No texto anterior, havíamos começado a discutir os casos de comunicabilidade de naturezas, e portanto dos respectivos nomes. Vimos o primeiro caso, o modo próprio e real de comunicação. Veremos agora a comunicação por semelhança.
O modo de comunicação de um nome por semelhança se dá quando se pode usar a palavra em razão de alguns elementos que as coisas compartilham, alguns aspectos que elas têm em comum, embora não compartilhem completamente a mesma natureza. Assim, o nome “leão” se comunica propriamente ao velho leão do nosso zoológico ou ao leão que reina majestoso nas savanas africanas. Mas por semelhança eu chamo de leão a tudo aquilo que participa de algum modo da natureza leonina, como um soldado valente, por exemplo. Aqui, o soldado valente é chamado de leão por semelhança, num uso metafórico da palavra. Agora já sabemos de que São Tomás estava falando, quando distinguiu entre a comunicação do nome de maneira própria ou por semelhança.
Agora ele vai falar daqueles nomes que se comunicam de maneira própria. E vai usar a estrutura metafísica aristotélico-tomista, que para ele é tão corriqueira, mas para nós é tão distante e complicada. Mas vamos seguir com atenção o que ele está dizendo.
Já entendemos que a comunicação do nome pode se dar de maneira própria, quando todos os elementos da noção significada pela palavra se realizam nos diversos seres designados (como no caso do meu cão e do cão do vizinho) ou por semelhança, quando algum aspecto da natureza de um ser apresenta-se em outro, de modo a permitir o uso da palavra que o designa, ainda que de maneira imprópria ou metafórica, como quando o soldado é chamado de “leão” pela sua braveza. Agora ele vai nos explicar exatamente de qual maneira se dá a comunicação própria do nome. Ela se dá de maneira plena e real quando dois entes compartilham a exatamente a mesma forma.
Como nós sabemos, na visão estrutural da realidade que a metafísica aristotélico-tomista tem, todas as coisas materiais são compostas de forma e matéria. A forma dá inteligibilidade, a matéria dá individualidade. Vamos pensar concretamente, para facilitar. Imaginemos uma certa quantidade de borracha virgem. Ela pode ser matéria-prima para muitos produtos. Mas, antes de ser moldada, de receber uma forma, eu ainda não sei o que ela é. Ela pode vir a ser uma bola, uma boneca, um pneu, enfim, uma infinidade de coisas. Por outro lado, o molde, que dará forma a matéria, não é capaz de gerar um produto final antes de ser preenchido pela matéria-prima. Até então, ele é apenas uma “promessa” de produto.
Quando a matéria-prima passar no molde, ele será “informado”, ou seja, receberá a forma daquilo que ele será. Neste momento, a boneca, que era apenas um projeto no molde, transforma-se numa bonequinha de borracha perfeitamente individualizada. O molde pode gerar inúmeras bonecas iguais, por isto a rigor ele não é uma “boneca”, mas a simples promessa de que haverá inúmeras bonecas com aquele formato. Por outro lado, a borracha somente passou a ser identificada como uma coisa definida depois de passar pelo molde e virar uma boneca. Por isto, o molde nos dá a forma, a “informação”, a borracha nos dá a matéria, a “individualização”.
São Tomás, seguindo Aristóteles, aplica esta concepção a todos os seres materiais. Tudo quanto existe tem forma e matéria. Eu, como ser humano inteligente que sou, vou me deparando com diversas coisas materiais pela vida afora e abstraio, da matéria que as individualiza, aquela forma que as faz inteligíveis. Vejo um animal de quatro patas que late, vejo outro, vejo outro, e logo abstraio de todos eles a forma de “cão”. Neste caso, como todos estes animais compartilham a mesma forma, embora sejam separados uns dos outros pela matéria que os compõe, eu posso realmente comunicar a todos eles o mesmo nome, de maneira própria, porque eles compartilham a mesma forma. Assim, a palavra que significa a mesma forma compartilhada é uma palavra que pode ser utilizada real e verdadeiramente para designar a todos eles. Mas a palavra que designa a forma individualizada pela matéria – ou seja, o nome próprio deste ou daquele cão, não pode ser comunicada a nenhum outro ser, mesmo que compartilhe a mesma forma. Esta é o primeiro tipo de comunicabilidade, a comunicabilidade que São Tomás chama de própria por compartilhamento real da mesma natureza.
Mas há um outro tipo de comunicabilidade própria, que ele chama de comunicabilidade de razão. Trata-se do caso em que um determinado ente fosse tão peculiar que pudesse existir de fato apenas um indivíduo dele, embora nós pudéssemos conceber racionalmente a possibilidade de que outro viesse a existir. Este era o caso do sol, na física que São Tomás conhecia: naquela época, imaginava-se que o sol era uma coisa tão peculiar que o universo não poderia comportar dois entes como ele, porque não haveria as condições adequadas para que outro sol existisse – a matéria adequada, a energia adequada, o lugar adequado. Os cientistas de então pensavam que o universo só teria condições materiais e energéticas para formar um único sol, embora fosse perfeitamente concebível que, dadas as condições necessárias, um outro sol pudesse vir a existir. Hoje sabemos que o sol é apenas uma dentre muitas estrelas iguais e até maiores, mas na época não se sabia disso. Assim, a natureza do sol, na concepção de Tomás, seria racionalmente comunicável de maneira própria, embora não o fosse realmente. Um outro exemplo mais contemporâneo poderia ser mais adequado: imaginemos que fosse descoberto um cristal raríssimo, composto por elementos tão absurdamente raros que a Terra inteira não contivesse uma quantidade suficiente daqueles elementos para formar um outro cristal do mesmo tipo. Este cristal, então, possuiria uma natureza que não se comunica realmente, por uma limitação de fato. Mas essa comunicação própria é racionalmente possível, digamos, se um meteorito contendo uma quantidade adequada destes mesmos elementos viesse a cair na Terra.
Assim tudo aquilo que compartilha a mesma espécie também comunica o mesmo nome, quando referido à espécie. Porque o fato de que a espécie existe neste ou naquele indivíduo é acidental para a própria noção de espécie, e pode ser abstraído para fins de comunicação do mesmo nome. É isto que São Tomás está dizendo aqui. O que diz respeito ao indivíduo, que é o ser concreto, material, que instancia concretamente a espécie, não pode ser comunicado. Mas o que diz respeito à própria espécie a que ele pertence pode. Assim são os seres materiais, de maneira geral: como que inúmeros representantes individuais e materiais da mesma forma imaterial. E este ser material, composto de matéria e forma, que instancia a espécie em si como indivíduo, é chamado pela tradição escolástica tomista de supósito. Meu cãozinho “Pipoca” é um supósito da espécie canina, portanto.
Continuaremos no próximo texto.
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