A palavra “Deus” existe. E tem um sentido, ainda que para possibilitar que se negue a própria realidade que ela quer descrever, esta palavra é necessária. Nem os ateus, portanto, podem, a rigor prescindir da palavra “Deus”, e precisam saber exatamente em que sentido a estão usando. O presente artigo é mais um daqueles que nos ajudam a refletir adequadamente sobre esta terminologia.

Trata-se de saber o seguinte: quantas coisas podem ser nomeadas pela palavra “Deus”? Quais são os critérios que determinam a extensão de um termo? É isto que São Tomás vai discutir aqui.

Para começar, ele adotará logo a hipótese controvertida de que a palavra “Deus” pode ser usada para nomear propriamente diversas realidades. Na terminologia escolástica, dizer isto significa afirmar que um termo é “comunicável”. Para nós, dizer que alguma coisa é “comunicável” significa simplesmente dizer que eu posso falar sobre ela para alguém. Na escolástica, que tinha uma visão de mundo realista, não contaminada pelo nosso idealismo e nominalismo, dizer que uma palavra é “comunicável” significa afirmar que aquela realidade que cai sob o conceito que a palavra representa existe em mais de uma coisa. Quando eu uso a palavra “cão” para designar o meu animalzinho e o vira-latas do vizinho, eu estou usando uma palavra que expressa verdadeiramente uma realidade que se comunica ao meu cão e ao cão do vizinho. A realidade canina que há no meu animalzinho também existe no cão da casa vizinha. Neste sentido, a palavra “cão” é comunicável, porque pode ser aplicada verdadeiramente ao meu cão e a quantos seres apresentem a mesma essência canina. Então, a hipótese controvertida adotada aqui é de que a palavra “Deus” também expressa uma realidade comunicável, ou seja, ela pode ser utilizada para designar verdadeiramente outras coisas além do próprio Deus. Trata-se, pois, de saber exatamente onde eu posso encontrar a realidade que pode ser verdadeiramente designada pela palavra “Deus”. Onde quer que esteja a natureza divina, aí pode estar a palavra “Deus” de modo verdadeiro. Então São Tomás propõe a seguinte formulação: “parece que o nome Deus é comunicável”.

São três argumentos em apoio a esta hipótese controvertida; dois bíblicos e um teológico. O primeiro argumento, bíblico, cita a segunda Carta de São Pedro, que trata da nossa “divinização por participação”. O argumento começa logo afirmando que uma palavra pode ser empregada para designar adequadamente tudo aquilo a que a realidade que ela expressa se comunica. Assim, se eu tenho uma saída de esgoto que polui completamente um rio, a palavra “poluição” passa a descrever não somente a realidade do esgoto poluidor, mas a própria realidade do rio ao qual aquela poluição foi comunicada. E no caso da divindade? O trecho bíblico citado diz assim (2Pd 1, 4): “por elas, foram-nos dadas as preciosas e grandíssimas promessas, a fim de que assim vos tornásseis participantes da natureza divina”. Ora, se nos tornamos participantes da natureza divina, isto significa, de acordo com este argumento, que esta natureza é comunicável, e por isto a própria palavra “Deus” pode ser usada adequadamente para descrever os seres que receberam esta “deificação” descrita pela passagem citada da Bíblia. O argumento conclui então que a palavra “Deus” é comunicável.

O segundo argumento tem um fundo gramatical: apenas os nomes próprios são absolutamente incomunicáveis. A humanidade, por exemplo, comunica-se por toda a espécie humana; mas São Tomás de Aquino, monge dominicano do século XIII, é uma realidade que não se comunica a mais ninguém a não ser ao próprio São Tomás. Pensemos mais uma vez no exemplo do meu cão e do cão do vizinho. A palavra “cão” certamente se comunica para os dois. Mas o “Totó” da Casa 15 não é o “Pipoca” da Casa 17. E a palavra “Deus”, será que é um nome próprio? Parece que não, diz o argumento. E traz uma citação das Escrituras. No Salmo 82 (81), versículo 6, o salmista chama os príncipes de “Deuses”, assim mesmo, no plural. Ora, nomes próprios não podem ter plural; mas se a Escritura usa um plural de Deus (“vós sois deuses…”) então a palavra “Deus” não é um nome próprio, e portanto nada impede, segundo o argumento, que ela seja comunicável.

O terceiro argumento usa exatamente do artigo anterior a este. Ali, estudando a etimologia da palavra “Deus”, vimos que ela surge a partir das operações divinas. Mas várias palavras que surgem das obras, das operações e das perfeições divinas são comunicáveis, como “bom”, “sábio”, etc. Então o fato de que uma palavra designa uma perfeição divina não impede que ela seja comunicável, diz este argumento.

Estes argumentos nos querem convencer, enfim, de que há possibilidade de usar a palavra “Deus” para designar propriamente realidades que se apresentam em diversos seres, portanto. Mas São Tomás nos traz um argumento contrário, também bíblico, que nos mostrará que as coisas não são tão simples assim.

O argumento sed contra é do Livro da Sabedoria. O trecho do livro critica aqueles que “deram o nome incomunicável à pedra e à madeira”. O trecho citado critica a confecção de ídolos, que, sendo apenas pedra e madeira, são chamados de “Deus” pelos incautos. E alerta que o nome de Deus é incomunicável.

A discussão está bem estabelecida, São Tomás fará sua resposta sintetizadora, colhendo o que há de verdadeiro nos argumentos objetores e no argumento sed contra, e afastando o que neles há de equívoco. E São Tomás fará isto usando a dialética de maneira admirável, como sempre.

Ele começa logo nos dando uma lição sobre a questão da comunicabilidade das realidades, que explicará a comunicabilidade dos nomes a elas atribuídos. O realismo refletido de São Tomás é admirável, porque é sempre criterioso, e sempre lança as bases dos raciocínios que desenvolverá, de maneira excelente. E lançar as bases significa explicar, distinguir, fundamentar adequadamente.

De dois modos um nome é comunicável, diz São Tomás. 1) de maneira própria; ou 2) por semelhança.

Um nome se comunica de maneira própria quando ele pode ser usado para designar muitos seres em sua significação total. É exatamente o caso de chamar de “cão” o meu pequeno animal de estimação e o vira-latas do vizinho. A noção de “cão” se realiza plenamente tanto no meu cãozinho “Pipoca” quanto no “Totó” da casa ao lado.

Continuaremos no próximo texto.