Vimos, no texto anterior, como São Tomás identifica três tipos de relações, a partir da análise dos termos ou extremos da própria relação, além da natureza do próprio vínculo. Vimos como esta questão é importante, uma vez que nossa forma de pensar, hoje em dia, é completamente nominalista, no sentido de que pensamos que todas as relações são de razão, e não existem relações reais entre as coisas. Ocorreu-me, inclusive, que esta concepção nominalista de mundo pode ter levado, entre outras coisas, ao caos ambiental e humanista em que vivemos: se não reconheço relações reais, também não posso reconhecer a realidade de coisas como ecossistemas, cadeias naturais e equilíbrio ambiental, nem tampouco a importância das famílias e das pequenas comunidades para a felicidade dos seres humanos. É apenas uma digressão, mas remete ao famoso discurso que o Papa Bento XVI fez no Parlamento Alemão em 20 de setembro de 2011: “O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana.”
Aqui, acompanharemos como São Tomás responderá às objeções inciais, complexas, e com respostas que podem soar ainda mais complexas para nós, que desconhecemos a riqueza da visão tomista das relações. Por isto, é preciso paciência para seguir estas respostas: ler a Suma pode ser um pouco como rezar um terço; oração por oração, lentamente, o círculo vai caminhando e a tarefa vai andando, no seu próprio ritmo e não no nosso. Este é um exercício dificílimo para nós, acostumados a receber tudo rapidamente, mastigado, criticado e posicionado. Com a Suma não é assim: devemos ler, rezar e chegar às nossas próprias convicções, crescendo junto com o caminhar da obra. Lembremos que, desde os tempos de São Tomás até hoje, a Suma foi o texto-base para a formação dos sacerdotes católicos, e muito poucos leigos, fora de um Seminário, a leram, nos últimos 800 anos. Para nós, leigos, é um tesouro amplamente inexplorado. Que se abre, em nossa geração, a partir de diversas traduções muito boas. E, em tempos de profundas transformações eclesiais, o caminho para lê-la, no caso dos leigos, é em grande escala o caminho autodidata. Inevitável que nos sintamos, muitas vezes, como exploradores de uma velha catedral lindíssima mas pouco transparente para o visitante, com moradores quase hostis para os filhos mais humildes, cuja sede pode ser confundida com uma curiosidade malsã. Peço todos os dias a Deus, nas minhas orações, que não seja. Mas não consigo entender, a esta altura, qual a razão desta sensação de abandono que às vezes sentimos nos corredores desta magnífica catedral.
Voltemos da digressão. O primeiro argumento objetor, aqui, é aquele que examina as palavras “Senhor” e “Criador”, a partir de uma citação de Santo Ambrósio. Ele diz que o termo “Senhor” exprime o poder substancial de Deus, e “Criador” exprime o agir divino, que é sua essência. E conclui que estas duas palavras não estão sendo ditas de Deus de modo temporal, ou seja, não trazem na sua significação a própria relação com as criaturas, senão a expressão de características eternas do próprio Deus. São Tomás responde fazendo uma distinção: ele diz que certas palavras relativas são empregadas para exprimir a própria condição relativa, ou seja, o próprio vínculo da relação, em seu ser. E exemplifica com as palavras “Senhor” e “Servo”, “pai” e “filho”. Não se pode sequer pensar num pai sem que se pense num filho, ou designar alguém como “senhor” senão pressupondo que ele tem um “servo”. As palavras estão sendo usadas, portanto, para manifestar o próprio ser da relação que exprimem. Assim, quando chamo Deus de “Senhor”, não digo nada diretamente da substância de Deus; apenas pressuponho, indiretamente, o seu poder, porque, numa relação de domínio, o lado que tem poder será sempre o senhor. Mas sem o servo não há senhor, portanto não se pode afirmar que Deus é “Senhor” senão em razão de sua relação com a criatura, e não simplesmente em razão do seu poder. É por isto que Tomás chama o termo “senhor” de “relativo segundo o ser”.
