De que exatamente estamos falando, quando usamos a palavra “Deus”? Se é verdade que não podemos conhecer a essência de Deus nesta vida, a não ser por uma graça especial que, mesmo assim, gera uma experiência que muito dificilmente pode ser posta em palavras humanas, é preciso compreender adequadamente o que queremos dizer, quando falamos “Deus”. É isto que se quer discutir neste artigo. Discussão importantíssima. Se somente podemos saber de Deus que ele é, mas não aquilo mesmo que ele é, e somente podemos afirmar dele, mesmo diante de sua Revelação positiva, o que ele não é, ou mesmo a sua relação com aquilo que ele causa, ou ainda a eminência da sua perfeição relativamente à perfeição criada que conhecemos, seria justo, portanto, dizer que não podemos usar a palavra “Deus” para expressar aquilo que Deus é em si mesmo, mas apenas o que ele não é, o que ele causa ou o que deduzimos de sua perfeição a partir da contemplação da perfeição criada. Neste caso, a palavra “Deus” seria um circunlóquio, uma forma arrodeada de falar daquilo que não pode ser dito, em última instância. E os agnósticos poderiam, então, clamar vitória sobre os crentes, dizendo que, quando usamos a palavra “Deus”, estamos falando daquilo que nós próprios dizemos que está além da nossa possibilidade de conhecer. A fé fica remetida à irracionalidade, e pode apenas contar com as emoções e as experiências não comunicáveis como suporte. Não é nisto que São Tomás acredita. Mas por outro lado, ele sabe muito bem que o uso da palavra “Deus” deve cercar-se de muito cuidado e respeito. Temos todo interesse, portanto, em determinar muito precisamente a noção desta palavra, e o modo de usá-la adequadamente.
Para provocar o debate, São Tomás procede admitindo corajosamente a hipótese adversa: parece que quando usamos a palavra “Deus”, não estamos nos referindo à própria natureza divina. E ajunta dois argumentos objetores em favor desta hipótese inicial.
O primeiro argumento é etimológico, isto é, busca a significação da palavra “Deus” na sua origem, citando uma autoridade no assunto que São Tomás respeita, São João Damasceno. Estudando a palavra “Deus”, São João Damasceno aponta três possíveis candidatas a explicação de origem, no idioma grego; primeiro, a hipótese de que a palavra vem de “theein”, que significa “prover todas as coisas”, ou delas cuidar. A segunda hipótese é que a palavra venha de “aethein”, que significa “queimar” (e neste ponto São Tomás cita o Deuteronômio 4, 24, que descreve Deus como um “fogo devorador”); a terceira hipótese é que a palavra “Deus” venha de “Theasthai”, que significa ver todas as coisas. Segundo o argumento, as três explicações referem-se, portanto, simplesmente a operações de Deus, seja como providente, seja como garantidor do bem, seja como regente de todas as coisas. Assim, o argumento conclui que a própria origem da palavra “Deus” demonstra que ela não significa o próprio ser de Deus, a sua natureza divina em si mesma, mas apenas a sua operação.
O segundo argumento é o argumento agnóstico. Para atribuir um nome a alguma coisa, precisamos conhecê-la, diz o argumento. Mas a natureza divina não pode ser diretamente conhecida por nós nesta vida. E ele conclui que, portanto, o nome “Deus” não pode significar a natureza divina.
No argumento sed contra, São Tomás cita outra autoridade que ele admira: Santo Ambrósio, que diz simplesmente que “Deus” é um nome que significa a natureza, ou seja, quando falamos a palavra “Deus” estamos nos referindo à própria natureza divina.
São Tomás vai nos oferecer agora a sua resposta sintetizadora.
A primeira coisa que ele nos ensina é que a etimologia não pode condicionar a plena significação de uma palavra. A etimologia, o estudo da origem da palavra, pode nos dar pistas interessantes a respeito da forma pela qual chegamos a conhecer e a nomear alguma coisa, mas esta nomeação pode simplesmente superar o dado de origem. E ele nos oferece um exemplo que já usou antes, a partir da língua latina: a palavra “lapidis”, que significa “pedra” em latim, tem sua etimologia explicada como tendo surgido da constatação de que uma pedra é “aquilo que machuca o pé” (laedit pedem). Mas quando usamos a palavra “pedra”, não estamos nos referindo à ação de machucar o pé que decorre dela, senão à própria pedra, em sua substância. Nós chegamos a conhecer a pedra porque um dia alguém deu uma topada e colocou nela este nome: “quebra-pé”. Mas não é da topada que falamos, senão da própria pedra, quando usamos a palavra “pedra”.
