No primeiro texto sobre este artigo, fomos introduzidos no debate sobre o uso das mesmas palavras para as criaturas e para Deus, sob a hipótese inicial de que este uso era unívoco. Três argumentos objetores foram aduzidos em favor da univocidade.

Ainda no primeiro texto, vimos os argumentos sed contra que defendiam que estas palavras eram usadas equivocamente, quando predicadas de Deus e das criaturas.

No segundo texto desta série, vimos a resposta sintetizadora de São Tomás que nos revelou quais as consequências de se entender estas palavras como unívocas ou como equívocas, e nos apresentou à analogia, tanto de proporcionalidade quanto de atribuição, como aquela via média entre a univocidade e a equivocidade, e que ns permite usar nossas palavras para falar de Deus. Vimos como o termo “analogia” aparece no Livro da Sabedoria e no Catecismo da Igreja Católica.

Neste último texto sobe o artigo 5 desta questão, estudaremos as respostas de São Tomás aos argumentos iniciais, a partir da noção de analogia que ele nos apresentou, e como estas respostas nos ajudarão a esclarecer ainda melhor o tema.

O primeiro argumento é aquele que busca reduzir as palavras equívocas a seu sentido unívoco, considerando-o mais fundamental do que o sentido equívoco, e cita as causas univocas – como a reprodução humana, que gera efeitos unívocos com relação ao agente – como mais fundamental do que a causalidade equívoca (cujo exemplo é o sol, que é concausa equivoca de tudo o que existe de vida na terra, sem ser, ele mesmo, vivo). São Tomás concede que, na lógica, na semântica, o sentido unívoco das palavras é mais fundamental que sua eventual equivocidade. Mas na ordem da causalidade as coisas não são assim: as causas unívocas não são as mais fundamentais, às quais todas as outras se reduzem. Estamos aqui diante de uma confusão do plano lógico com o plano ontológico. No plano lógico, de fato as coisas são como o argumento diz. Mas no plano ontológico não. As causas unívocas não podem ser mais fundamentais que as causas não unívocas. E isto é simples de verificar: o primeiro ser de uma espécie não pode ter sido gerado de forma unívoca. Simplesmente porque a causa unívoca pressupõe a existência da espécie que gera, e não pode ter gerado a si mesma. Quem gerou o primeiro da espécie, então, não podia pertencer à própria especie, porque aquilo que ainda não existe não pode ser causa eficiente de si mesmo. E mais uma vez ele cita o sol: de fato, o sol já gerava o calor que seria necessário para sustentar a vida na terra antes mesmo que qualquer vida existisse por aqui. Logo, ele é mais primário para a vida do que a reprodução dos seres vivos para o surgimento de novos seres vivos. A reprodução sempre pressupõe a existência de seres vivos que se reproduzem, portanto não pode explicar como surgiu a própria vida, e certamente ela não surgiu em primeiro lugar por reprodução. Por isto, a causa eficiente primeira não pode ser unívoca com a criação. Mas, por outro lado, São Tomás nos lembra que ela tampouco pode ser completamente equívoca: o efeito, como sabemos, está sempre contido de algum modo na causa, ao menos eminentemente, quer dizer, ao menos como uma capacidade de fazer. De fato, por exemplo, a música da orquestra esta sempre contida na mente do maestro antes de ser executada; além disso, há sempre alguma semelhança entre o efeito, mesmo não unívoco, e a causa: nenhum maestro produz cores, mas sons, e estes devem de algum modo entrar na sua capacidade sensível e na dos seus ouvintes – mesmo quando o silêncio faça parte da própria partitura a ser executada. Avaliando as partituras musicais de uma orquestra, um eventual alienígena de outro planeta que não nos conhecesse certamente teria muitas informações sobre os seres humanos – suas frequências auditivas, sua cultura, sua matemática e assim por diante. É exatamente esta semelhança (não unívoca) entre os efeitos e a sua causa mais fundamental que pode ser designada através da analogia – eis porque a primeira causa não pode ser nem unívoca nem equívoca, mas análoga. E assim, partindo da análise lógica e semântica, São Tomás nos conduz até a analogia do ser.

O segundo argumento é aquele que apela para a noção bíblica de “semelhança” (façamos o homem à nossa imagem e semelhança, Gn 1, 26) para declarar que as palavras podem eventualmente ser usadas univocamente para predicar com o mesmo sentido algo de Deus e algo de nós. São Tomás responderá laconicamente que esta semelhança é imperfeita; as coisas são semelhantes de modo perfeito, ou seja, compartilham algum tipo de identidade, quando compartilham a mesma espécie, ou no mínimo o mesmo gênero. Mas Deus não pertence à mesma espécie que as criaturas, nem mesmo ao mesmo gênero. A semelhança entre Deus e as criaturas não é deste tipo. Portanto, não envolve nenhum tipo de univocidade. Há, apenas uma semelhança de natureza analógica, com todas as características que descrevemos acima.

O terceiro argumento é aquele que usa a noção aristotélica de que qualquer medida tem que ser homogênea com aquilo que é medido, para afirmar que, uma vez que Deus é a medida de todas as coisas, ele deve ser homogêneo com elas, e portanto as palavras usam-se de maneira unívoca para Deus e para as coisas. São Tomás nos responderá que Deus não é daquele tipo de medida que é proporcionada ao que mede. Assim, não há a homogeneidade que justificaria o uso unívoco das nossas palavras para ele.

Neste artigo, São Tomás também dá uma resposta aos argumentos sed contra, que defendem que a linguagem é, neste caso, simplesmente equívoca. São Tomás já demonstrou, na resposta sintetizadora, que a analogia não é uma equivocidade no sentido próprio do termo. Aqui, ele responderá que concorda que as nossas palavras não são atribuídas a Deus e às criaturas de modo unívoco. Mas os argumentos sed contra também não são suficientes para provar que elas se aplicam de modo simplesmente equívoco.