Mas há outro tipo de termo relativo, que designa a coisa em razão da sua capacidade de entrar em relação, mas sem expressar diretamente a própria relação. Ele exemplifica com as palavras “motor” e “cabeça” (caput, no sentido de regente). Quando chamo alguma coisa de “motor”, estou me referindo à própria coisa, e apenas indiretamente à relação que ela pode estabelecer com aquilo que é movido por ela. Um motor é motor mesmo quando esteja parado, e não haja nada para que ele entre em relação de movimento; mas um pai não é pai sem filho. É por isto que a palavra “motor” é chamada, por São Tomás, de “relativa segundo o modo de falar”, ou segundo a “expressão”, e não segundo o próprio ser da relação, como é o caso da palavra “Pai”. Neste caso, a palavra designa a própria essência daquilo que ela significa, e apenas como consequência ela significa a própria relação. Quando digo que Deus é criador, quero dizer que é próprio de seu ser a criação, entendida como a ação de tirar o ser do nada. Mas esta criação implica a relação que com ela se forma, ou seja, o próprio “ser criador” implica a criatura, que foi tirada do nada para o existir. Eis porque São Tomás conclui que em ambos os casos, seja quando usamos uma palavra que traz em si a própria condição relacional, seja quando usamos uma palavra que designa o ser daquele que entra em relação, mas implica a própria relação como consequência, estamos usando estas palavras em razão das relações que elas significam ou implicam, e não em razão do próprio ser de Deus a que elas apontam. Elas trazem em si, portanto, a marca da temporalidade própria desta relação que significam.
A segunda objeção é aquela que diz que só podemos dizer alguma coisa em sentido temporal (ou seja, falar como se aquilo começasse e terminasse) daquilo que tem a temporalidade em si mesmo, ou seja, das coisas que foram feitas, mas nunca de Deus. São Tomás responde que, embora a relação com Deus seja sempre real para nós, quando nos referimos a Deus elas são de razão para ele; existem por um limite do nosso modo de falar. A própria Bíblia age assim; às vezes ela menciona alguma relação com Deus que é temporal em sua significação, quanto a nós, mas para Deus tem apenas a noção de uma relação de razão. E cita o Salmo 90 (89), 1; “Senhor, tu te tornastes um refúgio para nós”. Ora, Deus não se tornou nada, mas não há dúvida de que nós nem sempre estivemos neste refúgio que é ele. Por isto, as palavras que significam esta relação são aplicadas temporalmente a Deus.
A terceira objeção cita a Bíblia para nos lembrar que o amor que Deus tem para conosco é eterno (Jer 31, 3), e portanto mesmo as palavras que significam relações aplicam-se a ele não num sentido temporal, mas num sentido eterno. São Tomás diz que as operações do intelecto (o conhecer) e da vontade (o amar) estão em Deus eternamente, de fato, no sentido de que o conhecimento que ele tem de nós, e o amor que ele tem por nós, são eternos nele. Mas nós mesmos existimos apenas no tempo, e portanto as relações que Deus estabelece conosco a partir de sua transcendência até a nossa imanência são expressadas por nós a partir dos efeitos que elas geram no tempo. E portanto as palavras que designam estas relações guardam sempre em si o sentido da temporalidade com que nós as conhecemos, em razão de sua exteriorização: é neste sentido que chamamos Deus de nosso Senhor, Criador e Salvador.
A quarta objeção é aquela que diz que as palavras relacionais aplicadas a Deus nunca podem ter sentido temporal, porque a temporalidade só é relativa à criatura, que é o lado oposto da relação, e nunca se deve nomear um lado por alguma coisa que é própria do lado oposto. Mas do lado de Deus não pode haver nada de temporal; então, segundo o argumento, seria impossível usar palavras no sentido temporal para designar qualquer coisa em Deus, mesmo as suas relações com as criaturas. Tomás responderá que não é bem assim. De fato, da parte de Deus, as relações expressas pelas palavras exemplificadas, como “Senhor” e “Criador”, existem em Deus apenas como distinção de razão. Mas nas criaturas existem realmente! Assim, desde que estejamos bem conscientes de que estas palavras estão sendo atribuídas a Deus em razão das relações que estão realmente nas criaturas, não há nenhum inconveniente em aplicar estas palavras a Deus no sentido temporal, uma vez que as criaturas estão realmente referidas a ele. Do mesmo modo, São Tomás exemplificará (tirando o exemplo de Aristóteles) que, embora o conhecimento esteja no intelecto de quem conhece, não há nenhum inconveniente de chamar a coisa que é objeto de conhecimento de “cognoscível”, embora a relação de conhecimento não seja real para ela.
