seria um Deus sem autoconhecimento? Um Deus que se assemelhasse a um paciente freudiano, esquizofrênico, que fosse um estranho para si mesmo. A perfeição de Deus exige que o concebamos como um ser plenamente autoconhecido e autodominado, um ser sem subconsciente e sem sombras. A discussão provocada vai nos ajudar a perceber melhor a maneira pela qual Deus conhece e se conhece. Deus não precisa de psicanalista.
O primeiro argumento objetor parte exatamente desta ideia de que conhecer-se é, de algum modo, voltar-se sobre si mesmo de modo perfeito. Esta é a definição de autoconhecimento do chamado “Liber de Causis”, que São Tomás cita aqui. Mas, segundo este argumento, voltar-se implica um movimento, o movimento de sair e retornar, completamente inconveniente para Deus, que é imóvel e imutável. Assim, o argumento conclui que Deus não conhece a sua própria essência.
O segundo argumento parte da passividade que está implícita na noção de conhecer. Quem conhece de certa forma padece no encontro com o objeto de conhecimento, sofre a influência da coisa conhecida, para assimilá-la no próprio espírito. Neste sentido, a coisa conhecida torna aquele que conhece mais perfeito, porque move sua potência de conhecer ao ato. Mas como algo poderia mover a si mesmo, ou fazer padecer a si mesmo, ou assimilar a si mesmo? Teria que ser agente e paciente ao mesmo tempo, e sob o mesmo aspecto, o que implica contradição e portanto não seria possível nem para Deus. Logo, o argumento conclui que Deus não conhece a si mesmo.
O terceiro argumento é o da reflexão, que já comentamos acima. Ele inicia afirmando que nós, humanos, somos semelhantes a Deus. Logo, se apenas somos capazes de autoconhecimento quando somos interpelados pelas coisas e as conhecemos, e, no ato de conhecer, refletimos sobre o nosso próprio processo de conhecimento e apenas somos capazes de nos conhecer conhecendo, Deus, sendo semelhante a nós, teria que passar por um processo similar. Assim, o argumento conclui que Deus não pode conhecer a si mesmo, senão talvez apenas quando conhecesse outras coisas fora de si.
Uma digressão: para raiva dos cartesianos, Aristóteles, no livro “Sobre a Alma”, que São Tomás cita aqui, parece negar completamente a possibilidade de que o axioma de Descartes “penso, logo existo” possa ser realmente um ponto de partida, como Descartes quer. Se, para Aristóteles, todo autoconhecimento humano é a culminação de um processo de reflexão sobre o ato de conhecer uma outra coisa qualquer, então o autoconhecimento não pode ser um ponto de partida; é, na verdade, um ponto de chegada.
O argumento sed contra é escritural; em 1 Coríntios 2, 11, São Paulo afirma que “o que é de Deus ninguém conhece, senão o Espírito de Deus”. Logo, a Palavra nos garante que há autoconhecimento em Deus.
Na sua resposta sintetizadora, São Tomás garante que Deus conhece a si mesmo e por si mesmo, ou seja, seu autoconhecimento é pleno e direto, não reflexivo. E ele vai começar nos dando uma aula sobre a diferença entre as chamadas ações imanentes e transeuntes. Ações imanentes são aquelas que começam e findam no próprio sujeito, como é o conhecer. Outros, as ações transeuntes, iniciam-se no sujeito mas têm seu fim fora dele, como é a ação de construir ou de escrever. Assim, no caso do conhecimento, a ação é imanente, vale dizer, a formação do próprio conhecimento, com a atualização do conhecedor através da assimilação do que é conhecido se dá no interior do conhecedor e ali tem seu termo.
