No artigo anterior, que estudamos mais longamente do que eu gostaria, mas mais brevemente do que eu deveria, o debate foi sobre os “modos de comunicabilidade” da palavra “Deus”. Como nós sabemos, uma palavra pode ser aplicada a alguma coisa na medida que o conceito daquela coisa é compartilhado de algum modo pela outra coisa que está sendo nomeada com a mesma palavra. É por isto que podemos usar a palavra “cão” para nomear o meu cãozinho “Pipoca” e o cão de guarda enorme do meu vizinho: eles compartilham uma natureza que é igualmente canina nos dois.
No artigo anterior, São Tomás nos ensinou que há três modos pelos quais uma palavra pode ser utilizada para nomear mais de uma coisa – ou, na terminologia escolástica, há três maneiras pelas quais um nome se comunica entre duas ou mais naturezas. A primeira é a comunicação própria, quando a natureza se multiplica em mais de um ente. É exatamente o exemplo dos dois cães, que citei acima. São Tomás nos explica que as naturezas podem multiplicar-se de modo real ou apenas no modo da razão. Elas se multiplicam de modo real quando de fato há diversas coisas que compartilham a mesma espécie, mas são individualizadas pelos seus corpos, ou seja, pela matéria que as compõem. Várias formigas, vários cães, vários seres humanos, são todos exemplos de comunicação própria dos nomes de modo real.
Há também a ideia de que uma realidade pode ser nomeada por comunicação, de modo próprio, mas apenas de modo racional, e não real. Trata-se daquela hipótese em que existe, de fato, apenas um representante de uma espécie, mas podemos imaginar a possibilidade de que houvesse outros. São Tomás dá aquele exemplo retirado da física do seu tempo, quanto ao sol: achava-se que, no universo, só o sol reuniria as condições para ser o que é, e não haveria estrutura, no universo, para que existisse um outro sol. No entanto, um segundo sol seria ao menos concebível, sem contradição, e o nome “sol” poderia ser propriamente comunicado a este segundo sol, que, embora não existisse de fato (segundo se acreditava na época), poderia concebivelmente existir.
De modo impróprio, os nomes podem se comunicar por semelhança. Trata-se do caso em que um ente guarda em si algum aspecto que o assemelha a natureza do outro ente. Assim, um soldado muito valente, de muita bravura em combate, é chamado de “leão” metaforicamente, porque demonstra, no seu agir, semelhança com um leão. Esta é uma comunicação imprópria, mas não errônea. É neste sentido que a Bíblia fala em “divinização” dos que seguem a Jesus, em 2Pd 1, 4, ao nos ensinar que Deus nos quer tornar “participantes da natureza divina”. Ao nos tornar, pela graça, semelhantes a Ele, deus de certa forma comunica a nós o seu nome maravilhoso, de maneira imprópria, mas não errônea. E é exatamente neste sentido que a Igreja sempre reconheceu e venerou os seus santos, ou seja, aqueles que, em sua vida, fizeram-se de algum modo semelhantes a Deus.
Por fim, há um terceiro modo de comunicabilidade dos nomes: por opinião. Trata-se apenas de admitir que, devido à limitação do intelecto humano, às vezes nomeamos com a mesma palavra duas ou mais realidades das quais não poderemos ter certeza, num dado momento, se de fato compartilham a mesma natureza. O exemplo que São Tomás dá, também derivado da ciência limitada do seu tempo, é daquela discussão que havia quanto à natureza do sol. Havia os que diziam que somente o sol tinha aquela natureza de “luzeiro principal”, mas havia os que eram de opinião de que o sol compartilhava a natureza das estrelas, ou mesmo de que seria teoricamente concebível haver um outro sol em algum lugar do universo. Ou no caso dos ídolos; há sempre quem tenha a opinião de que um ídolo pode ser adequadamente chamado de Deus, enquanto os fiéis de outra religião dizem que não.
Portanto, a comunicação dos nomes pode ser própria, por semelhança ou por opinião. A discussão que São Tomás quer fazer, agora, é quanto ao sentido em que usamos os nomes que são comunicáveis destes três modos. O sentido do nome comunicado guarda exata univocidade, nos três? Esta é exatamente a hipótese controvertida que São Tomás nos apresentará aqui, para introduzir o debate: “parece que o nome de Deus é sempre atribuído univocamente, mesmo quando o usamos para designar aquilo que é Deus por natureza, ou por semelhança ou por opinião”.
A questão é da maior importância. Está na base, por exemplo, da longa discussão entre católicos e certos grupos evangélicos quanto à natureza do culto aos santos. Se a ideia de que a palavra “Deus” tem apenas um uso unívoco, em qualquer situação, for verdadeira, então qualquer tipo de culto que derive do reconhecimento de alguma realidade como semelhante de qualquer modo a Deus é um culto simplesmente idolátrico. Assim, a palavra “Deus nomearia legitimamente apenas a própria natureza divina, incomunicável em si mesma, e qualquer outro uso seria reduzido à mera opinião, e pressuporia sempre algum tipo de idolatria. Não é preciso ser muito inteligente para perceber as consequências desta discussão, por exemplo, em toda a ideia da sacramentalidade que está embutida na própria visão religiosa católica, em contraste com a visão protestante mais radical.
