No texto anterior, começamos a conversa sobre a univocidade e a equivocidade nas palavras que usamos para Deus e para as criaturas. Devemos sempre lembrar que, de acordo com o artigo 1 desta questão, na qual São Tomás cita a teoria semântica de Aristóteles, as palavras são sinais dos conceitos, que são semelhanças das coisas. Assim, o que nós falamos deve corresponder ao que as coisas são. Isto constitui exatamente o realismo aristotélico-tomista, em contraste com o nominalismo, e mesmo com o idealismo que são prevalecentes hoje. Nas teorias nominalistas, as palavras não têm relação com as coisas, e a linguagem é apenas uma convenção para descrever aquilo que, em si mesmo, não tem a inteligibilidade do universal. Não é esta a teoria da linguagem de Tomás.
Lembramos que a hipótese inicial deste artigo é a da univocidade das palavras, quando utilizadas para as criaturas e para Deus. E é neste sentido que os três argumentos iniciais se posicionam, a partir de citações lógicas, ontológicas e bíblicas. Os dois argumentos sed contra posicionam-se no sentido de que as palavras utilizadas para as criaturas e para Deus são equívocas. Se as palavras são sinais dos conceitos, que são semelhanças das coisas, precisamos deixar muito claro o que significa classificá-las, aqui, como unívocas ou equívocas. As consequências são enormes.
De fato, dizer que utilizamos as palavras univocamente para Deus e para as criaturas significa dizer que o mesmo conceito pode descrever Deus e descrever as coisas criaturais. Ou seja, Deus compartilha a forma das coisas, ou melhor, as coisas compartilham a forma de Deus. Chegamos, assim, necessariamente ao panteísmo. As criaturas compartilham a forma de Deus, porque os conceitos representados pelas coisas são idênticos para as criaturas e para Deus.
Por outro lado, se as palavras, quando aplicadas a Deus, são totalmente equívocas relativamente ao conceito que elas designam quando se aplicam às criaturas, isto quer dizer que a criação não pode nos revelar absolutamente nada sobre Deus; mal comparando: seria como alguém que quer conhecer a astronomia da constelação de Ursa Maior estudando as fêmeas adultas do urso pardo gigante. Se há total equivocidade nas palavras neste caso, então a criação é totalmente opaca para nos levar a Deus, e não guarda em si nenhuma característica que seja capaz de nos habilitar a dizer nada sobre Ele. Somos totalmente outros, totalmente alheios a ele, e condenados a nada conhecer dele; não haveria nem sequer a possibilidade de uma revelação, porque a nossa linguagem não teria a capacidade de recebê-la. Qualquer revelação de Deus aos seres humanos seria incomunicável fora da interioridade do receptor, e se restringiria ao campo do individualismo absoluto, das emoções e das intuições, não compartilháveis senão como poesia. Religião e piedade estariam excluídos não somente da vida social, mas até mesmo da razoabilidade e da inteligibilidade dos seres humanos – seríamos condenados ao pietismo e ao emocionalismo em matéria de religião. Esta é a posição que Erich Przywrara, na sua magistral obra “Analogia Entis”, chama de “teopanismo” – Deus é tudo, a criação é nada, é a inconsistência ontológica, e não guarda relação real com Ele. Isto leva não somente ao pietismo e ao emocionalismo que prevalece em muitos meios cristãos, como também ao chamado new age e às religiões de autoajuda e de culto ao irracionalismo tão comuns hoje em dia.
O nosso debate, portanto, está aqui: entre a univocidade e a equivocidade. Eis um dilema tão característico dos tantos dilemas que enfrentamos hoje em dia: as duas alternativas são insatisfatórias. E é por isto que a resposta de São Tomás será uma síntese magistral. Que, em tanta medida, ficou perdida para nós. E que precisamos resgatar.
