Como falar de Deus, eterno e imutável, a partir da sua relação com a sua criação, que se caracteriza pela contingência, pela mudança, pela temporalidade? Vimos nos argumentos objetores iniciais seis posições que negam que seja possível atribuir a Deus palavras que exprimam, de certa forma, a temporalidade em sua relação com a criação. Agora, em sua resposta sintetizadora, São Tomás começa logo nos afirmando categoricamente que as palavras que descrevem as relações de Deus com a criatura trazem, sim, a noção de temporalidade dentro de si. E para nos explicar exatamente como pode acontecer que exprimamos alguma noção de temporalidade para Deus, descrevendo uma relação dele com a sua criação que não é de frieza e indiferença, mas de efetividade, de amor, São Tomás nos dará uma aula sobre a categoria lógica da relação. Nós sabemos que Aristóteles divide o ser em dez categorias, a categoria da substância (expressando aquilo que permanece no ser através de suas mudanças) e as nove categorias acidentais – dentre elas a relação. Com isto não se quer afirmar, como fazem os individualistas contemporâneos, que a própria relação, em si mesmo, é algo que pode ser desprezado, dispensado, e a substância subsistiria assim, absoluta, isolada em si mesmo. A relação é intrínseca à própria coisa; não existe nada que não se relacione. Mas como e quando as coisas se relacionam, aí há um acidente. Mas o próprio fato de relacionar-se não é acidental – tudo se relaciona, necessariamente, mesmo porque, como veremos na próxima parte da Suma, a relação é uma categoria substancial na Trindade Divina.
Trazer a temporalidade dentro de si significa reconhecer que há, sim, uma relação entre Deus e as suas criaturas, relação dinâmica e efetiva, expressada em termos como “Senhor” e “Criador”. Deus não é um espectador distante, nem um monstro de egoísmo fechado em si mesmo e indiferente ao mundo. Ele efetivamente nos criou, fez isto por amor e efetivamente nos conduz para o bem, embora por caminhos misteriosos, que nos escapam. Não nos escapa, porém, o próprio fato de que ele nos ama e nos quer. “Meus pensamentos não são vossos pensamentos”, diz o Senhor em Isaías 55, 8. Não podemos saber o que pensa o Senhor, mas podemos saber que ele pensa, e que são pensamentos de amor.
São Tomás começa expondo que há duas posições básicas, quanto à categoria das relações:
1) algumas pessoas defendem que as relações são sempre reais, ou seja, existem sempre na ordem das coisas. Se alguém é pai, isto ocorre porque alguém é filho, e isto é um fato que se dá na ordem das coisas: alguém gerou, alguém foi gerado. São Tomás nos explicará, adiante, que as coisas não são tão simples assim, e que a categoria das relações reais não é capaz de dar conta de toda a extensão da categoria das relações. São Tomás não é um realista extremado, que quer naturalizar mesmo aquilo que é simplesmente lógico ou cultural.
2) Mas há outros que afirmam que as relações ocorrem apenas na ordem da razão: é a nossa mente que, percebendo regularidades na natureza, atribui a estas regularidades o conceito de relação. Mas, para estes filósofos, estas relações não existem na natureza, senão apenas na nossa mente. Nós podemos pensar em inúmeros filósofos que defendem esta posição: o mais célebre talvez seja David Hume, que nega qualquer espécie de causalidade na ordem das coisas. Hume defendia que as regularidades da natureza nos fazem acreditar que há causas, mas isto não é verdade; no entanto, depois de tanto ver uma coisa acontecer depois da outra, acreditamos que elas acontecem uma por causa da outra. Assim, vemos um homem relacionar-se com uma mulher e daí nasce um filho. E, segundo os que pensam assim, atribuímos a origem do filho ao relacionamento entre o homem e a mulher, projetando uma categoria que não existe, para eles, senão na nossa mente e na nossa linguagem. Estes pensadores são muito influentes neste nosso tempo, que acredita que mudando a linguagem pode mudar a natureza das próprias relações. Por isto, há quem lute, hoje, para redefinir as próprias relações familiares, corporais e sociais a partir da imposição de uma linguagem nova sobre elas. É o que se convencionou chamar de “linguagem politicamente correta”. Isto somente seria possível se não houvesse nenhuma relação real, mas todas as relações fossem apenas de razão, produtos de nossa mente. Portanto, a noção de “relação de razão” também não pode esgotar todo o campo das relações. Como harmonizar as duas posições?
