Temos caminhado muito nesta grande catedral, aprazível, misteriosa e às vezes quase incompreensível. Ao longo destes sete meses em que tenho publicado minhas notas de estudo sobre a Suma aqui, às vezes sinto uma nostalgia muito real de estar nela. Não é uma nostalgia temporal; eu poderia descrever melhor como uma nostalgia quase espacial, uma saudade de um lugar onde eu nunca estive, mas deveria estar.
Este artigo que estudaremos agora, é um destes cantinhos aprazíveis na nossa caminhada, um lugar refrescante depois de tantos artigos áridos. Não digo que é um lugar fácil; nenhum lugar por aqui o é. São Tomás é como um personal trainer da fé, ele jamais nos deixa acomodar sem nos desafiar com obstáculos que às vezes parecem quase intransponíveis, mas que proporcionam grande prazer quando enfrentados – eu ia dizer “vencidos”, mas não há vencedores e vencidos na Suma. Juro que muitas vezes, quando meus estudos se adiantam, eu tenho o ímpeto de voltar e começar tudo de novo, como se eu estivesse deixando passar alguma coisa preciosíssima. Não dá; precisamos avançar; como diz Jesus, quem põe a mão no arado e olha para trás não é digno do reino de Deus.
Este recinto em que chegamos é ornado por uma bela pintura: nela se encontram Aristóteles e Platão, conversando e, principalmente, ouvindo a Moisés, este com os olhos fitos em Deus, a quem dirige corajosamente a única pergunta que importa: qual o teu nome? São Tomás cuidadosamente recolhe as joias preciosas que estas três figuras nos legaram e, após engastá-las num suporte lindíssimo, nos apresenta o resultado do seu trabalho: é uma linda coroa de ouro, com a qual ele quer cingir Jesus, depondo-lhe a coroa de espinhos com que nós lhe cingimos a fronte.
É claro que esta pintura é só uma maneira de representar visualmente o debate que será travado neste artigo, e que diz respeito ao nome de Deus. Qual o nome mais próprio para Deus? Qual nome é capaz de transmitir de Deus ao mesmo tempo tudo o que ele é, e ao mesmo tempo a nossa absoluta incapacidade de defini-lo?
Para abrir a polêmica, São Tomás apresentará sua hipótese controvertida: “parece que o nome ‘Aquele que é’ não é o nome mais próprio para Deus”.
Antes de prosseguir para os argumentos objetores, uma pequena digressão: estamos falando, aqui, de “nomear Deus” no sentido escolástico da expressão. Não se trata de determinar que o nome de Jesus está acima de todo nome, porque já sabemos isto da revelação bíblica, Fl 2, 9. Mesmo porque, aliás, o nome de Jesus traz embutido em si o nome “Aquele que é”, e poderia ser traduzido, ainda que imprecisamente, como “‘Aquele que é’ nos salva”. A discussão aqui é mais teológica do que isto; Trata-se de saber se a forma mais adequada de refletir sobre Deus é vê-lo como “aquele que é”. É isto que São Tomás quer debater, quando propõe aquela hipótese controvertida.
O primeiro argumento objetor parte daquele debate que tivemos nos artigos imediatamente anteriores a este: está estabelecido que o nome de Deus é absolutamente incomunicável, pelo modo próprio de comunicação. Ora, desta premissa, o argumento deduz que “Aquele que é” não pode ser o nome mais apropriado para Deus, já que, segundo este argumento eu posso comunicar propriamente este nome “Aquele que é” a tudo o que, de algum modo, também é. Logo, o argumento conclui que este não é o nome mais apropriado para Deus.
O segundo argumento objetor tem um sabor platônico. De fato, sabemos que para a escola platônica o bem estava acima do ser, como mais fundamental do que o ser. O princípio fundamental, para os platônicos, era a bondade, já que o ser era visto como portador, por característica mais profunda, do anseio pela perfeição – o ser anseia pelo bem, segundo os platônicos; logo, o bem é o fim do ser, e portanto seria mais fundamental do que aquele. É por isto que o [pseudo-] Dionísio, citado neste argumento, afirma que “o nome ‘Bom’ manifesta que tudo procede de Deus”. O argumento então conclui, a partir desta citação, que o nome “Bom” exprime o que há de mais fundamental em Deus, que é ser princípio universal de todas as coisas. Se é assim, diz o argumento, então o nome “Bom” é o nome mais próprio para Deus, e não o nome “Aquele que é”. Será muito interessante ver São Tomás responder a este argumento.
O terceiro argumento parte daquela discussão etimológica que vimos quando estudamos o artigo oitavo desta questão. O argumento começa afirmando que todo nome de Deus parece implicar, em algum grau, uma relação com as criaturas – já que só conhecemos qualquer coisa de Deus através das criaturas, e só podemos nomeá-lo assim como o conhecemos. Desta premissa, o argumento conclui que o nome “Aquele que é” não implica nenhuma relação com as criaturas, e, portanto, não pode ser o nome mais apropriado para Deus.
Neste ponto, São Tomás traz o argumento sed contra com uma citação bíblica direta: Êxodo 3, 13-14. São Tomás narra o diálogo de Moisés com Deus, em que Moisés pergunta ao Senhor: “se me perguntarem ‘qual é o seu nome’, que direi?”, ao que o Senhor responde: “Assim falarás: ‘Aquele que é’ me enviou a vós”. Se me permitem uma digressão, eu gostaria de citar aqui um pequeno comentário do filósofo francês Etienne Gilson, que graceja, dizendo que Moisés resolveu, com uma pergunta direta, o problema que Aristóteles e toda a filosofia grega levaram séculos e não conseguiram resolver filosoficamente: o que (ou quem, no caso) é o ser. E o argumento sed contra conclui: logo, “Aquele que é” é o nome mais apropriado para Deus.