Neste sentido, posso dizer que no ato de conhecer, o objeto move ao ato sua potência de ser conhecido, e o intelecto informado pela coisa move ao ato sua potência de conhecer. Se tudo isto se dá no interior do ser que conhece, e se ali tem o seu termo, isto quer dizer que tanto o ato de conhecer quanto o ato de ser conhecido ocorrem no interior do intelecto e são como que as duas faces da mesma moeda: o ato de conhecer é este processo visto sob o prisma do sujeito do conhecimento, enquanto o ato de ser conhecido é o mesmo processo visto pelo lado do objeto. Pensemos numa coisa áspera: a sua aspereza somente se manifesta em ato ao meu tato, e o meu tato somente se informa em ato da aspereza da coisa ao tocá-la. Do mesmo modo, se eu contemplo um cão, uma só e a mesma coisa é o ato de ser conhecido, cujo objeto é o cão, e o ato de conhecer, cujo sujeito é o meu intelecto. Este é um realismo refletido, moderado, no sentido de que não é simplório, ingênuo, e considera o ato de conhecer em sua riqueza ontológica e gnoseológica. O filósofo Etienne Gilson chama esta teoria do conhecimento tomista de “realismo moderado”.
Pois bem; se isto tudo é verdade, e é o mesmo o ato de conhecer e o ato de ser conhecido, então o intelecto e o objeto só podem distinguir-se enquanto estão em potência: a aspereza da parede é apenas potencial enquanto eu não tocá-la; mas a capacidade do meu tato para perceber a aspereza também é apenas potencial, nesta situação. Quando toco a parede, um só é o ato de ser áspero e o ato de perceber a aspereza.
Deus é puro ato. Não há potências nele. Mas se não há distinção real entre o ato de conhecer e o ato de ser conhecido, e se Deus é puro ato e não tem potencialidades, então sua inteligibilidade é idêntica à sua inteligência, porque inteligência em ato e inteligibilidade em ato são uma coisa só, distintas apenas conceitualmente.
O nosso intelecto, quando está em potência para conhecer alguma coisa, está assim porque não tem em si nada atualmente presente como espécie inteligível. E, por outro lado, no nosso intelecto, as espécies inteligíveis são recebidas a partir das coisas, que estão fora do próprio intelecto. Mas uma vez que Deus é simples, e puro ato, sua inteligibilidade está sempre em ato, e portanto sua inteligência tem que estar sempre em ato para esta inteligibilidade também. É assim que Deus, como puro ato, é totalmente inteligente e inteligível no mesmo ato, conhecendo a si mesmo e por si mesmo, ou seja, conhece-se totalmente e diretamente.
Depois desta resposta tão completa, São Tomás passa a desfazer todo o antropomorfismo das objeções iniciais, deixando mais clara a noção de autoconhecimento completo e direto de Deus.
A primeira objeção é aquela que diz que autoconhecer-se é voltar-se para si mesmo; e como Deus não se move, seria impensável que ele voltasse para aquilo de que ele nunca saiu.
São Tomás nos explica que a forma das coisas materiais de certo modo se difunde na matéria que a concretiza, e neste sentido adquire sua perfeição e completude em outro. Mas quando ela própria é subsistente, como no caso dos anjos, que não são materiais, pode-se dizer que ela retorna sobre si mesma, porque encontra em si mesma a sua perfeição. Esta capacidade de ver-se, de retornar a si mesma, é a marca do que é espiritual. Os sentidos são incapazes de fletir-se a si mesmos, porque são materiais, e não há maneira de sua matéria ocupar o mesmo espeço que ela mesmo ocupa;. Assim, o olho não vê a si mesmo, o ouvido não ouve a si mesmo. Mas a inteligência, sendo imaterial, pode voltar-se sobre si mesma e contemplar-se inteligindo. Esta é uma experiência fácil para qualquer um de nós fazer: seu olho não se vê vendo, mas sua mente se contempla contemplando. Este retorno a si mesmo não é, portanto, uma volta, no sentido físico, mas um ver-se, no sentido espiritual. E neste sentido ele é ao máximo conveniente a Deus, que é espírito em grau máximo e auto subsistente por natureza.