São Tomás trará três argumentos objetores e dois argumentos sed contra; e, curiosamente, diferentemente dos artigos que estivemos estudando até agora, no presente artigo São Tomás dirigirá respostas de refutação aos próprios argumentos sed contra, depois de nos trazer a sua resposta sintetizadora e as respostas aos argumentos objetores iniciais. Teremos cinco respostas aos argumentos iniciais, neste artigo, e não apenas três, como foi a metodologia até agora. Ou melhor, na verdade serão quatro respostas, uma vez que as respostas ao segundo e terceiro argumentos objetores serão sintetizados numa só frase, que remeterá basicamente à resposta ao primeiro argumento objetor.
Vamos aos três argumentos objetores iniciais, que procuram sustentar que o nome de Deus é sempre usado de modo completamente unívoco, em qualquer situação.
O primeiro argumento usa a lógica. Quando nos deparamos com alguma afirmação num debate, da qual discordamos, temos que ter certeza de que estamos usando as palavras no esmo sentido, para afirmar e negar. Só existe contradição, numa discussão lógica, entre uma sentença afirmativa e uma sentença negativa, quando as palavras estão sendo usadas no mesmo sentido, nas duas sentenças. Se alguém afirma, por exemplo, que “todo homem é mortal”, e outro refuta, dizendo que algum homem não é mortal, porque o “Homem Vitruviano” de Da Vinci não é um mortal, estamos diante de uma situação em que não há uma contradição verdadeira, mas apenas aparente, porque a palavra “homem” não está sendo usada no mesmo sentido nas duas sentenças. O argumento prossegue, então, dizendo que quando um seguidor de uma religião pagã afirma que um ídolo da sua religião é Deus, e um católico responde que aquele ídolo não é Deus, eles estão claramente se contradizendo. E o argumento conclui que isto implica que eles estão usando o nome “Deus” univocamente, nas duas sentenças.
O segundo argumento faz um paralelo entre o uso da palavra “Deus” para designar aquilo que é Deus de fato e aquilo que é um mero ídolo, por um lado, com a palavra “felicidade”, que alguns usam para designar os prazeres carnais, que, na opinião deles, são a verdadeira felicidade; sem que o sejam de fato. Ora, o argumento conclui que, uma vez que a palavra “felicidade” está sendo usada univocamente para designar tanto aquilo que é verdadeiramente felicidade, quanto aquilo que somente é felicidade na opinião de alguns, então do mesmo modo o argumento conclui que a palavra “Deus” é utilizada univocamente para designar o ídolo e para designar o Deus real.
O terceiro argumento diz que o católico afirma que Deus é aquele ser uno, no qual reconhece a onipotência à qual dirige a adoração. O gentio, porém, afirma que é o ídolo que deve ser compreendido assim, ou seja, como onipotente e adorável. Segundo o argumento, isto prova que tanto o católico quanto o pagão estão usando a palavra “Deus” univocamente, nos dois casos.
Os argumentos objetores iniciais, portanto, ressaltam o uso da palavra “Deus” de modo unívoco, e reduzem todos os usos à univocidade. Os dois argumentos sed contra ressaltarão os usos equívocos, e tentarão reduzir todos os casos em que a palavra “Deus” está sendo usada com sentidos diferentes à categoria da equivocidade. De antemão, sabemos que São Tomás defende que a palavra “Deus” usa-se em diferentes sentidos por analogia, não com univocidade nem com equivocidade. Mas estamos adiantando as coisas. Vamos examinar agora o argumento sed contra, que na verdade reúne dois argumentos no seu corpo.
A primeira parte lembra que os conceitos que temos na inteligência são similitudes da realidade que ele expressa. Já tivemos oportunidade de discutir um pouco a teoria do conhecimento de São Tomás, nas questões anteriores, e o seu realismo equilibrado, capaz de harmonizar o espírito que conhece e a própria coisa conhecida no processo de conhecimento. Agora, este argumento diz; se é verdade que o que está no conhecimento é a similitude, a própria forma da coisa conhecida que é assimilada de maneira intencional, então quando conheço um ser humano guardo em mim a similitude de um ser humano, mas quando conheço uma tela de um grande pintor que figurou um ser humano, então guardo em minha inteligência a similitude de uma pintura, não de um ser humano no sentido real. Por isto, quando olho para uma pessoa e digo: eis um homem, estou usando a palavra “homem” num sentido completamente equívoco àquele que uso para me referir ao desenho, por exemplo, do “Homem Vitruviano” dizendo: “eis um homem”. E o argumento conclui que a palavra “Deus” é utilizada também de modo equívoco para referir o Deus verdadeiro e para designar um ídolo.
A segunda parte do argumento sed contra lembra que não podemos nomear aquilo do qual não podemos formar um conceito, ou seja, só podemos usar palavras para expressar o que conhecemos. Mas o pagão não conhece a natureza divina. Assim, quando um pagão diz que um ídolo é Deus, ele não está exprimindo, nesta palavra, nenhuma verdade sobre a divindade, que nós, católicos, exprimimos quando afirmamos que “Deus é uno e transcendente”. Então, a verdade sobre o Deus verdadeiro e a opinião do que julga que o ídolo é Deus representam, segundo este argumento, usos equívocos da palavra “Deus”.
No próximo texto, veremos a resposta sintetizadora de São Tomás e as correções que ele faz aos argumentos iniciais e aos argumentos sed contra.
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