Tratamos, no texto anterior, da hipótese controvertida que São Tomás propôs para inaugurar este debate: “parece que o nome de Deus é sempre atribuído univocamente, mesmo quando o usamos para designar aquilo que é Deus por natureza, ou por semelhança ou por opinião”. Vimos também que São Toás traz três argumentos objetores iniciais que sustentam a univocidade entre os usos da palavra Deus, e os argumentos reunidos como “sed contra”, que reduzem estes usos (em sentidos diversos) da palavra “Deus” à equivocidade.
São Tomás iniciará sua resposta sintetizadora afirmando categoricamente que os usos em sentido diverso que se fazem da palavra “Deus” não podem ser reduzidos nem à univocidade nem à equivocidade; estamos tratando, aqui, de usos análogos desta palavra.
Vamos lembrar, aqui, antes de entrar na resposta propriamente dita, que, no pensamento tomista, não existe uma separação total entre a lógica e a ontologia; são dois planos da mesma realidade, conforme seja tratada em si mesmo, na sua estrutura existencial, ou conforme se refira à estrutura do nosso modo de conhecê-la. Por isto, falar de termos unívocos, equívocos ou análogos significa, em última análise, falar de alguma palavra que se refere a conceitos formados a partir de realidades que compartilham a mesma natureza (neste caso é uma palavra que é usada de modo unívoco para estas realidades), ou que simplesmente se assemelham sob algum aspecto (caso em que a palavra é usada de modo analógico para descrever as realidades que se assemelham entre si), ou que, embora não tenham nada em comum entre si, são referidas coincidentemente pela mesma palavra (caso em que a palavra designa estas realidades de modo completamente equívoco).
Mas São Tomás quer nos ensinar o modo analógico de usar a palavra “Deus”, para descrever: 1) a própria natureza divina, 2) aquilo que revela a nós as semelhanças dele e 3) aquilo que pode ser chamado de Deus apenas conforme as opiniões humanas. E ele vai começar com uma lição, definindo o que são termos unívocos, equívocos e análogos.
A questão, aqui, é quando usamos a mesma palavra para definir realidades individuais, concretas, diversas entre si. Este uso da mesma palavra para realidades concretas diversas torna-se um problema porque nos obriga a reconhecer que podemos fazê-lo em três situações:
1) Quando as realidades compartilham exatamente da mesma natureza, ou seja, uma mesma forma que se individualiza em diversas porções diferentes de matéria. Neste caso, eu posso nomear estes seres com a mesma palavra, sob a mesma razão. Exatamente porque conheço estes seres como possuidores da mesma similitude em mim, e uso a palavra, para referir-me a eles, com a mesma intenção. Como se pode ver, o uso unívoco da palavra pressupõe uma metafísica realista, do tipo que Etienne Gilson chamou de “realismo metódico”, vale dizer, daqueles que respeitam a interação entre o espírito que conhece e a realidade conhecida, não de modo ingênuo, mas com toda a sofisticação que esta relação contém. Admitir que as palavras possam ser usadas de modo unívoco para descrever realidades individualmente diversas entre si significa dizer que há relações reais entre as coisas individuais, e entre estas e os seres que as conhecem; em suma, significa dizer que o nominalismo não fornece uma boa explicação da realidade ou do processo de conhecimento e nomeação. Para um verdadeiro nominalista, nunca há palavras unívocas, porque nunca há coisas que compartilhem exatamente da mesma natureza. Toda univocidade é, portanto, para o nominalismo, apenas uma construção da inteligência humana, uma convenção social, e jamais a reflexão sobre uma realidade que possui inteligibilidade intrínseca e fundamenta-se em relações reais. É por isto que todo o projeto nominalista (como o que vivemos em nossa sociedade hoje) vê na linguagem apenas uma construção de poder, e busca revolucionar a realidade pela desconstrução linguística.
2) Por outro lado, o uso equívoco da linguagem consiste em usar a mesma palavra para nomear realidades sem nenhuma relação entre si, nem real, nem de razão. Como, por exemplo, chamar o meu animalzinho de “cão”, e chamar de “cão” a parte do gatilho da arma de fogo que aciona o disparo da espoleta. A razão de nomeação é completamente diversa, porque não há nenhuma relação entre as duas realidades nomeadas.
3) Mas há uma outra situação em que podemos usar uma palavra para nomear duas realidades diversas, relacionadas entre si não por uma identidade de natureza, mas por um compartilhamento de elementos de vinculação que torna tais realidades proporcionadas entre si. Neste caso, a razão de nomeação se dá do modo que São Tomás explica muito bem neste artigo da Suma. Quando uso uma palavra para nomear duas realidades (diferentes entre si) de modo analógico, a nomeação se dá assim: a apalavra tem uma significação, numa acepção que tomo como referência. Vamos pensar na palavra “saudável”. Ela descreve o equilíbrio orgânico num ser vivo qualquer; esta é a acepção referencial, principal. Para que eu possa falar propriamente de “saudável”, eu tenho que me referir a algum ser vivo, e quero significar o equilíbrio do seu organismo. Esta, portanto, é a significação da palavra “saudável”. Mas eu posso usar a mesma palavra para descrever um sinal de que um determinado ser vivo esteja em equilíbrio: posso me referir, por exemplo, à cor da urina de um animal como “saudável”. A urina não é um ser vivo, e por isto não pode ser saudável num sentido próprio. Não há univocidade em chamar um animal de saudável e chamar uma mostra de urina de saudável, mas também não há simples equivocidade, já que a significação original de saudável entra na definição da palavra “saudável” quando referida à urina: saudável é a urina que serve de sinal para conhecer indiretamente o estado de equilíbrio orgânico do animal que a excretou. O significado original entra, portanto, na composição da definição do novo sentido que estou dando ao termo, embora este novo sentido tenha uma acepção diferente da acepção original. Faz-me reconhecer, porém, que há uma relação de proporcionalidade entre as coisas que estão sendo nomeadas analogicamente pela mesma palavra. A nomeação analógica somente é admissível se admitirmos, de algum modo, uma analogia nos seres, ou seja, uma relação real que vincula entre si os seres, e estes ao Criador, de um modo efetivo e reconhecível, mas que não se resolve na identidade. Compreender isto leva-nos a questionar o próprio individualismo que lastreia o pensamento contemporâneo: se a analogia é uma realidade, o individualismo não pode ser, ao menos na extensão que nós o aceitamos, e as nossas relações não são meros artifícios construídos pela vontade humana ou aceitos num suposto contrato social, ou mesmo uma opressão da qual devemos nos livrar numa situação hipotética de retorno a um paraíso individualista perdido; relacionar-se é parte da realidade das coisas e das pessoas, e se explica pela compreensão da realidade da própria criação (pelo logos), e não em razão de convencionalismos (pelo nomos) ou de opressões e dominações a serem superadas. E mais, a visão da analogia do ser nos leva a perceber que admitir a realidade das relações não implica a identidade entre as coisas, ou mesmo entre a criação e Deus, de modo a fazer com que umas dissolvam-se nas outras afinal. Analogia é reconhecer relação na distinção.
Ficou longo. Continuaremos nosso estudo sobre este artigo no próximo texto.
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