Nesta parte da nossa visita a esta catedral literária maravilhosa que é a Suma Teológica, chegamos num lugar interessantíssimo: um quadro de chaves. Encontramos aqui uma chave-mestra desta construção tão bela: esta chave se chama “analogia”. Mas não coloquemos os carros adiante dos bois: o debate deste artigo será uma excelente introdução ao assunto. A visão analógica da realidade, que São Tomás cultivou e desenvolveu, é de tal modo importante, central no cristianismo, que, em debate ocorrido no século XX, o teólogo protestante Karl Barth (considerado por muitos como um dos teólogos mais importante do século XX) chegou a afirmar que a discussão sobre a analogia do ser é o ponto fulcral da divergência sobre as diversas visões de cristianismo que o ocidente conhece. Para São Tomás, a analogia é a sabedoria de Deus. Barth, no entanto, dizia que as divergências sobre a eucaristia, sobre o primado papal, sobre Maria e sobre a Igreja eram mera perfumaria frente a questão da analogia do ser. E afirmou: “Considero a analogia do ser como uma invenção do Anticristo, e acredito que é por causa disto que é impossível tornar-me católico jamais”. Eis, portanto, o grau de importância da discussão que começa aqui.
Outra coisa interessante aqui é notar que São Tomás usa, algumas vezes, exemplos retirados da física do seu tempo, que ele conhecia muito bem, mas que hoje está cientificamente superada. Fato é que a superação científica do exemplo não invalida o raciocínio filosófico, nem muito menos o raciocínio teológico que subjaz ao debate. Este é, aliás, um argumento muito usado desde o tempo de Tomás até hoje: a superação da ciência do tempo de São Tomás teria tornado ultrapassada também sua metafísica. Este é um engano. Não se faz metafísica a partir da ciência, mas o contrário. Isto não é resistência à ciência, nem supervalorização da fé perante a razão, justo o contrário: é a razão que nos leva a organizar adequadamente os nossos conhecimentos, para que façam sentido.
Para iniciar o debate, São Tomás mais uma vez proporá a hipótese adversa, que ele quer ver debatida: parece que quando atribuímos as mesmas palavras a Deus e às criaturas, elas são atribuídas univocamente. E ele trará três argumentos em favor desta hipótese e, dada a importância da problemática, serão dois argumentos sed contra, em vez de apenas um, como é habitual na Suma.
Já sabemos o que é um termo unívoco: é aquele cujo campo semântico não comporta ambiguidade. Assim, por exemplo, quando falo de cão, posso estar a me referir ao cão doméstico, ao cão de uma arma ou mesmo à constelação de Cão Maior. É um termo equívoco, portanto. Mas se falo “canis lupus”, refiro-me univocamente ao animal mamífero que ladra e uiva. O nome científico de uma espécie é, ou pretende ser, sempre unívoco. O termo unívoco, portanto, designa sempre as coisas que pertencem à mesma espécie ou, no mínimo, ao mesmo gênero. O termo equívoco designa coisas que não compartilham entre si nem a espécie, nem o gênero.
O primeiro argumento objetor discutirá a própria noção de univocidade e equivocidade, explorando não apenas a dimensão semântica, mas a própria dimensão ontológica dos termos. É preciso lembrar que São Tomás viveu antes da explosão nominalista, na qual nossa mentalidade foi formada, e que separa radicalmente a esfera das coisas que são da esfera da nossa linguagem. Esta separação não era prevalente no tempo de São Tomás e, em todo caso, ele jamais a aceitou. Bom, este primeiro argumento quer discutir, principalmente, o que é mais fundamental: a univocidade ou a equivocidade.
No plano semântico, o argumento traz exatamente o exemplo da palavra “cão”. Ela é uma palavra equívoca, já que no seu campo semântico estão incluídas coisas que não pertencem à mesma espécie, e sequer ao mesmo gênero. São Tomás lembra que esta palavra pode nomear os cães domésticos, mas também pode nomear um peixe, o peixe-cão. Mas ocorre que a equivocidade tem um limite: quando ela nomeia um cão mamífero, que ladra, ela o faz univocamente para todos os animais que pertencem à espécie “canis lupus”. Assim, antes de ser fundamentalmente equívoca, o que a tornaria imprestável para a comunicação (uma vez que seu significado se multiplicaria ao infinito, se a cada vez que ela fosse mencionada ela tivesse a equivocidade como característica essencial), ela é fundamentalmente unívoca para cada significado que comporta, e equívoca apenas no conjunto dos seus significados. E com isto o argumento concluirá, adiante, que a univocidade e mais fundamental do que a equivocidade, em nossa linguagem, estendendo esta conclusão para a nossa fala sobre Deus.
