Antes de continuar a discussão sobre a comunicabilidade do nome de Deus, não resisto a uma pequena digressão: como veremos, ao estudar a antropologia tomista, há na espécie humana algo que ultrapassa a condição da matéria, que é exatamente a inteligência reflexiva e capaz de abstração. Ora, aquilo que ultrapassa a capacidade da matéria não pode ser explicado apenas pela geração material; eis porque São Tomás nos explicará que cada ser humano tem sua forma criada diretamente por Deus. Isto faz do ser humano uma criatura muito interessante: por um lado, partilhamos a forma humana, e por isto pertencemos a uma espécie. Por outro, nossa inteligência nos faz peculiares, e demanda uma intervenção direta de Deus na criação de nossas formas; por isto, a simples pertença a uma espécie não nos explica. Cada um de nós é, além de humano, uma pessoa irrepetível em sua essência mesmo, criada individualmente por Deus. Como animais racionais, compartilhamos características que são materiais com características espirituais quase angelicais. Não resisti a este pequeno interlúdio, porque tenho a exata sensação, quando estou estudando São Tomás, de que, mesmo e principalmente quando fala de Deus São Tomás está, muito agudamente, falando da nossa humanidade, de seus limites e contrastes com a natureza divina e a natureza angelical. E é maravilhoso como isto faz sentido, no seu pensamento. Mas voltemos da nossa reflexão.

Já entendemos como os nomes das coisas podem ser comunicados, no caso das criaturas materiais, que são compostas. Mas o universo, a criação, como vista por São Tomás (e pela fé católica) não comporta apenas seres materiais. Não existe a matéria sem forma, mas nada impede que haja seres cuja forma não é material, e todos os entes geométricos e matemáticos estão aí para nos convencer disto. E, se a inteligência criatural é capaz de lidar com estes entes formais, isto significa que a inteligência criatural tem a mesma natureza – é imaterial – e isto permite fundar racionalmente a nossa convicção da existência de seres inteligentes não materiais, que subsistem sem composição de matéria e forma, sendo puras formas. A tradição os chama de “anjos”. E há neles uma peculiaridade: uma vez que não têm matéria, falta neles o elemento de individualização que permitiria a multiplicação de suas formas em inúmeros indivíduos. Com isto, os anjos – como todo ser imaterial – deve individualizar-se pela sua forma; vale dizer, cada anjo é de uma espécie totalmente diferente do outro anjo. Neste caso, o nome próprio dos anjos (como Miguel, Rafael, Gabriel) não designam apenas os seus supósitos, mas verdadeiramente toda a sua espécie. As espécies animais – inclusive a espécie humana – são nomeadas como universais abstratos, porque cada espécie é representada por inúmeros indivíduos materiais que não esgotam, cada um deles, tudo o que a espécie é. Mas no caso dos anjos, cada anjo esgota a espécie a que pertence. Cada nome de anjo é, de certa forma, um tipo de universal concreto. Neste caso, podemos facilmente concluir que os nomes dos anjos não se comunicam de modo próprio, mas apenas por semelhança.

O caso de Deus é parecido. Há, nos anjos, ao menos uma composição, que os impede de serem totalmente simples: a composição entre a essência, que é a sua forma, e a existência, que tem começo. Anjos são criaturas, não são deuses, e portanto têm começo e vivem numa dimensão de sucessão de acontecimentos que já estudamos anteriormente, e que se chama “evo”. Mas com Deus não é assim: a rigor, Deus não é um indivíduo, no sentido de que ele não é mais um ente no meio dos entes. Ele é o próprio ser, e, para que Deus fosse um indivíduo, seria necessário que pudéssemos conceber alguma coisa acima ou fora de Deus que o pudesse limitar de algum modo – o que seria, obviamente, inconcebível. Com isto queremos dizer que a natureza de Deus não é limitável, mas tampouco é multiplicável, porque a mesma impossibilidade de conceber um elemento além ou fora dele mesmo que o pudesse delimitar, leva à impossibilidade de conceber um elemento além ou fora dele mesmo que o pudesse multiplicar, individualizando as suas instanciações. Poderíamos dizer, portanto, que a natureza divina é um universal concreto, mas não é, a rigor, um indivíduo. Por isto, não há maneira de conceber uma comunicação própria para o nome “Deus”, segundo a realidade.

Mas o fato é que existe quem defenda a opinião de que há vários deuses – são os politeístas. Esta é apenas a opinião deles, e é somente como opinião que eles concebem a multiplicação de Deus. E São Tomás cita a Carta aos Gálatas 94,8) para lembrar que o próprio São Paulo adverte aos pagãos recém-convertidos: “outrora servistes a deuses que na realidade não o são”, e que a “Glosa” explica que estes a quem os Gálatas outrora serviram “não são deuses segundo a natureza, mas segundo a opinião dos homens”. A multiplicação de deuses segundo a opinião humana gera uma palavra que em si mesma é vazia de conteúdo real e próprio – o plural “deuses”. E São Tomás cita, mais uma vez, o exemplo da ciência de sua época, que debatia se o Sol era instanciado apenas pela criatura que nasce e se põe todos os dias, ou se havia outros sóis (discussão que a ciência há muito já superou, mas que, mesmo anacrônica, não invalida o conteúdo filosófico e teológico do pensamento tomista). São Tomás nos dirá que, na ciência de sua época, o nome do sol era incomunicável de fato, mas não segundo a opinião daqueles que ainda pesquisavam a possível existência de outros sóis. Por isto, São Tomás nos diz que o nome “sol” pode ser comunicado, de acordo com a ciência da sua época, segundo a opinião, mas não, pelos dados fáticos de que dispunham, de forma real. No caso de Deus, a incomunicabilidade não se dá por um limite apenas de fato, mas por um limite real, formal, de direito.

