Estudamos, nesta questão, os debates que São Tomás promoveu acerca da possibilidade de atribuir nomes a Deus, ou seja, de usar palavras para expressar os conceitos que formamos sobre ele – pela via da negação, da excelência ou da causalidade. A discussão se encerrará agora pelo debate a respeito da possibilidade de formar proposições sobre Deus – não mais de atribuir-lhe simplesmente nomes, a partir de simples conceitos, mas de formar juízos sobre Deus, expressando-os na forma de proposições.
O que podemos dizer a respeito de Deus, sob a forma de juízos? Há uma tendência, muito bem arraigada na mística cristã, de afirmar que sobre Deus apenas podemos julgar o que ele não é, mas não podemos julgar o que ele é, nesta vida. Com isto, só restaria para nós a possibilidade de formar juízos negativos sobre Deus, mas nunca a possibilidade de formar juízos positivos.
Uma breve digressão: a ideia de que somente poderíamos formar juízos negativos sobre Deus, e nunca juízos afirmativos, é chamada de “apofática”; não deve ser confundida com o agnosticismo, que afirma que nenhum juízo pode ser formado sobre Deus, porque nega a validade de qualquer conceito humano sobre ele. A apofática, em seu limite, admite que podemos conhecer validamente o que Deus não é, o que nos permitiria um certo conhecimento, ainda que muito indireto, sobre o que Deus é, ou, pelo menos, o conhecimento por exclusão sobre o que ele pode ser em si mesmo. O agnosticismo é muito mais radical: consiste em defender que não se pode conhecer validamente nada sobre Deus, nem mesmo o que ele não é; com isto, tudo o que diz respeito a fé, religião e piedade, para os agnósticos, está simplesmente excluído do campo da razão humana, e confinado ao campo da emoção, da irracionalidade, do individualismo mais extremamente incomunicável, ou mesmo do engano e da hipnose, o que joga toda a dimensão religiosa do ser humano à dimensão da desconfiança e da desvalorização. Agnosticismo e apofática são, pois, posições muito distintas entre si. Agnosticismo é a desconfiança orgulhosa daquilo que a razão não pode controlar. A apofática é a humildade intelectual daquele que se aproxima de algo que o supera infinitamente, e que desperta, por consequência natural, o respeito e o temor. São Tomás tem uma posição apofática muito forte, mas não radical. Ele sabe distinguir claramente entre uma mística apofática, que não quer submeter Deus aos critérios humanos, e uma teologia razoável, capaz de comunicar validamente a verdade revelada com todo o respeito à razão humana.
Voltemos ao artigo. A hipótese controvertida proposta por São Tomás aqui é a afirmação básica da apofática radical: “parece que não podemos formar proposições afirmativas sobre Deus”. São três os argumentos objetores iniciais, todos muito sucintos.
O primeiro é uma citação que São Tomás nos faz daquele que é considerado como um dos grandes mestres da apofática, o [pseudo-] Dionísio. Ele diz que “as negações sobre Deus são verdadeiras, mas as afirmações são inconsistentes”. Daí, o argumento conclui que não é possível formar validamente proposições afirmativas sobre Deus.
O segundo argumento traz outra citação de outra grande autoridade cristã, não da mística, mas da filosofia: Boécio. Precisamos de um pouco de explicação prévia, aqui; nas primeiras questões da Suma, já vimos como as criaturas trazem, no seu ser criatural, a marca da composição: as criaturas materiais são compostas, de diversos modos. Neles há a substância e os acidentes. Há também a forma e matéria; as criaturas puramente espirituais, como os anjos, não são compostos de forma e matéria, porque são puras formas, mas eles existem por criação de Deus. Portanto, eles são compostos da própria essência angelical e da existência que Deus lhes deu. Há, portanto, nos seres materiais, pelo menos duas composições: forma e matéria, essência e existência. Nos seres espirituais criados há, pelo, menos uma: entre essência e existência. Mas em Deus não há composição de nenhuma espécie, porque ele não tem matéria, e sua essência é existir. Sequer se pode falar de substância e acidentes em Deus, porque ele não tem acidentes. Ele é, portanto, a forma simples por excelência.
O que Boécio diz, aqui, é que uma forma simples não pode ser sujeito. De fato, se as proposições são construídas de modo a descrever uma composição, em que um dos elementos do composto é predicado do outro, então um ser que se caracterize por não apresentar nenhuma composição a rigor não poderia, segundo o argumento, originar nenhuma proposição afirmativa. Vamos exemplificar: se eu estou falando de um ser que é composto, posso atribuir, como predicado, um acidente seu à sua substância. Posso construir, portanto, a seguinte proposição: este homem é branco. Estou afirmando, nesta proposição, que neste ser composto que se apresenta como este supósito (este é o termo escolástico para nos referirmos a este indivíduo concreto do qual estamos tratando) a substância “ser humano” pode ser sujeito do predicado “é branco”. Eu poderia fazer uma outra proposição afirmativa dizendo, por exemplo, “o Arcanjo Gabriel existe”. Neste caso, eu predico, da essência “Arcanjo Gabriel”, o fato da sua existência. Mas como predicar alguma coisa de um ser absolutamente simples? Não haveria nenhuma composição para que algo, algum elemento nele, pudesse ser sujeito e outro elemento nele pudesse ser predicado. Salvo se a proposição for negativa; por exemplo, “Deus não tem matéria”. Disto o argumento conclui que não é possível formar proposições afirmativas de Deus.
O terceiro argumento tem a mesma natureza; também sobrepõe a esfera lógica à esfera propriamente ontológica – faz confundir a estrutura ontológica de Deus, que é de simplicidade absoluta, com a estrutura de eventuais proposições que fossem formadas sobre ele, que necessariamente implicariam composição em sua estrutura lógica. O argumento diz o seguinte: qualquer intelecto que compreenda alguma coisa diferentemente do que ela é, compreende erroneamente. Ora, uma vez que Deus não tem em si nenhuma composição, isto significa que se o intelecto formar alguma proposição afirmativa sobre ele forma uma proposição que tem uma estrutura composta. Se o intelecto forma uma proposição afirmativa composta para falar de Deus, que é simples, revela que tem uma compreensão composta sobre aquilo que é, ao máximo, simples. Trata-se, pois, de uma compreensão errônea sobre Deus. Portanto, segundo este argumento, não há como formar proposições afirmativas sobre Deus.
Como argumento sed contra, São Tomás traz uma série de proposições tiradas do “credo”, em que, pela fé, fazemos proposições afirmativas sobre Deus, tais como “Deus é uno e trino”, ou “Deus é onipotente”. Como a fé não pode conter falsidades, isto significa que podemos formar proposições afirmativas verdadeiras sobre Deus.
Na sua resposta sintetizadora, São Tomás nos dará uma verdadeira lição de lógica. Veremos no próximo texto.
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