Neste momento, encerramos nossa longa visita à primeira metade do Tratado Sobre Deus Uno, o que tratava da substância divina e do conhecimento que podemos ter sobre ele, e da maneira com que podemos falar dele. Foi um passeio bonito e muito minucioso nesta linda catedral tomista, que levou cerca de sete meses, mas foi bastante enriquecedor. Tenho uma sensação muito viva de caminhar em lugares que foram preparados para nós há séculos, e talvez desde então apenas visitados muito rapidamente, e por muito poucos. A Suma é um destes livros antigos que muita gente cita e pouquíssimos leem.
Agora, na segunda parte deste primeiro Tratado, debateremos com São Tomás sobre o que ele chama das operações de Deus. Ele começa nos ensinando que em todo sujeito há sempre operações que são imanentes e operações que são transeuntes. É necessário agora uma palavrinha inicial sobre esta distinção, que não é tão óbvia para nós. São Tomás diz que, em todos os seres, há operações que: 1) começam e terminam no próprio ente, chamadas “operações imanentes”; ou 2) produzem efeitos exteriores, chamadas “operações transeuntes”.
As operações imanentes em Deus são basicamente o conhecer de Deus e o querer de Deus. A sua operação transeunte é o poder de Deus, ou seja, aquilo em Deus que se considera como princípio dos efeitos exteriores.
Primeiro, estudaremos as operações imanentes. Por isto, a questão 14, que agora estudaremos, tratará do conhecimento (ou ciência) de Deus. A questão 19 tratará da vontade de Deus.
Com relação à ciência de Deus, nosso estudo se alongará desde esta questão 14 até a questão 18. A questão 14 discute a própria ciência de Deus, a questão 15 discute as ideias (ou formas) que estão em Deus, e com as quais ele conhece, a questão 16 debaterá o problema da verdade com relação ao conhecimento de Deus, a questão 17 desenvolverá, correlatamente, o problema da falsidade e, finalmente, uma vez que conhecer é viver, a questão 18 debaterá a própria vida de Deus, e em que sentido podemos dizer que Deus é vivo, e em que sentido esta mesma noção de vida se aplica às suas criaturas. E com isto todo o campo da ciência de Deus e suas características – as ideias, a verdade, a falsidade e a vida, ficarão cobertos.
A vontade de Deus será estudada nas questões 19 a 24, e envolve também o seu amor (questão 20), a sua justiça e a sua misericórdia (questão 21), sua providência e, consequentemente, o problema da predestinação e do Livro da Vida (questões 22, 23 e 24). Por fim, o poder de Deus – e consequentemente a sua felicidade – serão estudados nas questões 25 e 26.
Este é um verdadeiro roteiro para um estudo longo e aprofundado de temas caríssimos. Mais uma vez aqui, a nossa forma humana de inteligir leva-nos a dividir e a separar aquilo que, em Deus mesmo, apresenta-se de modo perfeitamente uno e integrado. Não nos esqueçamos de que estas divisões de São Tomás (como ele já explicou nas questões anteriores) respeitam ao modo com que conhecemos as coisas divinas, não ao que Deus é em si mesmo. O conhecimento que Deus tem da sua criação, ou seja, a sua ciência, não é causada, como a nossa, pelo encontro entre a inteligência divina e as criaturas. Ao contrário, é o conhecimento que há em Deus que dá origem à própria inteligibilidade que há nas criaturas. Por outro lado, não há separação entre aquilo que Deus quer e aquilo que ele pode, nem entre isto e aquilo que ele sabe. Muitos, belíssimos e profundos debates nos aguardam, que nos mergulharão numa realidade coerente, harmônica e feliz, teocêntrica é certo, mas principalmente fundamental para conhecer e garantir ao ser humano aquilo que o ser humano é, de onde ele vem e para onde ele vai. É um teocentrismo que presta um inestimável serviço antropológico, ao devolver tudo aos seus devidos lugares – especialmente o próprio ser humano.
Esta questão tem 16 artigos, que convidam ao debate calmo e profundo sobre a ciência de Deus. Ficaremos por aqui algum tempo, portanto.
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