Explicado o limite do estudo etimológico, São Tomás nos lembra ainda que há outras coisas que conhecemos em si mesmas, por darem-se diretamente aos nossos sentidos, como o frio, o calor, a cor, todos estes acidentes sensíveis das substâncias. Neste caso, o conceito não se forma indiretamente, por menção a um efeito ou a uma ação, senão diretamente, em razão da experiência sensível causada. E a palavra que designa a coisa tem, assim, uma origem mais direta – a etimologia, aqui, coincide com o significado.
O caso da palavra “Deus”, no entanto, parece mais com o caso da palavra “pedra” do que com o da palavra “frio”; também aqui a etimologia não pode condicionar o próprio significado da palavra. De fato, já sabemos que a natureza de Deus não nos é conhecida senão pelas suas operações e pelos seus efeitos. E é em razão destes que podemos nomeá-lo; assim, a palavra “Deus”, etimologicamente, vem da operação divina, que é a de ser providência universal da criação. De fato, quem usa esta palavra tenciona nomear aquele mesmo que cuida de todas as coisas pela sua providência universal. Mas não quer falar deste cuidado, senão do próprio ser daquele que cuida. E São Tomás vai citar o [pseudo-] Dionísio para explicar que a palavra “Deus” designa a própria natureza divina daquele “que tudo vê, com uma previdência e bondade perfeitas”. A palavra, que nos surge a partir da operação divina, passa a significar o próprio autor destas operações. É neste sentido, portanto, que usamos a palavra “Deus”: para significar o próprio ser providente e bondoso que cuida de toda a criação. E não para significar o cuidado mesmo que ele dispensa.
São Tomás passa a responder aos argumentos objetores. O primeiro argumento é aquele que cita a pesquisa etimológica de São João Damasceno sobre a origem grega do nome “Deus”; São Tomás vai dizer que a pesquisa é boa e válida, porque evidencia que o nome Deus foi dado a partir da providência divina. Mas, como foi visto na resposta sintetizadora, a etimologia, neste caso, não pode condicionar o uso atual da palavra. O erro, portanto, não está no argumento do damasceno, mas naqueles que, compreendendo mal este argumento, limitam a palavra “Deus” ao conteúdo da sua etimologia.
O segundo argumento é o argumento agnóstico, como nos lembramos. Ele nega que possamos nomear a própria natureza divina, porque não poderíamos nomear aquilo que está além da nossa capacidade de conhecer. São Tomás vai usar de novo o exemplo da pedra: de certa forma, conhecemos a própria natureza da pedra através de suas propriedades e operações; sabemos de sua dureza quando topamos nela com nosso pé, sabemos de sua aspereza quando a apalpamos, de suas tonalidades quando a vimos, e assim por diante. Por isto, as propriedades e efeitos da pedra formam em nós o conceito de pedra (que certamente não esgota tudo o que a pedra é, já que há uma infinidade de coisas a saber sobre mesmo a menor das pedrinhas, como composição química, estrutura física, etc., que demandariam muito mais do que o tempo de uma vida humana para esgotar) mas que representa verdadeiramente o que a pedra é substancialmente. De maneira análoga, pelas vias da negação, da causalidade e da eminência não conhecemos a natureza divina a ponto de penetrar na sua essência, mas temos informações suficientes para designar-lhe um nome – “Deus” – capaz de expressar a natureza divina: aquele que existe acima de tudo, que é outro com relação a todas as criaturas, e que é princípio de todas as coisas. É isto que querem dizer os que aplicam a ele o nome de “Deus”.
É por isto que todos, ateus, crentes e agnósticos, embora não concordem sobre a própria existência e inteligibilidade de Deus, podem ao menos concordar sobre o significado desta palavrinha que usam para negá-lo, para declará-lo incognoscível ou simplesmente para louvá-lo, amá-lo e buscá-lo. Os ateus usam a palavra para negar que haja um ser de natureza divina; os agnósticos, para negar que se possa saber qualquer coisa sobre elem, mesmo se existe ou não. E os crentes para afirmá-lo. Mas em todos os casos a palavra significa sempre esta natureza que se refere a Deus. Use com cuidado.
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