Podemos construir proposições afirmativas sobre Deus? Vimos, no texto anterior, a hipótese negativa trazida por São Tomás para provocar o debate, que basicamente surge de uma superposição entre a esfera lógica e a esfera ontológica, bem típica da inteligência humana. Eram três as hipóteses objetoras: a primeira negava a própria possibilidade de conhecer consistentemente alguma coisa afirmativa sobre Deus; a segunda negava que se pudesse construir uma proposição afirmativa sobre uma forma estritamente simples, pela impossibilidade de predicar qualquer coisa de quem não tem em si nenhuma composição. A terceira pressupõe que qualquer concepção intelectual que seja diferente do objeto a que se refere é falsa. E conclui que qualquer proposição afirmativa sobre Deus traz em sua estrutura sintática alguma composição, e portanto difere do próprio Deus, que é simples. Como argumento sed contra, os artigos do credo que contêm diversas proposições afirmativas sobre Deus, tais como “Deus é uno e trino”, e que não pode conter falsidades, porque é lastro da fé.
Deixamos, no último texto, a questão nestas bases. Examinemos, agora, a resposta sintetizadora de São Tomás. Ele nos dará uma excelente aula de lógica, especialmente na parte relativa à construção de juízos pela nossa inteligência raciocinante, e a formulação de proposições que expressam tais juízos. A resposta de São Tomás começa logo afirmando categoricamente que sim, que podemos construir proposições afirmativas sobre Deus que sejam verdadeiras.
O que caracteriza exatamente uma proposição afirmativa verdadeira? São Tomás explica que uma proposição afirmativa verdadeira, o sujeito e o predicado sempre versam sobre a mesma coisa, realmente, e significam coisas diversas, conceitualmente. E não somente com relação a uma proposição em que se predica algum aspecto acidental ao sujeito, mas mesmo quando se predica algo substancialmente do sujeito. Ficou mesmo muito abstrato; é por isto que é bom exemplificar.
Vamos pegar dois exemplos: uma proposição em que: 1) se predica algo acidental ao sujeito, e outra em que 2) se predique algo substancial.
1) Uma proposição em que o predicado atribui um acidente ao sujeito: “aquele homem é branco”. Tanto o sujeito quanto o predicado, aqui, versam sobre a mesma coisa, um homem branco, que existe como uma coisa, um indivíduo, um supósito. No mundo das coisas, dos fatos, não há um ser humano e sua brancura caminhando por aí, de modo a serem juntados pelo falante numa mesma proposição. A proposição “este homem é branco” fala de um ser humano que tem em si mesmo o acidente da brancura, não como algo diverso de sua própria unidade ontológica, mas como algo que pode ser conceptualizado separadamente da sua essência humana. Ser um homem e ser branco não são dois seres realmente, mas são dois conceitos distintos que a minha razão pode atribuir a um único e mesmo ser, “homem branco”. É por isto que São Tomás nos diz que as proposições afirmativas significam a mesma coisa realmente, mas coisas distintas conceitualmente! A minha razão, por seu modo sucessivo e limitado de conhecer, separa conceitualmente o que é ontologicamente único, a fim de inteligir.
2) Mesmo quando eu construo uma proposição que atribui, digamos, a animalidade a um ser humano: quando eu digo “este homem é um animal”, atribuo a ele algo verdadeiro, porque ele substancialmente possui em si a natureza animal que o torna vivo e sensível. Mas não como algo ontologicamente diferente de sua substância humana, mas apenas conceitualmente diferente: é deste indivíduo humano aqui, em sua racionalidade animal, que eu estou predicando o “ser animal”. Não existe nele duas coisas, uma que é ser homem e outra que é ser animal, mas apenas um único supósito em quem eu posso distinguir racionalmente, conceitualmente, na sua humanidade, os elementos que tornam possível descrevê-lo como um animal.
Como funciona isto? São Tomás nos esclarece que, em ambos os casos, as proposições têm sujeito e predicado que apontam para o mesmo suposto, mas sob conceitualização distinta. Eu olho para o meu amigo Marcos e afirmo dele: “este homem é branco”, é do mesmo Marcos, na sua humanidade e na sua brancura, que eu estou falando. Tomás nos diz que, neste caso, o meu amigo Marcos é o “suposto” ao qual eu atribuo o sujeito “homem” e o predicado “branco”, que são aspectos do meu amigo Marcos que não se distinguem realmente nele, mas se distinguem conceitualmente na apreensão que dele eu faço em minha inteligência. Mesmo quando eu afirmo dele ago substancial, como quando eu digo que “este homem é um animal”, ainda é do mesmo suposto, meu amigo Marcos, que eu estou falando; neste caso, a minha inteligência atribui ao suposto (Marcos) o que a proposição coloca como sujeito, e à natureza da forma existente no suposto (a animalidade que é própria do ser humano) aquilo que a proposição coloca como predicado. Ou, como São Tomás coloca, o predicado está, na proposição, como a forma está no composto ontológico; e o sujeito está na proposição como a matéria está no composto ontológico: o sujeito dá suporte e individualiza, como a matéria dá suporte e individualiza a coisa real composta, e o predicado atribui inteligibilidade, como a forma dá inteligibilidade às coisas.
Esta é a construção lógica muito realista de São Tomás de Aquino; a lógica tomista é sempre uma lógica para conhecer uma realidade, não simplesmente uma lógica para descrever pensamentos, como serão as lógicas matemáticas modernas. São Tomás nos dirá que, na proposição afirmativa, a coisa dá a unidade, e os conceitos, a pluralidade. E a inteligência une o conceitual ao real pela identidade, expressa no conectivo da proposição.