São Tomás começa sua resposta já afirmando categoricamente que é impossível predicar-se univocamente a mesma palavra de Deus e das criaturas. Não há espaço para panteísmos aqui.
São Tomás cita, então, mais uma vez, o sol, exemplo que era adequado com a física que se conhecia nos tempos de Tomás. O sol, diz ele, gera efeitos aqui na terra que são múltiplos e não são capazes de transmitir de modo homogêneo aquilo que o próprio sol é. Os efeitos do sol são variados e deficientes, enquanto ele é um só e poderosíssimo. De modo similar ocorre com a criação, com relação a Deus: todas as múltiplas perfeições criadas, compostas e deficientes, contingentes e limitadas, preexistem de modo simples e uno em Deus. Assim, quado conhecemos alguma perfeição de uma criatura, formamos dela um conceito que envolve sua contingência, sua limitação, sua pluralidade e sua multiplicidade. A palavra que usamos aqui, pois, expressa todos os limites deste conceito. Mas quando aplicamos esta mesma palavra a Deus, ela não expressa algo assim, mas uma perfeição que é simples, total, absoluta e indistinta da própria essência divina. E São Tomás dá o exemplo da palavra “sábio”; quando chamamos um ser humano de sábio, expressamos uma perfeição que nele é contingente, acidental e faz parte do gênero da qualidade, não da própria substância humana. Mas quando chamamos Deus de sábio não exprimimos nada que seja diverso da própria substância divina, que coincide com seu poder e com seu ser. Expressa, então, algo que ultrapassa nossa compreensão e excede a significação que originalmente atribuímos a esta palavra. É evidente, portanto, qu a palavra “sábio”, ou qualquer outra palavra que se aplique a Deus e a uma criatura, não está sendo usada univocamente.
Mas também não se trata de um uso puramente equívoco, como os argumentos sed contra colocaram. Se fosse assim, diz Tomás, seria impossível conhecer ou demonstrar qualquer coisa de Deus sem cair no sofisma da equivocação. Seria mais ou menos como construir um raciocínio assim:
Todos as ursas são animais.
Existem duas constelações que se chamam “ursa”.
Logo, existem das constelações que são animais.
Em seguida, São Tomás recorre ao testemunho filosófico de Aristóteles, que fala de Deus em sua obra de maneira razoável, e ao testemunho bíblico de São Paulo, que, na Carta aos Romanos, 1, 20, expressamente diz que as realidades invisíveis de Deus se tornaram visíveis através das criaturas, desde a criação do mundo. Nada disto seria possível se as palavras humanas fossem simplesmente equívocas, quando aplicadas a Deus,
Neste ponto, São Tomás nos dá a solução: as palavras humanas, quando predicadas de Deus e das criaturas, não se revelam nem unívocas nem equívocas, mas análogas. Esta é, portanto, a categoria adequada para compreender o valor das palavras humanas, quando aplicadas a Deus. E o que é analogia? A palavra analogia, de origem grega, significa proporção.
Assim, as realidades significadas por estas palavras são sempre proporcionais – não univocas, nem equívocas. Análogas. E São Tomás nos ensina que há duas maneiras de entender a analogia, na linguagem.
A primeira maneira é a proporção direta, ou analogia de proporcionalidade. É a velha regra que aprendemos na matemática: “a” está para “b” como “c” está para “d”. E São Tomás dá, aqui, o exemplo da saúde: eu posso predicar o adjetivo “saudável” tanto para a urina de um animal, como para o remédio que ele precisa quado está doente. Há uma proporção, aqui: a urina está para a saúde do animal, como um sinal, como o remédio como uma causa eficiente. O adjetivo “saudável” não está sendo usado, portanto, de um modo unívoco quando predicado da urina do animal e do remédio. Mas também não se trata de uma predicação equívoca: trata-se de predicação por analogia. Um outro exemplo desta analogia de proporcionalidade seria falar da visão intelectual; a palavra visão, aplicada ao intelecto, não tem o mesmo sentido que tem esta palavra quando fala de um dos sentidos, aquele que e manifesta nos olhos. Mas não há dúvida de que a apreensão intelectual guarda proporção com o sentido da visão para o conhecimento sensível. Posso dizer: a compreensão está para a visão intelectual como os olhos estão para o sentido da visão. Estou em pleno campo da analogia de proporcionalidade.