O quinto argumento diz que se a relação não é real para Deus, mas apenas de razão, isto significaria que, quando chamamos Deus de “Senhor” estamos dizendo que ele não é Senhor de verdade, mas apenas na nossa razão, o que é falso, porque Deus é “Senhor” de verdade. São Tomás responderá usando a lógica aristotélica: dizer que a relação de “senhorio” é uma relação de razão em Deus significa dizer que Deus se refere à criatura pela mesma razão com que a criatura se refere a ele. Ora, a criatura se refere a Deus com uma relação de sujeição que nela, criatura, é real. Isto significa que Deus não é Senhor apenas segundo a razão, mas de modo real, porque é de modo real que a criatura lhe está sujeita. Assim, ele é realmente “Senhor”, pela maneira real da sujeição das criaturas a si.
Finalmente a sexta objeção é aquela que lida com as relações assimétricas, em que um dos termos da relação pode existir sem que o outro exista – como é o caso da coisa cognoscível, que existe em sua cognoscibilidade mesmo que não exista um intelecto para conhecê-la. Assim, o argumento garante que as relações de Deus com a criação são reais e eternas nele, independentemente do outro termo da relação, que é a própria criação. Por exemplo, Deus seria Senhor eternamente, verdadeiramente, mesmo que não houvesse alguma criação para sujeitar-se temporalmente a ele.
São Tomás, em sua resposta, vai dar mais uma aulinha sobre relação. Ele nos diz que, para saber sobre a simultaneidade ou não dos termos de uma relação, não devemos olhar a ordem das coisas que se relacionam, mas o próprio significado dos termos relativos. Quando o significado dos termos relativos incluem-se reciprocamente um ao outro em sua compreensão, então os termos descrevem sempre uma relação que é simultânea por natureza. Ele dá exemplos, para tornar mais fácil compreender o que ele está falando; são dois exemplos. No caso de pai e filho, a palavra “filho” inclui em sua compreensão a noção de pai, e reciprocamente a palavra “pai” inclui a noção de filho. Não há como pensar num pai sem pensar simultânea e reciprocamente num filho, e vice-versa. Também é assim quando comparamos quantidades: quando vemos alguma coisa que tem o dobro da massa de outra coisa, referimo-nos de modo implícito, simultâneo e recíproco a alguma outra coisa que tem a metade da massa do primeiro.
Mas no caso do conhecedor e do conhecido, na coisa a ser conhecida existe a potência de tornar-se conhecido antes mesmo que exista qualquer conhecedor que venha a conhecê-lo em ato. Posso conceber, portanto, que haja alguma coisa que, mesmo nunca tenha sido efetivamente conhecida pelo ser humano, possa vir a sê-lo no futuro, como uma galáxia distante ou um peixe abissal. É um conhecível (ou cognoscível), em potência. Mas só há conhecimento em ato quando o conhecedor em ato relaciona-se efetivamente com um conhecido, que se torna conhecido em ato. Neste caso, portanto, há uma relação assimétrica, em que a potência para tornar-se conhecido antecede o ato de conhecer daquele que ocupa o outro termo da relação.
No caso da palavra “Senhor”, quando atribuída a Deus, ela tem a natureza de uma relação simultânea: ainda que Deus anteceda à criatura, na própria noção de “Senhor” está incluído, simultânea e reciprocamente, que haja um súdito. Por isto, São Tomás conclui que não se pode afirmar que Deus é efetivamente “Senhor” antes de ter um súdito – antes das criaturas. Lembremos, no entanto, que os limites da nossa linguagem expressam de modo limitadíssimo, embora verdadeiro, a realidade de Deus.
Para concluir, uma palavra de alento e maravilha, diante de uma discussão tão áspera; podemos estabelecer uma relação pessoal com Deus, e chamá-lo verdadeiramente de “meu Senhor e meu Deus”, como fez São Tomé. Deus é eterno e imutável, e certamente aquilo que ele é, ele sempre foi e sempre será. Mas a sua relação comigo é real, existe para mim. Deus é Deus. E é Deus para mim e comigo. Posso dizer isto com toda a verdade. Ele não é distante, frio e indiferente. E se relaciona de verdade com as suas criaturas, e com cada uma delas, no tempo de cada criatura. Posso dirigir palavras de relação pessoal com Deus, sem ofender à sua majestade infinita. “Na verdade, ele não está longe de cada um de nós” (At 17, 27). É isto que São Tomás nos ensina tão profundamente neste artigo.
Deixe um comentário