E é isto que São Tomás nos explicará agora. Ele diz que há três elementos, três condições que devemos identificar para saber se uma relação é real ou apenas de razão: os dois extremos da relação, e o vínculo que existe entre eles.
São Tomás nos explica que as relações de razão existem, mas as relações reais também. Os seres da natureza têm de ato uma ordem natural, e portanto há uma relação mútua real entre eles. Assim, existem efetivamente relações reais na natureza. Mas existem também relações de razão, como aquela que existe quando eu olho para uma florzinha e digo: “esta flor é vermelha”. Ora, não existe, na ordem da realidade, uma coisa que é uma flor e outra coisa que é a vermelhidão, que eu identifico como relacionados entre si. É a minha inteligência que apreende a flor como um ente, e apreende neste ente a cor vermelha, sob a razão de acidente. Portanto, é apenas na minha inteligência que se estabelece uma relação entre a flor e a vermelhidão como se fossem duas coisas, quando na verdade, na realidade, são uma coisa só. A relação entre a substância de um ente e seus acidentes, portanto, é apenas uma relação de razão, porque na verdade, na ordem das coisas, eles são uma e a mesma coisa, que é apreendida pela razão sob dupla concepção. É a mesma coisa com a relação entre um ente e sua existência, ou mesmo entre um ente e sua espécie ou gênero.
Quando o vínculo que identificamos entre os dois extremos de uma relação existe apenas como um efeito da nossa apreensão racional, então estamos diante de uma relação de razão. Nossa razão separa, analisa, divide o que em si mesmo é indiviso, para apreender. Olho para a flor, e na minha mente separo sua substância da sua cor, para afirmar: “esta flor é vermelha”. Mas a relação entre a flor e sua cor é apenas de razão: apreendemos a flor assim, mas ela, em si mesma, é uma unidade. Também é assim quando atribuímos gênero e espécie a um ser: é um exercício de separar para reunir e aprender, mas não há separação real entre um ente, sua espécie e seu gênero.
Mas há relações em que os dois extremos não são relacionados apenas pela nossa apreensão, mas são realmente distintos e relacionam-se na ordem das coisas. São Tomás nos traz, então, a categoria da quantidade: quando comparo duas coisas, e relaciono estas coisas em razão do seu tamanho, a quantidade está realmente nelas, e a comparação se dá por aquilo que está na ordem da natureza: algo é grande somente em comparação com outro algo que é pequeno, e o que é grande existe de fato, e o que é pequeno também, como coisas distintas na ordem natural. É certo que o vínculo entre elas somente pode ser identificado por uma inteligência; mas isto não significa que o vínculo mesmo não exista, e mesmo preexista, na ordem da natureza antes mesmo que uma inteligência o identifique. Diferentemente do vínculo entre uma flor e a sua vermelhidão, que só existe na minha apreensão e por causa dela, a relação entre uma coisa grande e uma coisa pequena existe porque há duas coisas diversas entre si cuja quantidade, reciprocamente mensurada, de fato difere, é comparável e apresenta a diferença que identificamos. Além da categoria da quantidade, São Tomás nos exemplifica com a categoria da ação e paixão, como é o caso entre uma coisa que empurra outra: existe de fato, aí, algo que empurra e algo que é empurrado, como seres diversos entre si que ocupam os extremos de uma relação cujo vínculo é o próprio movimento. Mesmo que não haja uma inteligência humana para identificar esta relação, ela existe realmente. É este, também, a relação existente entre o pai e o filho: algo gera, algo é gerado. É uma relação real. Existe mesmo que ninguém jamais a tenha apreendido racionalmente.