Mas o argumento prossegue. No plano ontológico, ele nos lembra que existe uma dupla causalidade eficiente. Há uma causalidade unívoca, quando um ser agente gera outro ser igual a si mesmo. É o caso da reprodução humana, ou mesmo da reprodução dos seres vivos em geral. E há uma causalidade equívoca: São Tomás nos traz o exemplo do sol, que, de acordo com a física do seu tempo, era fonte de pura luz, mas, embora não fosse quente em si mesmo, gerava calor naquilo que iluminava. Seria um exemplo de agente equívoco, cuja causalidade geraria efeitos completamente diversos do próprio ser do agente. Hoje sabemos que o sol não é assim, e que o calor que ele gera é unívoco com seu ser; mas a substituição do exemplo não invalida a linha de raciocínio do argumento. Pensemos num arquiteto construindo uma casa: ele também é um agente equívoco, neste sentido. O argumento então prossegue para considerar que a causalidade unívoca é mais fundamental do que a causalidade equívoca. Ora, se tanto no plano semântico como no plano ontológico a dimensão unívoca é mais fundamental do que a dimensão equívoca, então o argumento concluirá que os nomes atribuídos tanto a Deus quanto às criaturas devem ser predicados univocamente.
O segundo argumento também explora a definição de equivocidade, partindo de um argumento bíblico: onde há equivocidade não há semelhança, diz o argumento. Mas as Escrituras nos ensinam que existe semelhança da criatura com Deus (Gen 1, 26). E o argumento conclui que, portanto, por força desta semelhança, pelo menos alguma coisa se pode atribuir univocamente a Deus e às criaturas. É uma conclusão menos forte do que aquela do primeiro argumento, mas ainda assim introduz a univocidade como uma dimensão possível nos termos que se referem a Deus e às criaturas.
O terceiro argumento é filosófico: parte da visão metafísica de Aristóteles. Quando ele fala de medida, Aristóteles afirma que a medida deve sr homogênea com aquilo que é medido; se devo medir uma extensão,, tenho que tomar uma medida extensa, se devo medir o peso, devo tomar uma medida pesada, e assim por diante. Ora, Deus é a medida de todas as coisas, segundo o argumento cita Aristóteles. Logo, Deus tem que ser homogêneo com as criaturas, e o argumento conclui que é possível usar palavras para Deus e para as criaturas de modo unívoco.
São Tomás coleciona, agora, dois argumentos sed contra. O primeiro tem um fundo mais lógico. Se eu afirmo alguma coisa de vários sujeitos, usando a mesma palavra, mas com sentidos diferentes, eu estou usando esta palavra de modo equívoco. Assim, por exemplo, a sabedoria, nos seres humanos, é um acidente, relacionado com uma qualidade. Mas em Deus não é assim; Deus não tem acidentes, e , por isto, quando eu predico dele a palavra “sabedoria”, eu não estou falando de uma qualidade acidental em Deus, mas de uma dimensão da sua substância, que nele se confunde com a própria essência divina. Ora, se a sabedoria é do gênero dos acidentes nos seres humanos, mas é do gênero da substância em Deus, não há identidade nem mesmo de gênero entre estes dois usos da palavra; logo, a palavra está sendo usada, diz este argumento, de modo equívoco para Deus e para os seres humanos.
O segundo argumento sed contra é mais ontológico: há criaturas que distam tanto entre si que delas não conseguimos predicar nada univocamente. Para lembrar de exemplos muito próprios do universo tomista, pensemos numa pedra, por um lado, e num anjo, por outro. A pedra é puramente uma forma corporal inanimada e corruptível, enquanto o anjo é uma inteligência incorpórea e imortal. Será muto difícil predicar alguma coisa univocamente de uma pedra e de um anjo. Asim, o argumento conclui, muito maior é a distância entre qualquer criatura e Deus. Logo, segundo o argumento, qualquer coisa que se predique da criatura e de Deus será sempre predicado de modo equívoco.
Nós precisamos nos lembrar sempre que os artigos da Suma não são uma disputa entre dois campos, dos quais São Tomás elegerá um. São um debate dialético muito profundo, no qual um argumento que rebate um argumento falso não necessariamente é verdadeiro, e vice-versa. Veremos isto muito claramente neste artigo: dos argumentos objetores iniciais, que defendem a univocidade da linguagem teológica, e dos argumentos sed contra, que defendem a sua equivocidade, São Tomás fará, em sua resposta, uma síntese: a analogia. Veremos isto no próximo texto.
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