No último texto, tratávamos da importância de compreender o uso analógico das palavras, e como este uso está tão estreitamente relacionado á própria visão tomista da analogia do ser.

É por isto que o exemplo que São Tomás nos dá, aqui, para descrever a analogia, é exatamente tomado da ordem do ser. A palavra “ente” designa a substância, de modo principal, mas também designa o acidente, porque neste a existência está referida à relação com a substância que é ente de maneira própria, unívoca. O acidente é chamado de “ente” apenas porque sua própria existência inclui a significação original do ser da substância e está referida a ele de modo indissociável, mas não idêntica. Eis a noção da analogia da linguagem, que reflete plenamente a analogia do ser.

E eis o que a busca incessante da univocidade empreendida pela mentalidade cientificista pós-moderna nos fez perder: sob a alegação de que o conhecimento científico, com sua construção linguística lastreada na univocidade rigorosa, é mais perfeito do que o conhecimento teológico e mesmo humanístico, que depende sempre da analogia para expressar-se – e que constrói, portanto, uma linguagem menos rigorosa, mais aberta e imprecisa, fez perder uma riqueza que os antigos tinham, e que já não reconhecemos. A linguagem analógica é a única adequada para falar daquilo que traz em si a analogia do ser como constituinte estrutural interno. Não é um passo intermediário num conhecimento que um dia se encaminhará para a linguagem unívoca, e portanto deve ser encarado como provisório e superável, mas tem em si mesma o valor de nos permitir falar daquilo que nunca se dará ao nosso domínio, porque não é objeto próprio para a dominação da nossa inteligência prática, senão para a contemplação da nossa inteligência teórica. Perdendo a analogia, perdemos a possibilidade de conhecer o que há de mais elevado: a estrutura da nossa relação criatural com todo o universo e com o nosso criador. E foi exatamente isto que a modernidade, com sua supervalorização da razão prática, nos fez perder.

Feitas estas explicações (e perdoadas as minhas digressões) São Tomás nos faz retornar ao caso da palavra “Deus”. A palavra Deus tem por significado fundamental a própria natureza divina, e é usada analogicamente para descrever aquilo que guarda relação de semelhança (não no mero sentido de aparência similar, que é o único que nossas mentes nominalistas contemporâneas reconhecem nesta palavra, mas no sentido real de participação, derivação, proporção ou dependência) ou mesmo a simples opinião humana de que uma realidade qualquer possua esta mesma natureza, no caso dos ídolos.

Assim, quando usamos a palavra “Deus” (ou um dos seus derivados gramaticais, como “divino”) para nomear alguém ou alguma coisa que guarde esta relação de semelhança (no sentido rico do termo) com o único Deus verdadeiro (quando, por exemplo, dizemos que os santos nos revelam Deus por suas vidas, ou que a graça de Deus nos diviniza) estamos falando analogicamente. O uso da palavra “Deus”, neste caso, guarda em si o sentido original da palavra (que é a referência à própria natureza divina) e a aplica a outra realidade segundo a relação de proporção que esta segunda realidade nomeada tem com o Deus único e verdadeiro.

Do mesmo modo, quando nomeamos algum ídolo como “Deus”, é claro que este ídolo não é Deus de verdade, mas somente segundo a opinião de quem assim o nomeia. Mas esta nomeação guarda em si a referência ao sentido original da palavra “Deus”, ou seja, ela quer dizer simplesmente que aquele conceito que liga esta palavra à natureza divina, na opinião de quem considera o ídolo como Deus, é aplicável ao ídolo. É claro, portanto, que, se retirarmos da palavra a sua significação original não conseguiremos compreender o que é que o idólatra está querendo dizer quando nomeia o seu ídolo de “Deus”, porque ele próprio, ao fazê-lo, pressupõe esta significação original. Excluída a analogia, portanto, a nomeação por opinião ficaria ininteligível.

Estabelecidas estas condições, prestados todos estes esclarecimentos, São Tomás passa a responder as hipóteses objetoras iniciais, e mesmo aos argumentos sed contra, de modo a possibilitar sua compreensão adequada.

A primeira hipótese objetora é aquela que diz que todo uso da palavra “Deus” é sempre unívoco, porque senão não haveria contradição lógica entre dizer que um ídolo é Deus ou dizer que ele não é Deus – já que, segundo o argumento, não há contradição lógica senão quando o termo é usado sempre no mesmo sentido.
São Tomás dá uma lição de teoria da linguagem, aqui. Ele explica que há uma maneira certa e uma maneira errada de verificar se um nome está sendo usado ou não na mesma acepção, ou se está sendo usado com acepções múltiplas e diversas entre si. A maneira errada é exatamente a maneira que este argumento está usando: presumir que um nome tem acepção múltipla em razão da predicação, e não da significação do nome. Expliquemos: a noção da palavra “homem” depende daquilo que é significado por esta palavra, não da imputação, ou seja, daquilo que chamamos de “homem” quando a usamos. Se eu chamo uma pessoa humana de “homem”, e depois chamo uma pedra de “homem”, está claro que a significação do termo não varia quando varia a imputação, senão eu jamais poderia dizer que a primeira imputação é correta e a segunda é errônea.