Com isto São Tomás concorda plenamente na sua resposta sintetizadora, e nos dará três motivos para que as coisas sejam de fato assim:
1) Este nome é mais apropriado por causa daquilo que ele significa. Este não é um nome que designa uma forma, mas o próprio ser; não há especificação. Uma vez que, como já vimos em questões anteriores, a essência de Deus é existir, ou, mais propriamente, é ser, e esta [e uma característica exclusiva de Deus, já que é próprio da criatura existir por outro (ser criado significa exatamente isto), então nenhum outro nome pode designar Deus de modo mais próprio do que aquele que nomeia sua característica, seu diferencial mais próprio com relação a tudo o mais.
2) A segunda razão é a universalidade deste nome. Como já vimos em artigos anteriores, Deus não é propriamente um indivíduo, mas não pode ser designado, com rigor, por um universal abstrato, porque ele é um existente, ou melhor, ele é a própria existência. Por isto, qualquer designação que, de algum modo, restrinja em Deus aquilo que nele é incondicionado é menos próprio para descrevê-lo do que aquele que descreve o seu ser, sem condições. É certo que não podemos, nesta vida, conhecer Deus em sua essência mesma, mas podemos saber que aquilo que, de qualquer modo, limite ou diminua esta essência é inapropriado para Deus. Deus é, basicamente, aquele que é, e este nome exprime, sem excluir, aquilo que São Tomás (Citando São João Damasceno) chama de “oceano de substância, infinito e sem limites” que é o ser de Deus. É preciso entender bem aqui o que São Tomás quer expressar quando ele se refere a Deus como “oceano de substância”; ele não está falando panteisticamente, porque sabe que, com relação à criação, Deus é o completamente outro. Mas esta alteridade não diminui, não exclui nada de Deus mesmo; apenas exclui a própria criação da possibilidade de ostentar a natureza divina. Por isto, se é próprio da essência de qualquer criatura o existir deste ou daquele modo, o existir de Deus não pode ser contraído por nenhuma essência, porque não é modal, mas absoluto. E é neste sentido que este nome “Aquele que é”, por ser o nome mais genérico capaz de descrever o ser em si mesmo, é também, segundo São Tomás, o nome mais apropriado para Deus.
3) Por causa da característica atemporal deste nome; ele transmite perfeitamente (São Tomás chega a dizer que ele consignifica isto) a noção de um presente incondicionado para o ser, que é muito apropriado para descrever Deus em si mesmo, já que Deus não conhece nem passado nem futuro (como diz São Tomás, citando Santo Agostinho).
Expostas, pois, estas razões, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento é aquele que diz que o nome “Aquele que é” é um nome comunicável, porque outros entes, exatamente porque “são”, podem ser descritos por esta expressão. São Tomás acolhe de certo modo a objeção, explicando que “Aquele que é” é o nome mais próprio para Deus apenas quanto aos critérios acima, ou seja, em razão da origem (já que descreve o próprio ser de Deus em sua asseidade, vale dizer, o “ser em si” que é a própria essência de Deus) e em razão do modo de significar e consignificar, como foi explicado na resposta sintetizadora. Para nomear a natureza divina, porém, de fato o nome “Deus” é mais apropriado, e para significar a própria substância divina incomunicável, o tetragrama bíblico é o mais próprio; fazendo uma pequena digressão, diríamos que o tetragrama, na forma com que aparece no nome de Jesus (associado à salvação oferecida para nós) é a forma mais própria de nomear Deus na sua relação salvífica com a humanidade!
A segunda objeção é aquela de origem platônica, que considera o nome “Bom” mais próprio do que “Aquele que é”. São Tomás dirá que nomear Deus de “Bom” é mais apropriado se estivermos nos referindo a Deus como causa e fim de tudo o que existe; mas, de modo absoluto, o “ser” tem precedência sobre o “bem”, porque algo tem que “ser” para poder “ser causa”.
Por fim, a terceira objeção diz que o nome mais próprio é aquele que faz referência à relação de Deus com as criaturas, já que apenas podemos nomear Deus pelo que conhecemos dele através das criaturas. São Tomás nos diz que isto é verdade – o fato de que as criaturas são o meio ordinário para que possamos conhecer algo sobre Deus. Mas isto não significa que seja necessário que todos os nomes que atribuímos a Deus faça referência à relação dele com as criaturas. Os nomes que denotam perfeições são tomados das perfeições que nos são reveladas pelas criaturas, mas pela via da eminência são purificadas e aplicadas a Deus de modo incondicionado, sem menção necessária à relação com as criaturas. Dentre todas as perfeições que podemos aplicar a Deus por esta via, São Tomás nos lembra que a mais fundamental é o “ser” – nada pode ser perfeito se não “é”, em primeiro lugar. É desta constatação que se toma o nome “Aquele que é” em primeiro lugar.
Como comentário final, lembro que as Escrituras nos dizem que não há outro nome acima do nome de Jesus. O nome de Jesus será tratado adiante, na Suma, e ali se demonstrará que tudo o que debatemos nesta questão 13 sobre o nome de Deus está contido de modo mais excelente no nome de Jesus. Portanto, o que foi debatido aqui não exclui esta verdade, e a Suma não foi feita para os ansiosos. São Tomás viveu numa época em que as coisas tinham seu tempo adequado para acontecer. E, como vimos, ele sabe muito bem harmonizar, sem radicalismos, os vários aspectos de uma questão.
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