E quanto a Deus? Não há dúvida nenhuma de que Deus, em si mesmo considerado, é realmente uno, no sentido mais completo e próprio que a noção de uno pode ter. Mas nós, como não podemos conhecê-lo por ele mesmo, assim como ele é, apenas podemos conhecê-lo pelas conceitualizações de nosso intelecto. Estas conceitualizações intelectuais que fazemos exprimem Deus sob diversas razões, é certo. Mas, embora por uma limitação do nosso intelecto, não possamos evitar que os conceitos se multipliquem em nossa inteligência quando conhecemos algo, ao modo humano, sobre Deus, sabemos, no entanto, que estes conceitos correspondem a um mesmo ser que, em si mesmo, é uma única e mesma realidade, absolutamente simples. A esta pluralidade de conceitos que, por limite do nosso modo próprio de conhecer, formamos sobre Deus, representamos através da formação de proposições com sujeito e predicado; mas a unidade é expressada pela sua união no entendimento.
Depois desta aula de lógica, São Tomás passará a responder aos argumentos iniciais, o que completará seu raciocínio e facilitará nossa compreensão destas colocações tão profundas.
O primeiro argumento objetor havia citado o [pseudo-] Dionísio, de que qualquer proposição de afirmação sobre Deus é inconsistente. São Tomás fará uma leve correção: há duas versões para a citação de Dionísio; na segunda versão ele não usa a palavra “inconsistente”, mas “incongruente”, que traz a ideia de medida desproporcional. De fato, qualquer afirmação sobre Deus fica infinitamente aquém daquilo que Deus é em si mesmo, e por isto os grandes místicos, como Dionísio, afirmam que elas são inconsistentes, ou incongruentes, para manifestar com realidade aquilo que Deus realmente é em si mesmo. Mas isto não significa que elas sejam desprezíveis, ou errôneas, ou mesmo falsas. Elas são válidas naquilo que são, com todos os limites que têm. São a expressão paupérrima, mas verdadeira, daquilo que nosso humilíssimo intelecto pode expressar verdadeiramente sobre Deus.
A segunda objeção faz uma confusão entre a composição da proposição e a composição do ente sobre o qual ela versa – ou uma confusão entre o plano lógico e ontológico, nas proposições sobre Deus. Ela diz que se Deus é ontologicamente simples ao máximo, então não pode ser expresso de modo nenhum por proposições afirmativas compostas de sujeito e predicado. São Tomás diz que tais proposições têm esta estrutura não por causa do seu objeto, que é Deus, mas do nosso intelecto, que é proporcionado às coisas compostas e somente consegue expressar-se também de modo composto. No nosso modo de expressar, sempre concebemos aquilo que é simples como tendo algo que conceptualmente suporta e algo que conceptualmente é suportado, embora saibamos que, em si mesmas, as formas simples não são assim. Mas nós somente conseguimos apreender as formas simples como sujeitos ao qual atribuímos algo.
O terceiro argumento objetor faz a confusão inversa – do ontológico com o lógico. Ele começa trazendo aquele conceito de falsidade: é falso o intelecto que entende algo diferentemente do que a coisa é. Por isto, se Deus é simples, o intelecto que o exprime com proposições afirmativas, que são construções lógicas compostas, expressa um conhecimento que, construído de modo composto, e´diferente em sua estrutura daquilo que ele visa expressar. Então não se poderia, segundo o argumento, formar proposições afirmativas verdadeiras sobre Deus.
São Tomás vai nos explicar que a afirmação “ é falso o intelecto que entende algo diferentemente do que a coisa é” pode ser compreendida de dois modos:
1. Se o advérbio “diferentemente” determina o verbo “conhecer” quanto ao objeto conhecido. Vale dizer, se estou querendo afirmar a falsidade do conhecimento ocorre quando o objeto conhecido, em mim, não é uma similaridade da coisa que conheço, então eu conheço diferentemente do que a coisa realmente é. Neste caso, a afirmação acima é válida e verdadeira.
2. se o advérbio “diferentemente” determina o verbo “conhecer” quanto ao intelecto que conhece, então esta afirmação é falsa. Ocorre que as coisas que conhecemos são, normalmente, coisas materiais. Mas nós as conhecemos pela assimilação de suas formas, que passam a existir em nosso intelecto como formas intencionais, que são, em si mesmas, imateriais. As similitudes das coisas materiais que conhecemos existem imaterialmente em nós, mas nosso intelecto sabe que elas são similitudes de coisas materiais. Neste sentido, não posso afirmar que “é falso o intelecto que entende algo diferentemente do que a coisa é”. Esta proposição, portanto, tomada neste sentido, é falsa. O intelecto humano sempre entende as coisas diferentemente do que as coisas são, porque as assimila imaterialmente, mesmo quando em si mesmas são materiais; mas o conhecimento é verdadeiro, porque o intelecto sabe que as formas intencionais que possui imaterialmente são formas de coisas materiais.
Assim, do mesmo modo, por sua própria natureza, toda apreensão que temos de Deus é sempre composta em nosso intelecto, porque se dá através do juízo conceitual, que une e separa racionalmente aquilo que em si mesmo é simples, sem jamais perder a noção de que, embora esteja expressando proposições compostas, as proposições apontam intencionalmente para aquele que, em si mesmo, é simples ao máximo. Desfeita a confusão do lógico com o ontológico, refutado está o argumento.
Fechamos a questão 13. Passaremos em seguida para a questão 14, mais longa ainda do que as duas que a precederam. Em todo caso, encerramos uma subseção do chamado “Tratado de Deus Uno”, representado pelas questões 2 a 13, em que Deus era visto em si mesmo, em sua substância. Agora, a partir da próxima questão, debateremos as operações de Deus, ou seja, o seu agir.
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