Quando ao plural que a Bíblia usa no Salmo 82 (81), 6, chamando os príncipes humanos de “deuses”, São Tomás nos diz que aqui se está diante da outra forma de comunicação: a comunicação por semelhança. Neste caso, o nome de Deus é comunicável àquelas criaturas que apresentam algum elemento que as assemelhe marcantemente a Deus. Os bons príncipes, por exemplo, têm a regência e a providência sobre seus reinos, de uma maneira analógica à que Deus tem sobre toda a criação. Esta semelhança permite uma certa comunicação, imprópria como já vimos, do nome de Deus à criatura. É neste sentido que há algo de divino, por semelhança, em cada santo que realiza em sua vida a vontade de Deus. E é neste sentido que a Bíblia e a Tradição falam em “deificação por participação” dos cristãos: tornar-nos, pela graça, cada vez mais semelhantes a Ele. E neste sentido o seu Nome pode ser comunicado a nós.

Mas se houver um nome próprio para Deus, que ele nos tiver dado a conhecer por Revelação, este nome próprio não será comunicável; São Tomás lembra do Tetragrama (JHWH) revelado aos Hebreus, ou, poderíamos acrescentar, no nome santíssimo de Jesus: neste caso, estes nomes designam Deus na sua, digamos, individualidade. São absolutamente incomunicáveis. Como o nome “Sol”, que, sabemos hoje, designa apenas esta estrela que nos é tão próxima, e é incomunicável a outras estrelas, porque é um nome próprio.

São Tomás vai passar a responder aos argumentos objetores iniciais, não para acolhê-los ou refutá-los simplesmente, como se fosse uma competição, mas para purificá-los, recebendo deles o que deve ser recebido e corrigindo o que deve ser corrigido.

O primeiro argumento é o que cita a 2ª Carta de São Pedro, que fala em tornar-nos divinos por participação. São Tomás responde que esta é exatamente a hipótese em que a comunicabilidade do nome divino se dá impropriamente, por semelhança.

A segunda objeção afirma que o nome de Deus não é um nome próprio, mas um nome comum, já que a própria Bíblia fala em “deuses” no plural. Sendo um nome comum, o argumento quer entender que ele é comunicável de modo próprio e real.

São Tomás responderá que, a rigor, o nome “Deus” não é um nome próprio, como se designasse uma natureza que existe num determinado sujeito; isto porque Deus, como já vimos, a rigor não é um indivíduo. A palavra “Deus” designa uma realidade que, em si mesma, a rigor, não é universal nem individual; em palavras humanas, a natureza divina é algo como um “universal não abstrato”, ou “universal existente concretamente”. Por isto, a palavra “Deus” é apelativa, quer dizer, faz referência a aquilo que de fato é concreto, existente, mas ultrapassa a nossa possibilidade de concepção. E neste ponto São Tomás traz uma noção verdadeiramente humana: nós conceituamos (e damos nomes) às coisas, a rigor, não como elas são em si mesmas, mas de acordo com os limites pelos quais somos capazes de conhecê-las. Isto não significa que o nosso conhecimento determine a própria realidade, como querem Kant ou talvez Hegel, mas que os limites reconhecíveis da nossa inteligência não são obstáculo a que falemos, com todos os cuidados decorrentes da nossa humildade existencial e criatural, daquilo que, embora excedendo a nossa limitação, de alguma forma nos convida a uma relação real, que respeita aquilo que somos. Por isto, o nome de Deus é peculiar. Absolutamente incomunicável em si mesmo, ele é comunicável de modo impróprio por semelhança e mesmo de modo, digamos, simplesmente gramatical, por opinião.

A terceira objeção lembra que, no artigo anterior, estudamos a etimologia da palavra “Deus”, e vimos como ela surgiu das operações de Deus. E o argumento conclui que, como as palavras que designam as operações de Deus (tais como “sábio”, “bom” e outros) são comunicáveis a muitas criaturas, o próprio nome “Deus” também seria.

São Tomás nos remete à discussão do artigo anterior: embora o nome “Deus tenha origem etimológica nas operações divinas, ele tem por significação a própria natureza divina, em sua substancialidade. Mas não é assim com os nomes que significam as próprias operações divinas, porque são dados para designar de modo exclusivo estas operações, e não a própria substância de Deus. É por isto que estes nomes podem ser comunicados de maneira própria, embora, como estamos vendo nesta questão, de maneira verdadeiramente analógica, ou proporcional. Mas a palavra “Deus”, designando a própria natureza divina assim como chega ao nosso conhecimento por suas operações, não é comunicável. Deixemos que só Deus seja Deus.