Mas São Tomás nos lembrará que há um terceiro tipo de relação: aquele que ocorre quando um dos extremos da relação é uma realidade da natureza, e o outro é apenas de razão: é uma relação assimétrica, em que os dois extremos não são da mesma ordem. Aqui, os extremos da relação são de fato entes diversos entre si, mas um dos extremos da relação é realmente afetado pela relação na ordem das coisas, enquanto o outro termo relaciona-se apenas na ordem da razão. São Tomás nos trará dois exemplos: o deslocamento de lugar e a relação de aprendizagem.
No caso do deslocamento de lugar, pensemos num animal que está passando à direita de uma árvore. A árvore, aqui, como extremo de uma relação de lugar, é a referência que estabelece o marco do deslocamento do animal, na nossa apreensão. Mas o animal de fato se move localmente, embora a árvore não o faça. Deixemos de lado por um momento todas as teorias físicas da cinemática pós-newtoniana, ou mesmo as complexas teorias de deslocamento local de Einstein, agora, para nos concentrar nos três elementos da relação, aqui. Há dois entes e um vínculo, mas apenas o animal é afetado realmente pela relatividade do movimento local apreendido. É o animal que passa à direita da árvore. Para ele, a relação é real; seu deslocamento se dá de fato, e a posição que ocupa pode, de fato, ser mensurada pela árvore. Mas a árvore não se move: ela foi apenas escolhida, pela nossa inteligência, para mensurar o movimento do animal. Assim, para ela, a relação é apenas de razão.
Também é assim na relação de conhecimento. Quando eu conheço alguma coisa, eu de fato estou conhecendo aquela coisa, e não outra coisa qualquer. Há, para mim, uma relação real, a relação de aprendizagem, que me transforma, levando a minha inteligência da potência ao ato com relação ao conhecimento. Mas a coisa apreendida não é afetada pela minha aprendizagem, senão por uma relação de razão. A pedra que o geólogo estuda continua a ser uma pedra, e nem sabe que está sendo estudada. Para ela, como extremo da relação de conhecimento, esta relação é de razão. Para o geólogo, é uma relação real. Por desconhecer esta relação mista, a teoria do conhecimento que temos hoje está enredada em paradoxos de idealismo e niilismo que parecem intransponíveis, mas que são resolvidos com elegância pela filosofia aristotélico-tomista.
É este tipo de relação que explica nosso envolvimento com Deus. Nós estamos ordenados a ele de verdade. Ele é nosso Senhor e Criador, é nosso princípio e fim. Ele nos afeta de verdade, nos criou e conduz pela mão e nos ama. Mas, em seu dinamismo, ele mesmo é imóvel. Isto significa que todo o nosso ser, toda a nossa existência, todo o nosso rumo não é capaz de transformá-lo, de mudar uma vírgula no seu amor infinito, na sua felicidade plena. A relação com Deus é real para nós. Mas, a rigor, é uma relação de razão do lado dele. Esta é a maneira humana para descrever como ele pode nos amar, nos reger, nos conduzir sem ser, ele próprio, conduzido por nós.
Mas no seu dinamismo amoroso e providente, Deus nos alcança e nos transforma de fato. E esta relação, que é real em nós, é descrita por nós a partir da mudança real que ocorre na criatura; e esta mudança se dá no tempo. É por isto que as palavras que exprimem a temporalidade na relação podem ser predicadas de Deus, na sua relação com a criatura, sem perder a verdade do aspecto temporal desta relação. O tempo está em Deus. Mas Deus não está no tempo.
No próximo texto veremos como São Tomás, a partir destes princípios, responderá às objeções colocadas no começo do artigo.
Deixe um comentário