O segundo argumento objetor é aquele que ressalta o lado passivo do conhecimento, que precisa ser movido pelo seu objeto para atualizar-se – o que é, segundo o argumento, inconveniente a Deus, que não tem potencialidades, é imóvel e imutável.
São Tomás vai nos ensinar que as palavras “passivo” e “movido”, aqui, não têm um significado unívoco quando aplicados ao conhecimento que nós, seres humanos, adquirimos das coisas, e o conhecimento que Deus tem de si mesmo. Na verdade, o sentido destes termos, nas duas situações, é equívoco. E por isto estes termos não podem simplesmente ser tomados a partir do modo humano de conhecimento para serem aplicados ao modo divino de autoconhecimento. No ser humano, o intelecto, antes de conhecer qualquer coisa, está como que vazio, em plena potencialidade, e é movido ao ato pela coisa que se apresenta para ser conhecida; esta coisa é cognoscível em potência, até interpelar o intelecto que a conhecerá, e então ela passa a ser cognoscível em ato . Em Deus, conhecer e ser conhecido são como que os dois lados do mesmo ato, que só se distinguem em nossa linguagem, pelo nosso modo imperfeito de falar sobre a perfeição de Deus. A perfeição da inteligibilidade, em Deus, é o mesmo ato que a perfeição da sua inteligência, vistos sob a razão da atividade e da passividade por nós. Mas não se trata de um processo de passagem de potência a ato, senão de uma expressão perfeita daquilo que, em si mesmo, já é ato pleno e puro.
A terceira objeção diz que nós, humanos, somente chegamos ao autoconhecimento por reflexão no próprio processo de conhecer; e aplica o mesmo princípio a Deus.
São Tomás dará, aqui, uma bela liçao sobre o processo humano de conhecimento, e de como ele não pode ser simplesmente aplicado a Deus para tentar compreendê-lo. Deus não é antropomorfo, embora o ser humano, com as devidas proporções, seja teomorfo – feito à imagem e semelhança de Deus. Mas temos que ter cuidado quando tentamos compreender Deus a partir do estudo de sua imagem, que somos nós. Mal comparando, é como tentar falar sobre um alienígena que você não conhece a partir, digamos, de sua imagem num espelho; isto tem seus riscos, como o de achar que o ser que gerou a imagem também é composta de vidro e metal, como o espelho que a reflete.
São Tomás vai resgatar as noções aristotélicas de matéria e forma. A matéria-prima, uma vez que é pura potência, é totalmente destituída de inteligibilidade. Para que ela seja inteligível, precisa receber em si alguma forma.
O nosso intelecto que recebe o conhecimento é, segundo São Tomás, como a matéria-prima na ordem da intelecção. Enquanto está vazio, não tem nenhuma inteligibilidade, como a matéria-prima não tem enquanto não recebe uma forma qualquer. Mas quando recebe alguma forma inteligível, no processo de conhecer o mundo que o interpela, ele se torna ato, e portanto se torna, ele mesmo, inteligível. Neste momento, este ser que intelige torna-se capaz de conhecer o próprio intelecto passivo que tem, que está em ato no processo de conhecer algo.
Por isto, poderíamos dizer assim: conheço, logo me conheço e percebo, por reflexão sobre o meu conhecimento gerado por algo fora de mim, que existo. Este axioma traz em si embutido não somente a pressuposição de que é a existência de tudo o mais que me leva a perceber a minha própria existência, como também pressupõe que é impossível partir de uma dúvida metódica para “esvaziar o intelecto” e concluir pelo cogito cartesiano. O conhecimento direto de si mesmo, de sua própria existência, só é possível para Deus. Sendo ato puro, ele é inteligível em ato e inteligente em ato, de forma total, completa e plena, por um só e mesmo ato. Então somente Deus poderia dizer de forma adequada que “penso, logo existo”. Descartes inicia seu procedimento filosófico, portanto, colocando seu próprio ego na posição de Deus.
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