Há uma outra maneira de entender a analogia: a chamada analogia de atribuição. Neste caso, existe um primeiro termo, ao qual a palavra se aplica de modo pleno. E vários outros termos relacionados, aos quais ela se aplica de modo analógico, derivado. Retornemos ao exemplo da saúde. Neste caso, a palavra “saudável” claramente se aplica de modo pleno ao animal, que pode estar saudável ou doente. Mas de um modo derivado, ela se aplica à urina do animal, que, examinada pelo veterinário, pode ser um sinal da saúde do bicho. Assim, quando, após examiná-la, o veterinário declara que a urina é saudável, ele está usando a palavra de um modo analógico, derivado. É do mesmo modo derivado que, quando ele diagnostica alguma doença no animal e receita um remédio, ele declara que este remédio é saudável para aquele bicho que apresenta aquela doença, porque o remédio será causa da saúde do animal. Também aqui há um uso derivado, analógico, do termo, em atenção à relação que a urina e o remédio têm com a saúde do bicho. Na analogia de atribuição, portanto, há um uso próprio, primário, do termo, e diversos usos secundários, analógicos, em razão da relação das coisas com aquele primeiro termo. Fazemos isto constantemente; pensemos, por exemplo, no uso da palavra “militar” que, em razão da relação de diversas coisas com as pessoas que pertencem ao exército, pode designar propriamente estas pessoas, e pode designar impropriamente as instalações que elas usam, os veículos que dirigem, as armas que carregam, e assim por diante. Esta é a analogia de atribuição.
Com base no presente artigo, nas famosas “24 teses tomistas” (uma espécie de “guia oficial” para compreender bem o tomismo), a tese IV diz que “o ente, cujo nome deriva de ser, não se diz igualmente de Deus e das criaturas de maneira unívoca, nem de maneira puramente equívoca, mas de maneira análoga, de analogia ao mesmo tempo de atribuição e de proporcionalidade.” Não somente o ente, diríamos, mas tudo o que queremos predicar de Deus com palavras humanas. A analogia não é uma univocidade, porque quando usamos as palavras analogicamente não as estamos usando exatamente no mesmo sentido a cada vez. Mas também não é uma equivocidade, porque não as estamos usando em sentido totalmente disparatado. Há uma comunidade de significações aqui, que representa uma espécie de meio termo entre a univocidade e a equivocidade. Nossas palavras, conclui São Tomás, predicam-se de Deus e das criaturas analogicamente e não em sentido puramente equívoco, nem puramente unívoco; esta é a única maneira de usar a linguagem humana para falar de Deus a partir das criaturas. E assim nos ensina o Catecismo da Igreja Católica:
§41. Todas as criaturas são portadoras duma certa semelhança de Deus, muito especialmente o homem, criado à imagem e semelhança de Deus. As múltiplas perfeições das criaturas (a sua verdade, a sua bondade, a sua beleza) refletem, pois, a perfeição infinita de Deus. Daí que possamos falar de Deus a partir das perfeições das suas criaturas: «porque a grandeza e a beleza das criaturas conduzem, por analogia, à contemplação do seu Autor» (Sb 13, 5).
O livro da Sabedoria, canônico para os católicos, trazem, no texto citado pelo Catecismo, aquela passagem em que as Escrituras usam expressamente a palavra analogia. São Tomás mergulha, pois, numa longa tradição de pensamento.
No próximo texto falaremos sobre as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais. Será um ótimo complemento para a doutrina tomista da analogia.
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