Posto isto, São Tomás nos esclarece que é exatamente por este princípio que eu posso afirmar que há verdadeira contradição quando o pagão imputa (ou predica, termo mais adequado na linguagem escolástica) a palavra “Deus” para um ídolo, e o católico o contesta. Embora estejam imputando (ou predicando) a palavra a duas realidades diferentes, os dois estão usando a palavra com a mesma significação, e exatamente por isto há contradição entre as duas afirmações. São Tomás diz que a própria Bíblia predica a palavra Deus dos ídolos, com a mesma significação, mas com o sentido oposto àquele usado pelos pagãos, quando diz, por exemplo, que “todos os deuses dos povos são nada” (Sl 95, 5).

O segundo e o terceiro argumentos objetores, segundo São Tomás, cometem a mesma falácia, ao confundir a imputação com a significação. O segundo argumento alega que a palavra “felicidade” é imputada a alguns para descrever os prazeres sexuais de maneira unívoca aos que a imputam para a felicidade verdadeira. O terceiro argumento também repete esta discussão entre a imputação do nome “Deus” ao ídolo pelo católico e pelo pagão. São Tomás responderá simplesmente que a distinção entre “significação” e “imputação” responde adequadamente a estes dois argumentos.

São Tomás passará a responder, agora, aos argumentos sed contra, que ele chama de “quarto e quinto argumentos”. Como nos lembramos, os argumentos sed contra querem reduzir todo uso múltiplo dos nomes para exprimir realidades diversas de modo impróprio à equivocação. O quarto argumento é aquele que diz que quando usamos a palavra “homem” para descrever uma pessoa humana, e depois a usamos para descrever uma gravura que retrata um ser humano, estamos azendo um uso equívoco da palavra. São Tomás nos diz que o próprio Aristóteles às vezes inclui a analogia como uma espécie da equivocidade (em sentido lato). E de fato a analogia guarda em si algo de equivocidade, como uma espécie de meio termo entre ela e a univocidade. Mas quando chamamos um retrato de “homem”, nós fazemos isto porque percebemos que há algo na própria gravura que se relaciona com o homem que é retratado, e por isto o conceito próprio de homem está pressuposto e de certo modo contido neste segundo uso da palavra. É por isto que o retrato de um homem, quando é chamado de ‘homem”, não o é em sentido puramente equívoco, mas propriamente analógico. É neste sentido, também, que a palavra “ente” é usada propriamente para a substância e analogicamente para as demais categorias: porque há uma certa equivocidade entre eles, relacionada, no entanto, de modo proporcionado. É bom ver que São Tomás sempre resgatará este exemplo retirado das obras mais propriamente lógicas de Aristóteles, como as “Categorias”, mas que revelam uma profunda compreensão estrutural do ser, e portanto com um valor metafísico indiscutível para fazer compreender a própria analogia do ser.

Por fim, o último argumento sed contra é talvez a resposta mais inesperada de São Tomás – como nos lembramos, o argumento inicial é aquele que diz que não se pode nomear adequadamente o que não se conhece; portanto, o pagão, quando nomeia o ídolo como “Deus”, não quer significar a verdadeira divindade, que ele não conhece; mas que o católico, quando diz que só há um Deus verdadeiro, perfeito e onipotente, significa adequadamente o que a palavra “Deus” expressa – concluindo daí que o pagão e o católico usam a palavra “Deus” de modo equívoco.

O que São Tomás faz? Ele simplesmente diz que nem o pagão nem o católico conhecem a natureza de Deus em si mesma. Então o argumento está errado; ambos, pagão e católico, formam uma noção de Deus pelas vias da remoção, do excesso (ou eminência) e da causalidade, como já debatemos em ouros artigos. Assim, os dois estão usando a palavra “Deus”, aqui, exatamente com o mesmo significado! A contradição do sentido se dá pelo erro de imputação, portanto. Note-se, aqui, a profunda humildade gnoseológica, e mesmo a inesperada humildade religiosa de São Tomás. Ele não arroga ao católico um conhecimento intelectual superior a priori, mas apenas um discernimento mais adequado quanto àquilo que nenhum dos dois, nem ninguém, pode conhecer perfeitamente nesta vida. E conclui: se os dois estivessem tratando de uma palavra cuja noção fosse simplesmente desconhecida, estariam simplesmente balbuciando sons sem sentido, como dois bebês que ainda não formaram adequadamente a linguagem, e não trocando palavras numa discussão racional. É por isto que o agnosticismo radical, em matéria de fé, exclui daquele que o professa qualquer legitimidade para participar de debates religiosos.

Esta é a resposta esclarecedora de São Tomás, e é muito bom ver que suas respostas aos argumentos iniciais muitas vezes são capazes de esclarecer muito bem o assunto que está sendo debatido, com exemplos e precisões que nos ajudam a compreender sua extensão. Maravilhosa pedagogia, didática muito boa.